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Pesquisa analisa racialização e mestiçagem entre trabalhadores no Amazonas

O Teatro Amazonas é a expressão mais significativa da riqueza de Manaus durante o Ciclo da Borracha. Na época, a capital amazonense era uma das cidades mais prósperas do País, devido à riqueza advinda da exploração do látex da seringueira para a produção de borracha. Contudo, o luxo que era esbanjado e a riqueza dos barões da borracha encobria a forma degradante com que escravos trabalhadores eram tratados.

Para vencer o silêncio a respeito da presença dos escravos no Século 19 no Amazonas, uma pesquisa desenvolvida pelo professor da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Tenner Inauhiny de Abreu, analisou como funcionava a dinâmica social amazonense. Conforme as análises, a sociedade era multiétnica, com a presença de diversos atores sociais de origens e condições diferentes.

Denominada ‘Nascidos no Grêmio da Sociedade: racialização e mestiçagem entre os trabalhadores na província do Amazonas (1850-1889)’, a dissertação foi desenvolvida no âmbito do Programa de Pós-Graduação do Mestrado em História, da Universidade Federal do Amazonas (PPGH/Ufam). A pesquisa foi conduzida sob a orientação da professora doutora Kátia Cilene do Couto e concluída em 2012. Para falar sobre o assunto, Abreu concedeu uma entrevista.

Agência Fapeam (AF): Qual foi o objetivo do trabalho?

Tenner Abreu: Entender a condição física e saúde dos escravos, além do processo de racialização e mestiçagem dos escravos, libertos, africanos livres que constituíam parte da mão de obra da Província. Tive dificuldades para fazer o levantamento, uma vez que as fontes eram escassas. Outra dificuldade foi fazer a separação entre o mundo do trabalho e o da escravidão, com base nos documentos históricos. Tentei resgatar a história de trabalhadores criando e recriando estratégias de sobrevivência e ascensão social que passaram pela experiência do cativeiro, do trabalho compulsório e pelo processo de racialização, característico da época.

AF: Como era visto o mundo do trabalho durante o período analisado? (1850-1889)

Tenner Abreu: O mundo do trabalho estava presente nos jornais e documentos oficiais da época. Não como visto hoje e, às vezes, não separava indivíduos de origem racial diferente ou condição jurídica. A tradição do uso do trabalho compulsório se manteve no período provincial e serviu como pano de fundo para a separação de indivíduos que disputavam o mesmo espaço na cidade.

Existe uma forte tendência a identificar o mundo do trabalho com a formação da classe operária. Então, na sociedade amazonense, só poderíamos nessa visão falar em nascimento do operariado pelo menos no início do período republicano, com a vinda dos imigrantes cearenses por conta do “boom” da borracha. Os escravos libertos e indígenas eram, já no período provincial, vistos e classificados como trabalhadores, como mão de obra (inclusive uma das maiores preocupações dos documentos oficiais era a escassez de mão de obra qualificada). Vencer esta bifurcação é um dos grandes desafios lançados hoje à historiografia escravista na atualidade.

AF: Você tem como citar um exemplo desse processo de conflitos culturais no processo de ascensão social?

Tenner Abreu: Tive a oportunidade de encontrar o caso do Padre Daniel Marques de Oliveira, que era pardo, portanto liberto. Numa sociedade fortemente marcada pelo preconceito contra os escravos e ex-escravos, o padre conseguiu certa mobilidade social e atuou de maneira bastante firme na construção de mecanismos que possibilitassem a outros trabalhadores uma possível ascensão social. Ele denunciava irregularidades das autoridades da Província, atuou como deputado provincial, vigário e professor. A atuação dele como padre ou trabalhador se confundia com seu papel político.

AF: Professor, o que seria a dinâmica social amazonense?

Tenner Abreu: Era a maneira com que a sociedade se estruturava e, principalmente, como os indivíduos se relacionavam em busca de sua sobrevivência. A sociedade amazonense era marcada por uma forte hierarquia social, em que a origem do indivíduo diversas vezes marcava sua posição na sociedade. Uma sociedade marcada pela influência do uso do trabalho escravo e exploração da mão de obra dos não brancos. Apesar deste peso da origem étnica (na época denominada de racial), os indivíduos criam redes de solidariedade ou disputas que aparecem nas fontes na Província do Amazonas, principalmente nos relatos dos jornais que tratam de brigas, prisões ou fugas envolvendo índios, escravos, libertos e africanos livres.

