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Giro nos Estados

Com especialização, jornalismo científico avança no Amazonas

Em meados do século XVII, o alemão Henry Oldeburg criou o periódico científico Philosophical Transactions que dava caráter informal aos textos de cartas expedidas por cientistas sobre suas ideias e novas descobertas. Assim, era dado o primeiro passo para um novo modelo de jornalismo especializado, o Jornalismo Científico.

A I Guerra Mundial, com suas novidades armamentistas, foi o estopim para o surgimento de profissionais ávidos por informações sobre as descobertas científicas. Nessa época foram criadas as primeiras associações de jornalismo científico como a Associação Britânica dos Escritores da Ciência e a Associação Nacional de Escritores da Ciência, nos Estados Unidos.

Segundo o professor da Universidade Metodista de São Paulo, Wilson Bueno, um País como o Brasil, que se caracteriza por um índice elevado de analfabetismo científico, não pode prescindir da contribuição de cientistas, professores e comunicadores sociais no processo de democratização do conhecimento.

O Brasil hoje é o 18º maior produtor de conhecimento do mundo, fazendo parte do IDC (Innovative Developing Countries), que são os países com capacidade de pesquisa bastante desenvolvida, muito embora não sejam (ainda) líderes econômicos mundiais.

Pesquisa publicada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) afirma que os jornalistas são considerados a melhor fonte de informação quando se quer saber de temas de ciência.

Em entrevista ao site Dissertação sobre Divulgação Científica, o editor do caderno de Ciência da Folha de São Paulo, Reinaldo José Lopes, afirmou que o campo do jornalismo científico evolui bastante no Brasil. “Os profissionais estão mais qualificados e atentos. Infelizmente a editoria de ciência sempre foi uma espécie de cereja no bolo, nunca ocupou um espaço privilegiado no noticiário”.

Na opinião do jornalista, a televisão vem dando mais espaço às pautas científicas, mesmo que a maioria seja de programas “enlatados”.  Apesar disso, ainda há espaço para o jornalismo especializado. “O jornalista de ciência deve ser interessado, curioso, ter muita vontade de aprender e um texto agradável. Também é necessário o domínio do inglês, pois é este o idioma que predomina no sistema científico, mesmo em algumas publicações nacionais”, destacou Lopes.

AMAZONAS NO CENÁRIO

Odenildo Sena, secretário de Estado de CT&I. Foto: Érico Xavier

De acordo com o Secretário de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação (SECTI-AM), Odenildo Sena, a comunicação científica está em ascensão. “As instituições de pesquisas também demonstram esse interesse pela profissionalização da divulgação das pesquisas”, afirma.

Uma das ações para estimular a capacitação dos jornalistas na área de CT&I é a especialização em Divulgação e Jornalismo Científico em Saúde e Ambiente na Amazônia. O curso é uma parceria entre a SECTI-AM, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), o Instituto Leônidas e Maria Deane – Fiocruz Amazônia (ILMD) e o Instituto de Comunicação e Informação Científica em Saúde (ICICT) da Fiocruz Nacional, sediado no Rio de Janeiro.

Segundo o biólogo, Sérgio Luz, diretor do ILMD, todos estamos no centro da ciência, visto que ela está em tudo que temos e usamos. Tudo é fruto de pesquisas, sejam as câmeras fotográficas e os celulares que usamos todos os dias, os remédios e as vacinas, as estratégias de saúde para o nosso bem estar e o controle do meio ambiente. “Cabe a nós passarmos isso para a população de forma bem clara, porque é necessário valorizar a ciência e seus benefícios. É um desafio para o Amazonas cumprir esse papel de forma objetiva, a fim de que a sociedade entenda o valor da ciência. A especialização possui grande importância por formar comunicadores que transmitam o valor real do conhecimento científico”, explicou o pesquisador.

O curso forma a segunda turma em agosto de 2014, e a expectativa é que novas turmas sejam oferecidas.

O professor da Universidade de São Paulo (USP), Ricardo Alexino, é um dos docentes do curso. Para ele, a promoção de uma especialização sobre Divulgação e Jornalismo Científico, na Amazônia, inova porque procura direcionar a Ciência àrealidade amazônica. “Ou seja, cria uma identidade de Ciência e capacita os profissionais de Comunicação nessa perspectiva. Isso representa um grande avanço em relação às demais regiões do País que ainda estão muito presas ao ideal da Ciência universal, que se presta mais aos interesses eurocêntricos e norte-americano”.

Alexino diz que na Região Sudeste, especificamente em São  Paulo, é comum ver universidades de ponta, como a própria  USP, falarem em pesquisa de cunho universal e não propor  soluções urbanísticas localizadas. “Só para exemplificar, a  USP é vizinha de uma favela, São Remo, que é separada  dela por um muro. Pouquíssimo se faz por essa população. A  maior preocupação da USP é como se proteger dessa  população. Aplicar o conhecimento científico ali, pouco se  fala”, avalia.

Conforme o professor, esse investimento é muito válido, “quando vejo o Amazonas  preocupado em capacitar profissionais de Comunicação para aprender a lidar com as realidades local e regional é muito inovador. O curso basicamente procura agregar os valores científicos aos valores culturais e isso é muito incentivador”, ressalta.

A assessora de comunicação da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Ana Carla Santos, é uma das formandas e se diz muito satisfeita com tudo que vem aprendendo nesses 15 meses de curso. Para ela, muitos dos módulos oferecidos poderiam ter durado mais de tão interessantes e proveitosos. “Atuo como profissional de comunicação numa instituição de ensino, pesquisa e extensão. O curso ampliou as possibilidades sobre como abordar a temática científica para contribuir com a divulgação daquilo que pode interferir direta ou indiretamente na vida das pessoas, foi uma experiência gratificante”, finalizou.

Fonte: SECTI-AM

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