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Em São Paulo, especialistas discutem o futuro da C&T no Brasil

“O Brasil criou ao longo de sua história um sistema de ciência e tecnologia razoavelmente moderno e operável. O país tem hoje uma base acadêmica forte, forma mais de 10 mil doutores e produz cerca de 14 mil artigos científicos por ano. Mas as discussões políticas sobre ciência e tecnologia precisam agora abordar a qualidade e não a quantidade de incentivos”, disse Carlos Henrique de Brito Cruz.

A afirmação do diretor científico da FAPESP foi feita durante encontro que reuniu especialistas em ciência e tecnologia e jornalistas. O evento, realizado na quinta-feira (19/8), em São Paulo, foi organizado pelo Portal Universia Brasil.

Além de Brito Cruz, também foram palestrantes Ricardo Fasti, diretor-geral do Universia, Angel Landabaso, chefe do setor em Cooperação em Ciência e Tecnologia da Delegação da União Europeia no Brasil, e Ester Dal-Poz, professora da Faculdade de Ciências Aplicadas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Os palestrantes discutiram os rumos da ciência e tecnologia no Brasil com foco na participação de empresas e ampliação da cooperação e visibilidade internacionais, além de estratégias de aproximação dos pesquisadores com os meios de comunicação.

Brito Cruz traçou um panorama da ciência e tecnologia no Brasil, cujos investimentos no setor respondem por 1,09% do Produto Interno Bruto (dados de 2008) do país. “Apesar de esse valor superar o de países como a Rússia, África do Sul, Índia e Chile, entre outros, ainda está abaixo de países como Espanha, China ou Portugal. Há um desafio não só em intensificar, mas também em melhorar esse dispêndio”, destacou.

Mas, segundo ele, é preciso considerar as nuances desses gastos. “Uma coisa é o dispêndio em ciência e tecnologia, outra é o gasto em pesquisa, que é a parte criativa do processo. Quando uma empresa compra um computador novo, isso vale como dispêndio em ciência em tecnologia, mas não envolveu processo criativo para comprá-lo”, explicou.

Segundo Brito Cruz, a parte em que o país está mais atrasado é o dispêndio feito com pesquisa nas empresas. “Isso se reflete no fato de só 30% dos nossos cientistas trabalharem em empresas”, disse.

Mas a mudança de perfil das pesquisas no país tem mudado na última década. “Antes de 1999, toda a política de ciência e tecnologia era voltada apenas para as universidades. A partir daí, a política nessa área passou a perceber que a pesquisa na empresa era importante”, disse.

Brito Cruz salientou ainda que, apesar da vantagem competitiva do Brasil em relação a vários países da América Latina – que se reflete no número de doutores e na produção científica –, desde 2003 os números apontam uma certa estagnação no setor. De 1995 a 2002, a quantidade de artigos científicos produzidos no Brasil cresceu a uma média de 15% por ano. De 2003 a 2009, o índice foi de 7% por ano, embora o volume de investimento tenha crescido, mas em ritmo mais lento.

“As políticas para pesquisa no Brasil precisam se adaptar à evolução do país. Tem sido a mesma política há tempo demais, ou seja, está sendo feita de modo a buscar muito recurso para pesquisa, mas está se buscando pouco melhorar a qualidade de aplicação desses investimentos. É preciso uma política diferente e mais eficaz”, destacou.

Orientação para internacionalização
A importância de se estabelecer estratégias de cooperação internacional foi destacada por Angel Landabaso. Segundo ele, apesar de o Brasil ser estrategicamente interessante para cooperações, falta uma cultura de elaboração de projetos com participação de outros países na pesquisa brasileira.

“Em julho deste ano foram lançados 51 novos editais em várias áreas para cooperação do Brasil com a União Europeia, mas temos tido volume muito grande de projetos que são rejeitados por questões técnicas”, disse.

Segundo o executivo da União Europeia, o Brasil precisa de instituições ou unidades dentro das universidades que possam auxiliar os pesquisadores na orientação de projetos de cooperação. “Faltam informação e instrumentos que avaliem o nível de exigência de cada edital, principalmente nos casos de projetos de cooperação em que há dificuldades adicionais”, disse.

Os Framework Programmes (“programas-quadro”) são o principal instrumento de financiamento utilizado pela União Europeia para apoiar atividades de pesquisa e desenvolvimento de cooperação com países fora do continente.

O Bureau Brasileiro para a Ampliação da Cooperação Internacional com a União Europeia (B.Bice), criado em 2005, é responsável por divulgar e esclarecer os programas disponíveis para participação de brasileiros.

Para Landabaso, o futuro da cooperação científica entre Brasil e UE depende de uma série de fatores. “Interesse mútuo, compatilhamento de fundos , organização de centros conjuntos de excelência, inclusão de política de inovação no setor privado, além de capacitação e otimização das estruturas são medidas que podem ajudar muito nesse processo”, indica.

Outro ponto destacado por Landabaso foi o papel dos meios de comunicação em relação à ciência. “É preciso que os veículos de comunicação não fiquem presos apenas no presente, no factual. É preciso valorizar os temas do futuro”, afirmou.

Ricardo Fasti destacou o papel da Universia, uma rede de cooperação universitária que reúne 1.176 instituições de ensino superior na América Latina e Península Ibérica e que tem como parceiro financeiro o grupo Santander.

“O principal objetivo da rede é apoiar o desenvolvimento de projetos comuns e a geração de novas oportunidades para a comunidade universitária. Ou seja, dentro da ideia de rede, nossa missão é identificar demandas de mercado preenchendo ‘vazios’ estratégicos que englobam formação, fomento à empregabilidade, observatórios e atividades de extensão nas redes sociais’”, disse.

Fasti falou sobre a necessidade de se repensar o tema da inovação dentro dos currículos universitários. “Como preparar os currículos e programas de graduação e pós-graduação para a inovação?”, destacou.

Segundo o diretor, dentro do tema da inovação, uma das linhas de atuação da entidade é identificar as demandas do mercado, identificação de potencialidades desenvolvidas dentro das universidades, aproximação entre os dois grupos e a mediação quando necessário.”Em geral os códigos universitários são diferentes dos códigos empresariais. Nossa tarefa é facilitar esse contato”, disse.

Ester Dal-Poz falou da experiência do Observatório de Inovação em Biotecnologia, criado recentemente e abrigado na Unicamp. Inserido dentro da plataforma de Biotecnologia no Mercosul (Biotecsur), uma iniciativa de cooperação entre a União Europeia e o Mercosul. O objetivo do observatório é auxiliar empresas brasileiras na área de biotecnologia.

“Nossa meta é aproveitar as capacidades científicas e tecnológicas das instituições brasileiras. Oferecemos um conjunto de instrumentos que permite que a inovação vá em frente, que não fique parada na empresa nem na universidade. Auxiliamos empresas que queiram conseguir recursos ou desenvolver projetos, bem como identificamos as barreiras para se colocar um produto no mercado”, disse.

Fonte: Alex Sander Alcântara / Agência FAPESP

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