Giro nos Estados

Livro resgata a história do Clamor, que defendeu os direitos humanos em tempos de ditadura

Nascida na Inglaterra, a jornalista Jan Rocha veio ao Brasil em 1969, como correspondente da rádio BBC e do jornal The Guardian. Aqui, fundou a Associação dos Correspondentes Estrangeiros (ACE) e manteve o público inglês informado sobre as violências praticadas pela ditadura brasileira.

Junto com o pastor presbiteriano Jaime Wright e o advogado de presos políticos Luiz Eduardo Greenhalgh, Rocha ampliou seu espectro de ação, ao criar o Comitê pelos Direitos Humanos no Cone Sul (Clamor), que atuou de 1978 a 1991, prestando solidariedade aos presos, perseguidos e refugiados políticos e denunciando os crimes cometidos pelas ditaduras sul-americanas.

Contando com o decisivo apoio de Dom Paulo Evaristo Arns, à época cardeal-arcebispo de São Paulo, e a proteção da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o Clamor funcionava em uma sala localizada no prédio da Cúria Metropolitana.

Mas era uma organização ecumênica. Reunia democratas de diferentes tendências políticas e confissões religiosas ou filosóficas e contava com o suporte financeiro de várias igrejas católicas e protestantes europeias e do Conselho Mundial de Igrejas, organização ecumênica internacional com sede na Suíça.

A vasta documentação acumulada pelo Clamor foi recentemente reunida, organizada e parcialmente digitalizada em uma iniciativa que contou com apoio da FAPESP por meio do projeto CLAMOR: documentação e memória de um comitê pelos direitos humanos no Cone Sul, conduzido pela historiadora Heloísa de Faria Cruz. Reportagem a respeito foi publicada pela Agência FAPESP.

Rocha acaba de publicar agora sua versão da história do grupo Clamor, no livro Solidariedade não tem Fronteiras, prefaciado pelo artista e ativista argentino Adolfo Pérez Esquivel, ganhador do prêmio Nobel da Paz de 1980.

“Apesar de já ter sido publicado um livro sobre o Clamor alguns anos atrás, eu queria contar minha experiência pessoal no grupo. Daí a opção pelo relato na primeira pessoa”, disse Rocha.

“Meu envolvimento foi motivado pelo contato com refugiados principalmente da Argentina. Ouvindo suas histórias, suas denúncias sobre campos de detenção clandestinos, sobre desaparecimento de pessoas, sobre crianças separadas dos pais e todas as outras atrocidades cometidas pela ditadura, eu me senti motivada a participar. De um lado, queríamos ajudar aquelas pessoas, que não dispunham, no Brasil, da proteção do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), pois a ditadura militar não permitiu dar asilo no Brasil. De outro, queríamos denunciar as violações de direitos humanos que estavam sendo cometidas e que a imprensa censurada da época pouco veiculava”, disse.

O trabalho do Clamor deu-se, então, em duas frentes. Uma era a ajuda material prestada aos refugiados, proporcionando moradia, colocação dos filhos em escolas, atendimento médico e psicológico etc. A outra era a divulgação de notícias, com a publicação de um boletim em três línguas: português, espanhol e inglês.

“Nosso objetivo era disseminar informações no Brasil e em outros países da América do Sul. E também na Europa e nos Estados Unidos. Isso nos levou a estabelecer relações com muitos grupos de direitos humanos, na Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile e Bolívia”, disse Rocha.

O grupo contou, desde o início, com o decisivo suporte de Dom Paulo Evaristo Arns. “Antes da criação do Clamor, a Cúria já estava recebendo refugiados por meio da Comissão Justiça e Paz. E Dom Paulo estava bem informado sobre o problema. Ele ficou muito feliz com a criação do Clamor e nos deu total apoio, inclusive oferecendo uma sala na própria Cúria. Nossa proposta era atuar enquanto houvesse uma ditadura no Cone Sul. Por isso, só encerramos nossas atividades em 1991, quando terminou o último regime ditatorial, o de Pinochet, no Chile”, disse Rocha.

Para levar adiante esse trabalho, a jornalista viveu momentos tensos e se arriscou pessoalmente.

“O maior risco que corri foi na Bolívia, quando cobri o golpe de Estado para a BBC, em julho de 1980. Os militares estavam atacando a Igreja, fechando rádios católicas, invadindo seminários, perseguindo religiosos e leigos, divulgando boletins falsos. E Dom Paulo me pediu para estabelecer contato com o arcebispo de La Paz. Porém o risco maior ocorreu na área das minas de estanho, em Oruro, quando eu e dois outros jornalistas fomos presos pelos militares e, depois, ficamos na mão dos paramilitares. Tivemos nossos equipamentos apreendidos, mas consegui esconder uma fita”, disse.

Apesar do modo pessoal, Rocha empenhou-se em contar a história do grupo com a maior objetividade possível.

“Vasculhei milhares de documentos guardados no arquivo do Clamor. Entrevistei todos os membros ainda vivos e dezenas de antigos colaboradores e ex-refugiados em vários locais do Brasil e também na Argentina, no Uruguai e no Paraguai, em Londres e em Bruxelas. Falei com membros das entidades de direitos humanos com quem o nosso grupo colaborou e descobri que o Clamor e seus membros ainda são lembrados com apreço e ternura”, escreveu na introdução.

Solidariedade não tem fronteiras: a história do grupo Clamor, que acolheu refugiados das ditaduras sul-americanas e denunciou os crimes do Plano Condor
Autora: Jan Rocha
Editora: Outras Expressões
Ano: 2018
Páginas: 376
Preço: R$ 35
Mais informações: https://expressaopopular.com.br/loja/produto/solidariedade-nao-tem-fronteiras/

Fonte: Agência Fapesp

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