Entrevistas

Entrevista com Jorge Werthein, vice-presidente da Sangari

A interface entre educação, ciência e tecnologia é imprescindível para o desenvolvimento de uma nação. E sobre esse assunto, uma das principais autoridades no Brasil é o sociólogo e educador argentino Jorge Werthein.

Formado pela Universidade de Berkeley, além de ser mestre e doutor por Stanford, Jorge Werthein fez carreira na Organização das Nações Unidas (ONU) onde foi representante dos escritórios da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) para Nova York e Washington (1994-1996).

Posteriormente, Jorge Werthein dirigiu a UNESCO no Brasil de 1996 a 2005 e, hoje,  ocupa a vice-presidência da Sangari Brasil, empresa sediada em São Paulo que desenvolve métodos inovadores de ensino de ciências para crianças e adolescentes, com filiais na Argentina e nos Estados Unidos.

Nesta entrevista exclusiva ao CONSECTI, Jorge Werthein fala da importância do ensino de ciências desde as primeiras séries do ensino fundamental, defende a inclusão digital para uma sociedade democrática e reforça a necessidade de formação de políticas de estado para promover a melhora do ensino público brasileiro.

Em maio aconteceu a 4ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação. Uma das demandas feitas pela sociedade na Conferência foi que a Ciência deveria ser focada desde o ensino fundamental, e não apenas na graduação e pós-graduação. Como o senhor vê essa demanda e o ensino de ciências para crianças no Brasil?

Jorge Werthein: Eu acho que a reivindicação da Conferência é fundamental, cheia de verdades. Nós não podemos pensar, em nenhum momento — ainda mais no século XXI, onde o conhecimento e o impacto da Ciência e Tecnologia são tão marcantes — que tenhamos o nosso ensino público, e também um pouco do privado, longe das demandas e das exigências científicas e tecnológicas da sociedade do século XXI.

Quando a Conferência enfatiza a necessidade de se começar o ensino de ciências desde o ensino fundamental, é porque isso já é uma uma realidade nos países desenvolvidos, que compreenderam a importância que isso tinha e definiram políticas públicas e investimentos para essas políticas, fortalecendo o ensino de ciências desde o ensino fundamental.

Mas isso não é um problema só do Brasil, é um problema que temos em toda a América Latina. Quando se analisa, por exemplo, os países latino-americanos que foram compreendidos na avaliação internacional da OCDE [Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico], conhecida como PISA [sigla, em inglês, para Programa Internacional de Avaliação de Alunos], vê-se que todo o conjunto dos países considerados pelo PISA na América Latina estão muito atrasados vis-à-vis os países desenvolvidos, independentemente de encontrarmos alguns países na América Latina, sobretudo na América do Sul, que estão um pouco melhor que o Brasil.

Isso mostra que temos uma deficiência muito grande no ensino de ciências e na importância colocada na ciência e no ensino público de nossa região.

Nós tivemos recentemente eleições para presidente e governadores. Apesar do quadro não estar definido, que sugestões o senhor teria para o novo governo?

 

Jorge Werthein: A Conferência coloca as necessidades e as prioridades de forma correta. A recomendação que dei antes, como representante da UNESCO, em outras eleições — federais, governamentais ou municipais — é que façamos, realmente, o discurso politicamente correto, que mostre a importância que têm Ciência e Tecnologia, o ensino de ciências e a definição de uma política de estado. E esse discurso politicamente correto se torne uma realidade, onde a educação de qualidade e o ensino de ciências sejam realmente uma prioridade. Hoje não é uma prioridade. Temos que reforçar e enfatizar essa política pública de estado, a prioridade pela educação de qualidade e pelo ensino de ciências desde o ensino fundamental com os responsáveis pela implementação de políticas públicas em educação no país.

Espero muito que os governadores eleitos — e os que vão ser eleitos, quando terminar o segundo turno — se comprometam com uma política no ensino de ciências que realmente acelere o processo de desenvolvimento de seus estados, pois precisamos formar recursos humanos com conhecimento científico e tecnológico no país.

O Jornal “O Estado de São Paulo” publicou reportagem sobre uma pesquisa do Insper, que indica que os primeiros quatro anos do ensino fundamental ditam o aproveitamento dos alunos no ensino superior. O senhor acredita que promover a iniciação científica nas primeiras séries do ensino fundamental influenciará positivamente o futuro da pesquisa e da pós-graduação no Brasil?

 

Jorge Werthein: Sim, absolutamente. Isso é uma realidade que se encontra em todo o mundo. O que acontece na maioria dos países da América Latina é que não trabalhamos o ensino de ciências desde o ensino fundamental. E, basicamente, começamos de alguma maneira o ensino de ciências no ensino médio. O que acontece? Não somos capazes de motivar, de mostrar a importância e a atração da ciência desde os primeiros anos do ensino fundamental. Temos muitas crianças — a maioria, lamentavelmente — que se sentem excluídas quando se confrontam com a ciência, pois pensam equivocadamente que é uma disciplina muito difícil para elas, e se distanciam da Física, da Matemática, da Química, e ficam realmente receosas da impossibilidade de compreender esse conhecimento científico tão complexo. Lamentavelmente nossas escolas não conseguem modificar essa percepção. Quando os alunos chegam no ensino médio é muito difícil — muitas vezes quase impossível — conquistá-los para que se interessem na aprendizagem dos temas científico-tecnológicos.