AF: No trabalho, você diz que conforme as análises, a sociedade era multiétnica, com a presença de diversos atores sociais de origens e condições diferentes. Você poderia exemplificar e dizer o que seria a origem multiétnica?

Tenner Abreu: No censo de 1872 (e em outras fontes, como os Relatórios dos Presidentes de Província) a população era classificada pela sua origem racial, geralmente dividida entre brancos, pretos (que eram sinônimo de escravos), índios e os mestiços. Apesar da predominância de indivíduos de origem indígena nas fontes coletadas em nossa pesquisa, observamos a miscigenação biológica e cultural de maneira frequente e a presença de indivíduos das mais diversas origens raciais (para usar o termo de época). Cafuzos, caribocas, mulatos atapuiados, pretos, pardos, eram assim que se classificavam as pessoas da sociedade amazonense do período. Essas classificações estavam presentes nos relatórios dos presidentes de Província, nos censos realizados no período provincial e nas fontes paroquiais (assentamento de mortos, batismos etc.).

AF: Professor, em que consiste a racialização?

Tenner Abreu: O termo racialização é denominado de ‘termo de época’, ou seja, surge como uma ferramenta analítica construída por historiadores para analisar as relações sociais, a partir do conceito de raça elaborado durante o século 19. No Brasil foi elaborado por Hebe Mattos. Junto com o conceito de raça é, como já dissemos, uma construção do século 19. Raça e cidadania são, na visão da autora, conceitos articulados durante o período do Império para dar conta da realidade demográfica do Brasil naquele momento. De maneira simplista, é classificar os indivíduos pela sua origem racial e/ou cor da pele. Indivíduos marcados pela experiência do cativeiro não tinham acesso completo à cidadania ou civilidade. As pessoas precisavam passar por um processo de civilização ou purificação racial para, usando as palavras dos governantes da época, terem acesso ao ‘grêmio da sociedade’. A sociedade era um clube que nem todos tinham direito de acesso.

AF: Como se dava a ascensão social?

Tenner Abreu: Existiam estratégias distintas de acordo com a origem social do indivíduo, mas a hierarquia social era fortemente marcada pelo preconceito na sociedade amazonense do período provincial. Existia um discurso civilizatório de que, a partir da educação e pelo trabalho, indivíduos poderiam ascender socialmente. A despeito das dificuldades encontradas por escravos e ex-escravos a trajetória destes indivíduos demonstra uma luta constante pela mudança de status social. Não existia uma fórmula, mas era anseio de muitos a mudança de vida.

AF: Você recebeu apoio da Fapeam para o desenvolvimento do projeto. Qual importância o apoio teve?

Tenner Abreu: Recebi apoio pelo que denominamos de RH-Interiorização. Sou professor da rede pública (atualmente também da UEA). Na época, a bolsa foi fundamental para a continuidade de nossa pesquisa, que, graças a este incentivo, encontrou documentação inédita e pôde dar uma contribuição a um tema pouco visitado na história regional. A Fapeam é parceira das instituições de pesquisa no Amazonas, auxiliando pesquisadores em início de formação ou melhor qualificados a produzirem com qualidade social e já vemos o retorno para o Amazonas nas mais distintas áreas do saber. Agradeço à Fundação pelo apoio financeiro e aos meus companheiros do Mestrado em História pelo sonho realizado de me qualificar e fazer pós-graduação. Saudação especial aos companheiros do grupo de pesquisa coordenado pela professora Kátia Cilene do Couto – Grupo de Pesquisa sobre Cultura(s) de Migração e Trabalho na Amazônia, professores Sidney Barata de Aguiar, Ygor Olinto e Robeilton Gomes, que também fizeram pesquisas conosco e receberam apoio da Fapeam no mestrado.

Fonte:  Agência Fapeam – Luís Mansuêto

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