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Giro nos Estados

Boa Noite, Cinderela: projeto desenvolve novas metodologias investigativas no RJ

Mickey Finn, um famoso contraventor de Chicago nos anos 1920, costumava batizar com um pó branco as bebidas do bar que administrava, servidas a clientes incautos. Prostrados em um sono profundo, esses fregueses eram levados a um quarto nos fundos do bar, onde tinham todos os seus pertences roubados. Abandonados na rua, ao acordar, não conseguiam se lembrar do que tinha ocorrido. O golpe, que ficou conhecido no Brasil como “Boa Noite, Cinderela”, ainda é bastante frequente em vários países. Apesar disso, faltam estudos específicos sobre as substâncias usadas no golpe por aqui, o que levou pesquisadores, como a farmacêutica Eliani Spinelli, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), a realizarem um estudo sobre o tema.

“Procuramos detalhar, de forma minuciosa, como essas substâncias atuam no organismo, e estamos desenvolvendo metodologias laboratoriais para detectá-las em matrizes, como urina e cabelo e, posteriormente, determinar a janela de detecção – ou seja, o período em que a droga pode ser detectada nessas matrizes após o seu consumo”, diz Eliani. O projeto, que recebeu recursos do edital Prioridade Rio, da FAPERJ, deverá disponibilizar informações para auxiliar os profissionais que trabalham nas áreas policial e de saúde. “A ideia é facilitar o entendimento desses profissionais sobre essa prática criminosa e a importância do exame toxicológico, mapear as drogas usadas, em geral hipnóticos, que deixam a pessoa inconsciente, tornando-a um alvo perfeito para roubo e estupro. Mesmo que acordada, porém, sem capacidade de reação, a vítima mais tarde ainda terá uma considerável perda de memória sobre o que aconteceu realmente”, explica a farmacêutica.

De acordo com a pesquisadora, o nome “Boa Noite, Cinderela” pode ter se originado de um programa homônimo de sucesso na televisão, na década de 1970. “Como não temos registros oficiais de acontecimentos relacionados ao golpe, o nome é um indício de que, naquela época, a prática desse tipo de crime teve um crescimento importante no País”, relata Eliani, que acrescenta: “Bem diferente do programa, em que uma moça pobre tinha um final feliz, as vítimas do golpe amargam uma triste realidade.”

Na falta de dados brasileiros, Eliani e equipe pesquisaram golpes semelhantes nos Estados Unidos e em países da Europa, locais onde há muito tempo já vêm sendo realizados estudos sobre o assunto. Na França, o golpe, mais conhecido como “submissão química”, também tem feito muitas vítimas e há também dificuldades para registros oficiais. Segundo a farmacêutica, estudo de 2002 naquele país analisou 137 casos. A maioria das vítimas eram mulheres, entre 15 e 49 anos, e homens, de 25 a 83 anos. Do total, 80% das vítimas não faziam uso regular de nenhum fármaco psicoativo. Os agressores, homens em 57% dos casos, eram pessoas conhecidas das vítimas em 44% dos episódios (conhecimento superficial e recente) e desconhecido em 34% deles. Em 18% dos casos, a vítima foi agredida por vários homens e 14% delas não sabiam por quem tinham sido agredidas. O agressor era do sexo feminino em 12% desses eventos, em geral desconhecidos da vítima. Houve também um agressor “serial” identificado, cujas vítimas eram, especificamente, homossexuais. Quanto ao propósito do ataque, 41% tinham propósito sexual e a vítima era, preferencialmente, mulher. Em 45% das vezes, o propósito era roubo, e a vítima era, preferencialmente, homem. Em 5% das ocorrências, o propósito foi apenas “agressão”.

Os resultados das análises toxicológicas de 125 casos mostraram que 120 eram positivos para alguma substância, e, nos casos negativos, as amostras haviam sido coletadas três dias após o evento. Eliani esclarece que a janela de detecção depende muito do método analítico empregado na análise das amostras. “O certo é que, quanto mais tempo passar, menor a chance de detecção”, diz.

Para administrar o psicotrópico, em 34% dos casos foi usada bebida não alcoólica; em 26%, alcoólica; e, em 21%, por meio do uso de alimentos. Os sintomas mais frequentes relatados pelas vítimas foram sonolência, tontura, confusão e lentidão psicomotora, afirmando que se sentiam ativas, porém submissas. Ou, de outra forma, colaborativas, mas com baixa capacidade de defesa. Nos casos em que o agressor foi localizado e preso, foram encontradas em sua posse substâncias como Lorazepam e Zolpidem.
Em 102 casos, a presença de benzodiazepínicos foi positiva, sendo os mais comuns Oxazepam, Nordiazepam, Diazepam, Bromazepam, Lorazepam, Flurazepam, Alprazolam, Clonazepam, Lormetazepam, Zolpidem, Zopiclone, entre outros, isolados ou em conjunto. Em 12 casos, foram encontrados antialérgicos, como Hidroxizina, Buclizina e Doxilamina. Em sete dos casos foram detectados neurolépticos, como Ciamemazina e Loxapina. Em cinco, barbitúricos, e, em apenas um caso, o GHB – sigla para ácido gama-hidroxibutírico. O álcool estava presente em 47 casos; cannabis – a popular maconha –, em 29; opióides, em dez; cocaína, em sete; anfetaminas, em quatro; e LSD em um. “Mesmo não tendo sido realizado no Brasil, esse estudo é importante, pois nos aponta os principais medicamentos empregados para sedação”, comenta Eliani.

