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Mato Grosso do Sul lidera pesquisas sobre Anemia Infecciosa Equina

A anemia infecciosa equina (AIE) é a mais importante doença viral que acomete equídeo. Não há vacinas, nem tratamentos para esta enfermidade e os animais infectados permanecem portadores do vírus por toda a vida. Resulta disso a obrigatoriedade do abate de animais positivos, exceto em áreas consideradas de alto risco, como o Pantanal, onde é permitido o isolamento vitalício. Com o objetivo de diminuir a prevalência da AIE nas tropas pantaneiras, um grupo de pesquisadores liderado pela Dra. Márcia Furlan, da Embrapa Pantanal – Corumbá, MS, desenvolve trabalhos para facilitar o diagnóstico da doença e modificar hábitos inadequados de manejo dos animais.

A reutilização de seringas e agulhas é apontada pelos pesquisadores como a principal via de transmissão da doença. A conscientização de proprietários, peões e tratadores quanto a isso por meio de um trabalho de educação sanitária é a estratégia-chave que tem modificado a realidade das tropas. Os pesquisadores enfatizam a importância do uso e do descarte correto de seringas e agulhas, explicando o impacto dessa atitude. “É muito mais barato utilizar agulhas e seringas descartáveis do que perder um cavalo para a anemia infecciosa equina. No Pantanal, nós temos locais em que não há meio de transporte com que se chegue, a não ser a cavalo. Sem ele, não se maneja a bovinocultura de corte, que é a principal atividade econômica da região. Com uma tropa saudável, você precisa de menos animais, os animais trabalham melhor, enquanto que uma tropa doente rende menos e necessita de mais animais para o trabalho”, conclui Marcia.
Transmissão – quem é o culpado: o homem ou a mutuca?
Ao trabalharem dados fornecidos pela Embrapa Pantanal, pesquisadores da Embrapa Informática Agropecuária (CNPTIA) provaram por meio de modelagem matemática que a alta taxa de prevalência entre animais de serviço no Pantanal se deve a práticas inadequadas de manejo das tropas. “Se, nos anos 70, que foi quando a AIE entrou no Pantanal, nós não tivéssemos a influência da agulha, fosse só a mutuca, nós teríamos hoje 5% de animais infectados, não 50%. A principal via de transmissão do vírus é pelo uso de agulhas e utensílios perfurocortante sujos de sangue contaminado. A mutuca e os insetos hematófagos podem transmiti-lo mecanicamente, ou seja: pegam o sangue contaminado de um animal e transmitem a outro. O vírus permanece no sangue contaminado, que fica na probóscide (aparelho bucal) da mutuca (após ela se alimentar) e não sofre nenhum tipo de transformação no mosquito. É como se fosse uma agulha. Mas a agulha é muito mais eficiente, pois a quantidade de sangue na agulha é muito maior”, explicou Márcia.
De todos os estudos já realizados com enfoque nas tropas pantaneiras, uma das lacunas que ainda resta ser preenchida é com relação ao manejo de potros de éguas positivas para a doença.
Grande maioria de potros de éguas positivas nasce negativa para a doença
Em 2008, a equipe da pesquisadora Marcia Furlan iniciou o estudo que investiga a relação dos potros de éguas positivas com a doença para se estabelecer uma regra de manejo para essa categoria de animais. Para se chegar ao manejo ideal, sua equipe busca estimar a prevalência da AIE nos potros e verificar até com que idade os anticorpos colostrais para a doença permanecem no organismo.
Os estudos do grupo confirmaram o que aponta a literatura científica: a grande maioria dos potros de éguas positivas nasce sem o vírus. Em alguns raros casos, há registro de nascimento de potros infectados, “mas não é comum”, afirma Marcia. Logo após mamarem o colostro de éguas positivas, os potros se tornam sorologicamente positivos. Como a sorologia não é capaz de diferenciar os anticorpos colostrais dos anticorpos produzidos pelo organismo em reposta à infecção, viu-se a necessidade de padronização de técnicas moleculares para chegar a esse nível de distinção pelo diagnóstico. Para isso, elegeu-se a PCR, técnica que detecta o material genético do vírus, ou seja, evidencia uma infecção. “Nós queríamos um método de diagnóstico para contornar os problemas da sorologia, como por exemplo, diferenciar os animais que nascessem infectados”, afirma a pesquisadora.
Os esforços para padronizar o diagnóstico pela PCR foram empreendidos de 2008 a 2013, quando a equipe obteve sucesso. A padronização da técnica foi financiada pela Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia do Estado de Mato Grosso do Sul – FUNDECT, por meio do edital FUNDECT N° 14/2009 – Universal. A partir do uso da PCR, é possível diferenciar potros infectados de potros que possuem anticorpos para a AIE por terem mamado o colostro de mães soropositivas. Foram coletadas amostras de 70 éguas e seus potros no período de um ano, em três fazendas do Pantanal. Metade das éguas eram positivas e metade eram negativas e o sangue era coletado de seus potros desde o mês de nascimento até completarem um ano de vida.
As amostras ainda estão sendo processadas por PCR, no entanto, até o momento, os resultados da sorologia mostram que, para 95% dos potros de éguas positivas, a sorologia é negativa após o desmame, com 12 meses de idade. Isso corrobora com a hipótese de que os resultados positivos nos primeiros meses de vida dos potros sejam devidos apenas aos anticorpos colostrais.
Seguindo as recomendações corretas de manejo, que consistem em utilizar agulhas e seringas descartáveis para cada animal e descartar esse material no local adequado (recipiente de papelão ou plástico de parede resistente e sinalizado como lixo hospitalar infectante e perfuro-cortante), a pesquisadora afirma que a tendência é que os potros que se tornem adultos negativos continuem livres da doença durante a doma e o manejo geral da tropa. Dessa forma, a equipe acredita ser possível baixar a prevalência da AIE em animais de serviço no Pantanal em dez anos.
Fonte: Fundect MS

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