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Pesquisadores de Uberlândia desenvolvem diagnóstico rápido e preciso para infarto do miocárdio

Trezentos mil mortos. O número, que assusta, poderia ser o resultado da desolação de uma nação por algum fenômeno da natureza. Ou o saldo de uma guerra. Mas está bem próximo da realidade e do dia-a-dia dos brasileiros: representa a média de pessoas que perdem a batalha contra as doenças cardiovasculares, por ano, no País. Um quadro que se repete em nível mundial: esses males são considerados, há tempos, a principal causa de morte no planeta e motivam estudos, de Norte a Sul, do Ocidente ao Oriente, na busca por conhecimentos que permitam melhores resultados nesse combate. Em Minas Gerais, uma equipe da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), no Triângulo, trabalha na proposta de uma técnica apurada para diagnóstico do infarto do miocárdio, uma das mais conhecidas – e temidas – enfermidades do coração.

Com o apoio da FAPEMIG, o projeto foi desenvolvido por pesquisadores do Laboratório de Biomateriais do Instituto de Genética e Bioquímica e do Laboratório de Filmes Poliméricos e Nanotecnologia do Instituto de Química da UFU. O método baseia-se na utilização de biossensores – sistemas que usam reações bioquímicas que ocorrem a partir de DNA, enzimas, tecidos, organelas, células, antígenos ou anticorpos para detectar um determinado componente. O objetivo é reduzir o tempo necessário para o exame, proporcionar menor custo e mais facilidade na análise, características que são de grande interesse, tanto para o paciente, quanto para o sistema de saúde.

A coordenadora da pesquisa, professora Ana Graci Brito Madurro, do Instituto de Genética e Bioquímica da UFU, ressalta a importância da identificação rápida de um quadro de infarto para a sobrevivência do paciente, devido ao caráter progressivo da doença. “A demora no diagnóstico pode afetar de forma intensa o funcionamento do coração, vasos sanguíneos e linfáticos que formam o sistema cardiovascular, levando à morte”, detalha. Por outro lado, a detecção precoce pode aumentar as chances de recuperação e reduzir o tempo de internação, colaborando para diminuir o impacto social e econômico na família do paciente. Reflexos significativos também são visualizados para o sistema de saúde do País, com a queda nos gastos hospitalares, inclusive em unidades de terapia intensiva.

Atualmente, o diagnóstico do infarto agudo do miocárdio em salas de emergência é baseado em sintomas, eletrocardiograma, angiografia – uma espécie de radiografia da anatomia do coração e vasos sanguíneos que utiliza contraste iodado – e exames de sangue para detecção de substâncias indicativas (marcadores específicos). No caso desses últimos, os resultados podem ser obtidos em cerca de duas horas. Segundo Ana Graci, apesar de existirem vários testes disponíveis, nenhum é altamente sensível e específico, particularmente nos momentos iniciais do infarto. E, embora sejam relativamente eficazes para monitorar o quadro clínico, as técnicas demandam mão de obra qualificada, custo elevado e longo tempo de análise.

Quando ocorre o infarto, que é a morte de parte do tecido do coração, há a liberação, na corrente sanguínea, de uma grande quantidade de enzimas cardíacas. A dosagem dessas substâncias, normalmente encontradas em baixos níveis no plasma de pessoas saudáveis, é indispensável para o diagnóstico definitivo do infarto, pois a elevação dos valores indica lesão do tecido ou órgão específico. Muitas vezes são realizadas várias medições no decorrer do dia para melhor avaliação e acompanhamento do quadro clínico.

Praticidade e precisão

O diagnóstico proposto pela equipe da UFU utiliza a troponina T cardíaca, um marcador já conhecido e considerado padrão-ouro pelos estudiosos, devido à sua alta sensibilidade e ao tempo em que pode ser detectado no organismo – torna-se mensurável de três a quatro horas após o infarto e permanece no organismo por até duas semanas. A ideia é facilitar a sua mensuração por meio da utilização de um biossensor para construção de um aparelho portátil similar ao que é usado hoje para medir a glicose. Dessa forma, o resultado seria obtido em cerca de cinco minutos e a análise poderia ser realizada fora do ambiente hospitalar, a partir de uma pequena amostra de sangue.

A metodologia baseia-se na produção de eletrodos impressos, sobre os quais é afixada a biomolécula usada para identificar o marcador em questão. Nesse caso, trata-se de um anticorpo específico para a troponina T cardíaca que, em contato com a amostra de sangue a ser analisada, provoca uma reação capaz de gerar no aparelho ao qual se conecta o eletrodo um sinal elétrico indicativo da presença do biomarcador. O grupo propôs a modificação da superfície desses eletrodos com polímeros funcionalizados, que permitem melhor imobilização da anti-troponina. “Os polímeros tornam o sistema mais seletivo e sensível, além de aumentar a eficiência da fixação e estabilização das biomoléculas, o que contribui para estender o tempo de estocagem dos biossensores, facilitando sua comercialização”, adianta a professora. A produção dos eletrodos impressos está em fase de desenvolvimento, conduzida pelo coordenador do Laboratório de Filmes Poliméricos e Nanotecnologia, professor João Marcos Madurro. “Além do tempo de resposta rápido e do fácil manuseio, o material apresenta grande potencial para miniaturização e fabricação em massa”, destaca Ana Graci.

Já sob patente, o projeto do biossensor para marcador cardíaco encontra-se em andamento, visando à produção independente dos eletrodos impressos funcionalizados com polímeros. Além do desenvolvimento da plataforma, os pesquisadores trabalham em outra etapa importante, que são os testes com amostras reais de pacientes infartados e a determinação do limite de detecção, passos imprescindíveis para a utilização médica em larga escala.

Fonte: ASCOM – FAPEMIG

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