+55 (61) 9 7400-2446

Giro nos Estados

Com aulas digitais, nota sobe até 30% no Rio

Educopédia oferece material de apoio a professores e alunos de escolas municipais. Escola de SP oferece proposta semelhante.

O uso de tecnologia nas salas de aula na cidade do Rio de Janeiro começa a dar resultados. As 19 escolas que adotaram sistematicamente o uso da Educopédia, plataforma de aulas digitais, registraram notas bimestrais de 20% a 30% melhores do que o restante da rede municipal.

O projeto, que inclui material de suporte aos professores, com planos de aula e jogos pedagógicos, atinge parcialmente 75% das escolas da rede, com uma frequência que varia de uma escola para outra. Pesquisa feita com os alunos mostra que 75% deles acreditam que suas notas melhoraram por conta do uso da plataforma.

O projeto, iniciado há três anos, recebeu até agora um investimento de R$ 20,1 milhões. A maior parte, R$ 15 milhões, veio da Prefeitura. O restante foi pago pelo governo federal, principalmente com bolsas para professores que foram capacitados. Segundo o subsecretário municipal da Educação, Rafael Parente, mentor da Educopédia, cerca de 12 mil professores já passaram por algum tipo de capacitação da plataforma, seja no modo presencial ou a distância.

O princípio de compartilhamento é essencial. A secretaria se apropria de conteúdos abertos, como vídeos e jogos – sempre avaliados – e também disponibiliza tudo que produz na internet, gratuitamente, para quem quiser usar. “A gente não consegue produzir tudo de uma vez, então primeiro faz uma busca para estabelecer parcerias com o que tem disponível. A tendência é que vamos continuar revisando e melhorando. Estamos colocando um botão para que os usuários possam fazer sugestões e críticas”, diz ele.

A Prefeitura investiu R$ 2 milhões na produção de conteúdo. Outras cinco cidades já adotaram a Educopédia. “Os Estados de Pernambuco e da Bahia devem começar parcerias em breve. Mas 200 municípios acessam a plataforma com frequência semanal”, diz Parente.

Em sala

Desde que passou a usar a Educopédia, o aluno Pablo Gomes da Silva, de 13 anos, sentiu que passou a acompanhar as aulas com mais atenção. “Dá mais foco. Quando a gente está falando fica menos concentrado, mais disperso.” Matheus Pereira, de 15, concorda. “Antes eu ficava muito desligado com as conversas. Agora, deixamos isso de lado.” As aulas de ciências são as preferidas dos estudantes do 8º ano para usar a ferramenta.

Os dois são alunos da escola municipal Epitácio Pessoa, no Andaraí, zona norte do Rio. A unidade foi uma das primeiras a implantar a ferramenta em sala de aula, há três anos.

Marco Giraldez Carrera, professor de ciências e matemática da turma, tem uma explicação: “O material disponível é mais visual. Há uma série de vídeos mostrando, por exemplo, o funcionamento do sistema digestivo. Na aula sobre o sistema nervoso, dá para ver a sinapse funcionando”, explica, entusiasmado.

A força da tecnologia é visível. Como é comum ocorrer nas salas de aula do 8º ano, o bate-papo e as piadinhas entre os estudantes são constantes quando o professor entra na classe. De repente os garotos, até então hiperativos e falantes, ficam em silêncio, quase hipnotizados. É só ligar o computador que o comportamento da turma muda. As conversas paralelas quase somem e dão lugar ao diálogo entre alunos e professor. Mas nem tudo está resolvido.

Os estudantes ainda enfrentam dificuldades para acessar o conteúdo em sala, por problemas de conexão na rede Wi-Fi. A velocidade da internet diminui sensivelmente quando todos os netbooks são ligados. Nessa hora, é preciso ter muita paciência. Enquanto os alunos esperam, o professor aproveita para relembrar o último tema abordado.

Para a coordenadora pedagógica da escola, Carla Aida, a principal vantagem da Educopédia é oferecer um conteúdo interativo que pode ser adaptado às necessidades de cada classe. “Quando as coisas são impostas, cria-se muita resistência. O fato de não ser obrigatório agrada a alunos e professores, e todo mundo se apropria da ferramenta”, avalia.

Os alunos também podem acessar todo o conteúdo da plataforma em casa. A estudante Gabrielle Xavier Fernandes, de 15 anos, costuma fazer alguns dos exercícios na companhia do irmão mais velho, que também usa a ferramenta. “Quando estou com dúvida em alguma matéria, ele me ajuda usando a Educopédia”, conta.

Para o professor Lindomar Araújo, trata-se de “uma plataforma para dar autonomia para o aluno, para vencer aquela barreira delimitada pelo quadrado da sala de aula”.

Piloto

A escola é uma das 19 integrantes do projeto Ginásio Experimental Carioca (GEC), da Secretaria Municipal de Educação, onde os estudantes acompanham as aulas em período integral e os professores são polivalentes, ensinando mais de uma disciplina e com um trabalho em regime de dedicação exclusiva.

Escola de SP oferece em site proposta semelhante

No último sábado à tarde, às 16h20, o site da Escola Estadual João Borges, no Tatuapé, zona leste de São Paulo, indicava que oito alunos estavam online. Apesar de tímido, perto do número total de alunos da escola, o número é simbólico em um sábado à tarde de tempo quente.

O portal da João Borges foi criado por uma iniciativa da direção da escola. A Secretaria Estadual de Educação não tem nenhuma diretriz nesse sentido. O vice-diretor, Valter Pedro Batista, explica que a escola usou verba que chega à unidade via Associação de Pais e Mestres (APM) para viabilizar o portal. “Quem alimenta é o professor, que também aprende a ser tutor”, diz Batista, que é professor de Filosofia. “O objetivo é criar um espaço para que os alunos possam desenvolver conteúdo.”

A ideia de desenvolver o portal veio da percepção do comportamento dos jovens. A maioria passa mais tempo na frente do computador, conectado na internet, do que fazendo outras atividades. Era importante, portanto, encontrá-los ali. Em um curso da Rede São Paulo de Formação Docente, do governo do Estado, Batista apresentou como trabalho de conclusão de curso a implementação da ferramenta. “Precisamos ainda tirar o medo que alguns professores têm da internet.”

O site abriga o Espaço Virtual de Aprendizagem, apelidado de EVA, que traz tarefas escolares, cursos livres, uma biblioteca virtual e também o calendário de aulas e avaliações. “É importante que a família possa no mínimo se organizar para quando o aluno precisa faltar”, diz Batista.

Os alunos têm aprovado a ferramenta, apesar de exigirem mais. “Tem muitas coisas interessantes, eu sempre acesso. Mas ainda precisa se tornar um site melhor, um ambiente mais legal”, diz o aluno Paulo Henrique Bertelli Berger, de 18 anos. O projeto está sendo melhorado e há planos de aumentar sua abrangência – como tornar o conteúdo acessível por celular. “Os alunos de hoje não largam o celular. Em vez de tirar o telefone do aluno, ele pode fazer as tarefas pelo aparelho”, diz a diretora, Claudete de Paula.

A direção sonha ainda em criar um estúdio na escola para gravar as aulas e colocar na internet. “O aluno poder assistir em casa seu próprio professor tem um sentido diferente”, diz Batista.

O trabalho da direção da escola não tem passado despercebido. No último Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), a João Borges ficou em primeiro lugar na cidade de São Paulo no ciclo 2 do ensino fundamental (de 6º ao 9º ano).

Fonte: O Estado de São Paulo/ Jornal da Ciência

Próximos Eventos