Giro nos Estados

Pesquisas contribuem para gerar novas alternativas de renda no interior de Sergipe

Difundir o conhecimento produzido nas universidades e centros de pesquisa e utilizá-lo como instrumento para a resolução dos problemas enfrentados pela sociedade são dois dos principais desafios de todos aqueles que estão ligados ao setor. Em Sergipe, essa situação começa a ser modificada graças ao trabalho desenvolvido pelo Governo do Estado, por meio da Fundação de Apoio à Pesquisa e à Inovação Tecnológica (Fapitec). Uma das principais ferramentas utilizadas para aproximar a ciência dos cidadãos é o lançamento de editais de tecnologias sociais.

O conceito de tecnologia social propõe a união do conhecimento cientifico, da sabedoria popular e da organização da sociedade na oferta de soluções que contribuam para promover o desenvolvimento econômico das regiões onde elas serão aplicadas. Assim, as informações produzidas no meio acadêmico são adaptadas às realidades locais e contribuem para a resolução de diversos problemas.

Em Brejão dos Negros, povoado localizado no município de Brejo Grande,um dos mais baixos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) de Sergipe, durante muito tempo a pesca foi a principal fonte de sobrevivência dos moradores. Com a ajuda de técnicos governamentais e da iniciativa privada, a apicultura passou a ser utilizada como uma nova alternativa de renda. A atividade começou a dar resultados e aos poucos foi atraindo mais interessados.

A rotina dos moradores foi novamente transformada quando o professor do Departamento de Biologia da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Edílson de Araújo, detectou a possibilidade de produção de pólen apícola naquela região. O pólen é o gameta masculino das plantas e é utilizado pelas abelhas na alimentação de suas larvas. Sua composição química é rica em aminoácidos e proteínas, o que o torna bastante procurado por atletas e praticantes de atividade física. O quilo do pólen é comercializado em média por R$ 30, enquanto o do mel custa quatro vezes menos.

Depois de interagir com os cidadãos, o professor elaborou um projeto para implementar no local uma unidade de produção de pólen. A proposta foi submetida ao edital e aprovada, o que garantiu a liberação dos recursos. Trinta membros da Associação de Pescadores de Brejão dos Negros foram capacitados e passaram a desenvolver a nova atividade.

“Com o declínio da pesca, era preciso oferecer uma alternativa de geração de emprego e renda para aquelas pessoas. O povoado reúne todas as condições necessárias para a produção de pólen apícola, já que e cercado por áreas de restinga e apresenta muitos coqueiros.”, explica Edilson.

Transformação
O novo produto permitiu que pessoas como a professora Jucilene Santana e o ex-professor de Matemática Gilvan Honorato conseguissem uma nova fonte de recursos. Junto com seus vizinhos eles decidiram investir na criação das abelhas para a produção do pólen. Apesar das dificuldades, os resultados começaram a aparecer. Se no inicio todos os enxames garantiam 1,5 kg de pólen por dia, atualmente a produção chega a 15kg diariamente. A atividade gerou resultados tão positivos que Gilvan deixou de lecionar para dedicar-se exclusivamente ao novo trabalho.

A mercadoria passou a ser comercializada em feiras e passou a despertar a atenção de moradores de diversos estados. Hoje o produto fabricado pelas abelhas de Brejão dos Negros é comercializado em São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Brasília e Tocantins. O pólen sergipano foi considerado em 2009 como o melhor em qualidade e sabor da região Nordeste.

O negócio prosperou e passou a envolver dezenas de jovens do povoado. Com o crescimento da atividade, foi fundada a Associação Brejograndense de Criadores de Abelhas e Artesãos (Abeca). O que antes parecia uma aposta transformou-se em uma importante fonte de emprego e renda para os cidadãos.

“Muitos jovens deixavam o povoado quando concluíam o ensino médio porque não havia aqui nenhuma perspectiva para melhorar de vida. Com o pólen, esse cenário começou a mudar. Hoje eles expressam a vontade de também serem criadores de abelhas”, ressalta Jucilene.

Com a produção já consolidada, o professor Edílson de Araújo e os moradores elaboraram um novo projeto para a região. O objetivo agora é estimular a criação de abelhas sem ferrão, prática cientificamente conhecida como meliponicultura. Em Brejo Grande foram identificadas dezenas de abelhas mandaçaias, uma dessas espécies. A criação racional desses animais é uma tecnologia que poderá assegurar sua manutenção nesses locais, alem de gerar ocupação e renda familiar. A proposta foi submetida ao edital e aprovada pela Fapitec.

O projeto permitirá transferir a tecnologia de produção de caixas racionais de mandaçais, de criação, manejo e multiplicação de ninhos e produção de mel, além de montar um meliponário modelo que sirva de base e centro de Educação Ambiental para a Comunidade de Brejão dos Negros.