Características do golpe

A pesquisadora, citando um estudo realizado pelo FBI (sigla, em inglês, para Agência Federal de Investigação), dos Estados Unidos, sobre o perfil dos agressores, relata que, normalmente, os agressores têm boa apresentação, falam bem e usam suas habilidades para ganhar a confiança da vítima. E, caso venham a ser confrontados pela vítima após o crime, tentam convencê-la de que o sexo foi consensual, deixando-a ainda mais confusa. “Geralmente, o agressor tem fácil acesso às drogas sedativas e conhece seus efeitos sobre o estado de alerta e sobre a memória. Podem atuar em residências, ambientes de trabalho, ou em outro cenário que o criminoso controla ou não está sob supervisão direta, de modo que pode executar seu plano sem interrupção ou descoberta inesperada”, conta.

Eliani também destaca que o agressor, de um modo geral, tem capacidade de orquestrar as circunstâncias, levando a vítima a algum local em que possam ficar sozinhos. Também pode se valer do fato de que muitos dos sintomas da submissão química se assemelham aos da embriaguez para simular estar cuidando de um amigo ou amiga que bebeu demais e, assim, conduzi-lo da danceteria para casa. “Há relatos de criminosos que oferecem drogas ilícitas ou as adicionam ao sedativo no momento do golpe, para que o exame toxicológico, uma vez positivo, leve todos a pensarem que a vítima era usuária de drogas, como uma forma de destruir sua credibilidade. Também é frequente que, com medo de ser identificada como usuária de drogas, a própria vítima pode decidir não fazer denúncia.”

Detecção das substâncias e nova metodologia

Nos casos de suspeita de “Boa Noite, Cinderela”, os exames periciais podem ser realizados em sangue, urina ou por uma análise do cabelo. “Cada um é indicado para um determinado período de tempo. O exame de sangue só acusa a presença da maioria das substâncias até 24 horas depois do acontecido. Já o exame de urina traz resultados de até 24 – 72 horas após o ocorrido, dependendo da substância e da sensibilidade da técnica analítica empregada. A análise do cabelo é indicada quando o período de detecção para as outras matrizes já estiver ultrapassado, ou para evidenciar o consumo regular de sedativos por parte da vítima. Nesses casos, o cabelo deverá ser coletado no período de 30 a 40 dias após o golpe”, detalha a farmacêutica.

Como na maioria das vezes as vítimas demoram a se lembrar do que aconteceu e ainda levam certo tempo decidindo se vão ou não denunciar o crime à polícia, Spinelli acredita que o exame pericial mais apropriado seja o de análise de cabelo, uma vez que as substâncias que ingerimos permanecem na estrutura dos fios. Por isso, a pesquisadora e equipe decidiram desenvolver inicialmente uma nova metodologia de análise capilar. “Ainda não temos, para esse tipo de exame, padrões e metodologias estabelecidos. Acredito que nosso projeto poderá ajudar bastante na evolução da investigação.”

Com os recursos recebidos pela FAPERJ, foi adquirido um moinho com adaptadores para microtubos descartáveis, capaz de moer pequenas quantidades de cabelos, facilitando o trabalho no laboratório. “Outro método seria picar uma mecha em pedaços de um ou dois milímetros, mas isso dificulta bastante o trabalho do analista e demanda um tempo consideravelmente longo na preparação das amostras. Além disso, os resultados da moagem são mais precisos. “Com o moinho adquirido, podemos pulverizar dez amostras de cabelo de uma só vez, sem risco de uma amostra contaminar a outra.”

Para a análise-teste das substâncias, Eliani tem feito amostras artificias, ou seja, cabelos obtidos do pessoal do laboratório, sabidamente não usuários dessas substâncias, que são pulverizados e fortificados com quantidades conhecidas dos fármacos em solução alcoólica. O projeto conta com autorização da Anvisa, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, para aquisição e uso desses fármacos.

“No futuro, pretendemos utilizar amostras autênticas. Neste momento, estamos trabalhando com o Centro de Pesquisa Clínica do Huap [Hospital Universitário Antonio Pedro, da UFF], com quem estabelecemos uma parceria para obtenção de amostras de pacientes do centro cirúrgico, submetidos à anestesia geral com uso de cetamina, diazepam e midazolam. A coleta das amostras terá início tão logo seja autorizado pelo Comitê de Ética em Pesquisa. Serão as primeiras amostras reais para aplicação do método analítico, já que não temos permissão de analisar casos oficiais”, adianta a farmacêutica. A previsão é de que, com novas metodologias investigativas, o projeto esteja concluído até a segunda metade de 2015. “Acreditamos que nosso estudo e o catálogo que faremos serão de grande valia como instrumento de investigação policial e análise laboratorial”, finaliza Eliani.

Fonte: Faperj

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