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Pesquisa sobre asma recebe prêmio L’Oréal –Unesco-ABC “Para Mulheres na Ciência”

A busca de terapias mais efetivas para o tratamento de problemas respiratórios crônicos rendeu à médica Fernanda Ferreira Cruz, de 32 anos, o Prêmio L’Oréal –Unesco-ABC “Para Mulheres na Ciência”. Especialista em Medicina Regenerativa, ela é uma das sete vencedoras da edição 2018 e receberá bolsa de R$ 50 mil para impulsionar suas pesquisas na busca de soluções menos invasivas para a asma grave e para a doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC). A lista das vencedoras foi divulgada na primeira quinzena de agosto e a cerimônia de premiação será realizada no dia 4 de outubro, na sede da L’Oréal, no Rio de Janeiro.

Além do reconhecimento de uma carreira integralmente dedicada à pesquisa, Fernanda Cruz também comemora a oportuna ajuda financeira, num momento de contingência no orçamento das entidades científicas e acadêmicas. “A conquista do prêmio é, também, um importante incentivo aos meus colegas de trabalho e alunos de Iniciação Científica e pós-graduação do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IBCCF/UFRJ)”, afirma.

Dificuldade de respirar, tosse, chiado, aperto no peito e respiração curta e rápida são os principais sintomas da asma. Sua origem pode ser genética – como a existência de histórico familiar – e seu quadro geralmente é intensificado por fatores ambientais como frio excessivo, poluição, odores fortes etc. Professora Adjunta no IBCCF, Fernanda explica que a terapia mais comum para asma busca o controle dos sintomas e a melhoria da função pulmonar. Em geral, o tratamento é feito com medicamentos de ação anti-inflamatória, em especial os corticoides sistêmicos ou inalatórios, geralmente associados aos broncodilatadores (as “bombinhas” de asma) e à adoção de medidas educativas e de controle dos fatores que disparam a crise.

Patologia respiratória bastante comum, a asma afeta, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 300 milhões de pessoas no mundo e é responsável por aproximadamente 250 mil mortes anuais. No Brasil são 6,4 milhões de asmáticos acima de 18 anos, segundo Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), realizada pelo Ministério da Saúde e Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “Entretanto, de 10% a 20% desse contingente não respondem aos medicamentos disponíveis e a cada crise acumulam mais danos ao tecido pulmonar, o que ao longo do tempo agrava o quadro e aumenta o risco de óbito”, explica a pesquisadora. Este percentual de pacientes é exatamente o grupo-alvo de suas pesquisas, iniciadas com células-tronco, a fim de reverter os danos causados pela doença. Ao longo dos estudos, além de células-tronco presentes na medula óssea, identificaram-se células maduras (monócitos) com potencial anti-inflamatório e regenerativo. “Tais células também são encontradas no sangue, o que abre a possibilidade de a terapia celular não depender de um procedimento tão invasivo quanto a punção da medula óssea”, explica Fernanda.

Segundo a pesquisadora, os monócitos têm origem na medula, mas passam pela corrente sanguínea antes de se deslocarem para os tecidos – como o alveolar – onde são denominados macrófagos. Conhecidos como “faxineiros”, são capazes de limpar restos celulares, partículas inertes ou microrganismos, mantendo os tecidos livres de corpos estranhos, além de exercerem função imunitária. Ela explica que as pesquisas, agora, buscam desenvolver estratégias que aumentem o potencial terapêutico dessas células, seu potencial anti-inflamatório, e entender como elas agem no controle e regeneração de outras células do pulmão, visando melhorias dos diversos sintomas da asma, como a produção de muco, por exemplo.

Graduada com louvor pela Faculdade de Medicina da UFRJ, Fernanda estuda novas terapias para problemas respiratórios crônicos desde sua Iniciação Científica. Contemplada pelo programa Pós-Doutorado Nota 10 da FAPERJ, seu projeto “Terapia Celular em Modelo Murino de Asma Grave: papel dos Macrófagos” foi seu terceiro pós-doutorado, supervisionado pelo professor Marcelo Morales. De 2014 a 2017, sob a supervisão da professora Patrícia Rieken Macedo Rocco, ela recebeu bolsa Atração Jovens Talentos, com verba de consumo do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do programa Auxílio Instalação da FAPERJ para pesquisa em Medicina Regenerativa. Entre 2013 e 2014, seu pós-doutorado em Medicina Regenerativa e Bioengenharia foi fora do Brasil, na Faculdade de Medicina da Universidade de Vermont, nos Estados Unidos, sob supervisão de Daniel Weiss, com bolsa de Pós-doutorado no Exterior do CNPq.

Os projetos de pesquisa relacionados à Fisiologia e Fisiopatologia Pulmonar, Imunologia, Medicina Intensiva, Medicina Regenerativa e Bioengenharia de Fernanda já receberam quatro prêmios da Sociedade Torácica Americana. Com 11 artigos publicados como primeira autora, 27 como coautora, 11 artigos plenos em revistas indexadas, três capítulos como primeira autora em livros internacionais e dois como coautora em livros nacional e internacional, ela foi eleita membro do Programa Jovens Lideranças Médicas da Academia Nacional de Medicina (ANM).

Em sua 13ª edição, o programa “Para Mulheres na Ciência”, desenvolvido pela L’Oréal em parceria com a Unesco e a Academia Brasileira de Ciências (ABC),  recebeu recorde de inscrições, um total de 524 trabalhos, 34% a mais que em 2017. O programa tem como objetivo transformar o panorama da ciência no País, favorecendo o equilíbrio dos gêneros no cenário brasileiro e incentivando a entrada de jovens mulheres no universo científico. Anualmente, são premiados sete jovens pesquisadoras em quatro categorias: Ciências da Vida, Química, Matemática e Física. Em mais de uma década já foram distribuídos R$ 3,5 milhões entre 82 mulheres cientistas, escolhidas por uma comissão julgadora formada por renomados profissionais das áreas científicas. Fernanda foi a única pesquisadora premiada pelo Estado do Rio de Janeiro na edição deste ano. As outras seis contempladas são a bióloga Angélica Vieira, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que investiga o aumento da resistência da população a antibióticos; a bioquímica Ethel Wilhelm, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), que dedica-se a terapias eficazes para causas de dores em idosos; Sabrina Lisboa, biomédica da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP), que busca uma terapia eficaz para pacientes que sofrem de Transtorno de Estresse Pós-Traumático; Jaqueline Soares, da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), que conduz estudo sobre o desenvolvimento de próteses ortopédicas e dentárias mais resistentes, a partir da pedra-sabão; Nathalia Lima, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), cujo trabalho de pesquisa busca aumentar prazo de validade do cimento; e Luna Lomonaco, do Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo (IME/USP), especialista em sistemas dinâmicos, ou seja, sistemas que mudam com o tempo.

Fonte: Faperj

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