Gilvan Honorato é um dos mais empolgados com a proposta. “Com a criação dessas abelhas poderemos comercializar os enxames que serão aqui reproduzidos. Mais do que uma alternativa de renda, estamos conseguindo preservar uma espécie tão importante para a nossa região e despertando nos outros indivíduos a necessidade de conservação da natureza”.

O doce de Saramém
Também em Brejo Grande, mas dessa vez no Povoado Saramém, um outro projeto de tecnologia social contribuiu para modificar o cenário daquela região. A proposta para enfrentar a dependência da pesca se deu através da organização e capacitação das doceiras daquela localidade. A produção de doces é a principal atividade das esposas dos pescadores.

Conhecendo os problemas do local, o professor da Universidade Tiradentes (Unit), Álvaro Silva Lima, elaborou uma proposta para reunir em uma cooperativa todas as mulheres envolvidas com a atividade. Juntas, elas passaram a receber informações sobre melhorias das condições de trabalho e, através de pesquisas desenvolvidas no laboratório da instituição, aprenderam a produzir os doces de forma padronizada.

“Os doces de Brejo Grande sempre foram reconhecidos em todo o estado por sua qualidade. Apesar disso, percebi que era necessária a organização dessas mulheres para que fosse possível alcançar novos mercados e melhorar o processo produtivo”, destaca o professor.

Com os recursos liberados pela Fapitec foi possível montar uma cozinha experimental na sede do povoado. Os resultados começaram a aparecer. As doceiras conseguiram reduzir o custo de aquisição das matérias-primas, acabar com a presença dos atravessadores, padronizar as mercadorias e elevar o valor do produto final. Outras conquistas importantes foram o conhecimento sobre como promover as mercadorias em feiras de artesanato em outras cidades e a construção de um ponto fixo para a venda dos doces em Brejo Grande, tradicional ponto de passagem para os turistas que visitam a Foz do São Francisco.

“A partir desse trabalho, vemos que as doceiras estão mais motivadas para produzir. Conseguimos aumentar o nosso lucro, melhorar a qualidade do produto e conquistar novos clientes. O doce do Saramém já é conhecido em Sergipe e em breve conquistará outros estados”, diz Maria Orlando dos Santos, mais conhecida na região como a Maí do Doce.

Um novo projeto, também aprovado pela Fapitec, prevê a consolidação da cooperativa e a oferta de novos cursos de capacitação.

O fogão solar
Os editais de tecnologia social não beneficiam apenas a população do Alto Sertão sergipano. Bem perto da capital, no município de São Cristóvão, mais precisamente no povoado Revoada, uma experiência trouxe mudanças para o cotidiano dos moradores. A partir de um projeto desenvolvido pelo professor do Departamento de Engenharia Mecânica da UFS, Paulo Mário de Araújo,os cidadãos aprenderam como produzir um fogão solar que estivesse adaptado às condições ambientais, culturais e sociais da região.

O projeto de um fogão feito a partir de caixas de papelão foi desenvolvido junto aos jovens de uma escola do povoado. Lá, eles perceberam que o novo objeto poderia reduzir os riscos de degradação ambiental, já que a lenha era a principal fonte de energia utilizada, e representava uma economia significativa, já que processava uma energia gratuita e abundante, que era a radiação solar.

“Com o projeto também foi possível estudar os impactos sócio-culturais trazidos pela presença do fogão naquela comunidade após a substituição do uso dos fornos tradicionais feitos à lenha ou a gás”, ressaltou o professor. A partir dos ensinamentos difundidos na escola, os jovens repassaram as informações transmitidas para seus familiares e vizinhos.

Compromisso
De acordo com o diretor-presidente da Fapitec, Ricardo Santana, ao conceder incentivos ao desenvolvimento de pesquisas de caráter social, o Estado contribui para a melhoria das condições de vida da população sergipana. “Somente com dois editais foram destinados mais de R$ 500 mil para esses projetos. Estamos promovendo uma interface entre a ciência e a ação, buscando soluções simples, auto-sustentáveis e eficientes para as dificuldades enfrentadas pelos cidadãos”.

Os recursos aplicados pelo Governo provêm do Fundo Estadual para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funtec). São destinados até R$ 30 mil para cada projeto. As propostas têm seu prazo de execução estabelecido em até 24 meses, contados a partir da data da primeira liberação de recursos.

Os projetos podem ser elaborados por instituições de pesquisa, prefeituras, associações de caráter comunitário, organizações não governamentais e coordenador/pesquisador com formação mínima de mestre, vinculado às referidas entidades, além de ser cadastrado no sistema de Currículos Lates do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Fonte: Wellington Amarante / Secretaria do Desenvolvimento Econômico, da Ciência e Tecnologia e do Turismo

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