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Giro nos Estados

Pesquisador da FAPERGS recebe Prêmio Gairdner por contribuição à pediatria

O gaúcho César Gomes Victora, pesquisador atuante da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e integrante como pesquisador da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul – FAPERGS, desde 1990, com vários projetos apoiados incluindo um PRONEX- Programa de Apoio a Núcleos de Excelência, recebeu na última terça-feira (28), o Prêmio Gairdner, a mais importante premiação científica do Canadá e uma das mais respeitadas mundialmente na área de ciências da saúde. O anúncio foi realizado em cerimônia realizada na cidade de Toronto, Canadá.

O Prêmio Gairdner distingue anualmente sete cientistas por suas contribuições à pesquisa em medicina e saúde global, tendo premiado, desde 1957, mais de 360 pesquisadores em 30 países. Victora foi vencedor na categoria Saúde Global, com o prêmio-título John Dirks Canada Gairdner Global Health Award, que reconhece avanços científicos que produziram profundo impacto para a saúde em países em desenvolvimento. Cada um dos premiados é considerado um potencial candidato ao prêmio Nobel – entre os laureados do Gairdner, 84 foram posteriormente agraciados pelo Nobel de Medicina ou Fisiologia.

Professor emérito da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Victora obteve a distinção pelo conjunto de seus estudos sobre amamentação e nutrição materno-infantil, que demonstraram o impacto do aleitamento materno exclusivo sobre a mortalidade infantil e os efeitos da nutrição nos primeiros anos sobre a saúde da infância à idade adulta.

Seus estudos definiram o rumo de políticas e campanhas de saúde públicas adotadas hoje internacionalmente.

Pesquisador falou à FAPERGS sobre sua trajetória de pesquisa.

– Como se sente em ganhar mais esta premiação?

Sempre é muito bom ver o nosso trabalho reconhecido dentro e fora do Brasil. Creio que esta premiação reflete todo o desenvolvimento da saúde coletiva, e em especial da epidemiologia em nosso país. Foi um crescimento impressionante desde os anos 1970 e 1980, quando nossa disciplina começou a surgir em nosso meio. Nossas agencias financiadoras, por muitos anos, fortaleceram a pesquisa em saúde coletiva. No Rio Grande do Sul, a FAPERGS ajudou a financiar vários dos meus projetos. E finalmente, a premiação também reflete o trabalho de equipe que realizamos aqui na UFPEL, é um reconhecimento para todo um grupo, mais do que para um indivíduo.

– O senhor teve projetos apoiados pela FAPERGS e foi um dos pesquisadores contemplados por um PRONEX (Programa de Apoio a Núcleos de Excelência) o que representou este apoio para sua pesquisa?

Recebi uma série de apoios específicos da FAPERGS ao longo de minha carreira, que permitiram a continuidade de meus trabalhos na UFPEL. Tive também a honra de receber o Prêmio FAPERGS em 2001, e de participar do Conselho Superior da Fundação nos anos 1990. Fui contemplado com o PRONEX no ano 2000. Este financiamento permitiu o acompanhamento aos 18 anos de idade de mais de 4000 pelotenses nascidos no ano de 1982. Este financiamento foi essencial para manter o acompanhamento de nossa coorte de nascimentos, que atualmente é uma das maiores e mais longas em todo o mundo. Estas pesquisas elucidam a importância de eventos e doenças que ocorrem durante a gestação e os primeiros anos de vida, em termos de determinar a saúde e o capital humano de adultos.

– Como e quando será a cerimônia de premiação? Irá ao Canadá fazer alguma palestra especial por ocasião da cerimônia?

A cerimônia oficial será em 26 de outubro em Toronto. Os premiados viajam durante o mês de outubro por várias cidades canadenses para proferir palestras para diversos públicos, não apenas acadêmicos, mas também para comunidades e estudantes de ensino médio. É uma forma muito interessante de promover a importância da ciência e promover o interesse de jovens em carreiras científicas. Os premiados de 2017 são bastante variados, incluem, por exemplo, o farmacologista japonês que desenvolveu o primeiro tipo de estatina, e o imunologista italiano cujas pesquisas permitiram a criação de vacinas contra hemófilos, pneumococos e meningocos, e a série de palestras engloba, portanto, as perspectivas de diferentes disciplinas científicas.

– Ao olhar sua trajetória científica de quase 40 anos dedicados à saúde materno- infantil e à epidemiologia, o que destacaria como lição para as próximas gerações?

Eu gostaria de ser lembrado por haver realizado pesquisas que efetivamente influenciaram políticas globais e nacionais, e que portanto contribuíram para melhorar as condições de saúde de crianças e de mulheres, particularmente aquelas em maior vulnerabilidade social. O fato de que a grande maioria dos países do mundo recomenda o aleitamento exclusivo por seis meses, e de que também adotam as curvas de crescimento baseadas em crianças amamentadas são para mim, que estive envolvido nestes estudos, a melhor recompensa. Para as próximas gerações de cientistas, recomendo que trabalhem muito para conseguirem realizar pesquisas rigorosas, mas que não percam de vista a função social da ciência.

– Nesse momento crítico das finanças nacionais, como o professor vê o futuro da ciência brasileira?

Eu já mencionei o papel positivo das agências financiadoras nacionais e estaduais, como a FAPERGS, na criação de uma grande comunidade científica dentro da saúde coletiva. Infelizmente, as mudanças recentes nas políticas federais nas áreas de saúde e de ciência e tecnologia estão na contramão deste processo, e todo um trabalho criado ao longo de décadas se encontra seriamente ameaçado.

Pensador da epidemiologia da saúde infantil, Victora é reconhecido mundialmente na área da saúde e igualdade na infância

Em 1991, Victora foi co-fundador do Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia da UFPel. Professor visitante das Universidades de Londres e Johns Hopkins, nos Estados Unidos, já orientou 11 doutores e 17 mestres. Recebeu o Prêmio Conrado Wessel de Medicina em 2005 e, em 2006, foi eleito para a Academia Brasileira de Ciências (ABC).

A dedicação de mais de 40 anos de pesquisas na área da epidemiologia e saúde infantil tem reconhecimento internacional, Victora ocupa posições honorárias nas universidades de Harvard, Oxford, Johns Hopkins e Londres.

Responsável por estudos que são usados como base pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para as recomendações sobre aleitamento materno, Victora se destacou mundialmente por realizar pesquisas com nascidos em décadas diferentes (1982, 1993 e 2004) e acompanhar a saúde deles ao longo dos anos. Com isso ele pôde comprovar que crianças que ganham peso até dois anos de idade têm mais chances de serem altas e inteligentes e as que ganham peso posteriormente têm maior tendência a obesidade na fase adulta.

Levando em conta os diferentes extratos sociais em seus trabalhos, o gaúcho foi um dos pioneiros em apontar como a disparidade social afeta o desenvolvimento de crianças.

Fonte: Fapergs

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