É um problema do Brasil, é um problema na América Latina também. E está sendo um problema em países desenvolvidos, como os Estados Unidos, em que vem diminuindo o número de estudantes universitários que optam por carreiras científicas. Isso acaba prejudicando a produção de cientistas e acaba prejudicando o capital mais importante que existe na sociedade, que é o conhecimento científico. Então a resposta para sua pergunta é que sim, é fundamental o impacto que isso vai ter na quantidade e na qualidade desses futuros alunos universitários se conseguirmos introduzir o ensino de ciências desde o ensino fundamental.

Qual seria uma boa forma de estimular a curiosidade das crianças para as áreas de ciência? A realização de feiras de ciências e olimpíadas de química, matemática, física, etc, são recursos eficientes?

 

Jorge Werthein: Sim, acho que são, mas considero que a forma mais eficiente de interessar as crianças é quando elas passam a maior quantidade de horas e de dias na escola. Ou seja, devemos ter um ensino formal de ciências desde o ensino fundamental, baseado na experimentação, na busca do conhecimento, em pesquisar e buscar respostas ao conhecimento científico. E evitar o sistema antigo, tradicional e ineficiente baseado na memorização, que é um conhecimento que não se adquire pelo aluno. Essa estratégia de ensino, baseada na pesquisa, deve ser reforçada com todas as outras atividades não-formais possíveis, como, por exemplo, competições, visitas a museus e a eventos de caráter científico-tecnológico. Isso é fundamental. Mas só isso não é suficiente, uma vez por ano, para poder motivar esses alunos jovens, para que realmente se interessem pelo estudo da ciência.

Todas essas atividades não-formais são importantíssimas, porque a percepção da sociedade sobre a importância da ciência deixa muito a desejar. A sociedade ainda não compreendeu quão importante é o conhecimento científico e quão importante é o ensino de ciências. O que se precisa aí é de um trabalho de parceria entre os secretários de estado de Ciência, Tecnologia e Inovação, e os secretários de Ciência e Tecnologia das prefeituras, onde existem, juntos com os secretários municipais de Educação. Lamentavelmente, o que se observa não é uma associação forte, uma parceria forte, entre as secretarias de Educação e as secretarias de Ciência, Tecnologia e Inovação. Acho que isso é algo em que devemos concentrar energias, para poder modificar isso.

Segundo a última pesquisa da  UNESCO, o grande desafio do ensino de ciências, no Brasil, é fazer com que os investimentos realizados cheguem de forma homogênea às populações das diferentes regiões. Que tipos de ações podem ser priorizadas pelos nossos governantes para amenizar a desigualdade?

 

Jorge Werthein: Na área da Ciência, como na Educação, Saúde e algumas outras áreas que são eminentemente sociais, devemos implementar uma política de discriminação positiva. Temos regiões que estão historicamente atrasadas em relação ao resto do país, algo que se repete em outros países da América Latina também, com maior ou menor ênfase, sendo países com uma série de discriminações internas. Essas regiões continuam sendo profundamente discriminadas — hoje menos do que ontem, mas continuam ainda — porque há uma dívida histórica muito grande, e que estão atrasadas em relação a outras regiões. Infelizmente, falamos em Nordeste e Norte. Os esforços têm que ser concentrados: mais recursos, mais reforços nesssas regiões.

O crescimento econômico acelerado do país tem causado uma carência de profissionais especializados, principalmente nas engenharias. O que está faltando? Cursos de graduação ou pessoas interessadas nas ciências exatas? Como reverter esse quadro?

Jorge Werthein: Acho que estão faltando pessoas interessadas, como falamos antes. Os alunos do ensino fundamental e do ensino médio não se sentem motivados e suficientemente atraídos para seguir uma graduação e algumas carreiras da área científica. Isso é um prejuízo muito grande para qualquer sociedade, pelo impacto que tem a ciência em qualquer atividade humana que hoje desenvolvemos. Então temos que incentivar isso, mas temos um problema. Não contamos com suficientes professores capacitados para ensinar a esses estudantes do ensino fundamental e do ensino médio, então temos que fazer um esforço muito grande para poder elevar o nível de capacitação para que os professores possam ensinar ciências. Isso está limitado a uma porção de pessoas formadas, e aí está um gargalo importante hoje para o setor produtivo, porque não se está encontrando os recursos humanos necessários para poder responder às demandas que o Brasil está requerendo. Agora, não podemos solucionar isso da noite para o dia. Repito novamente: formular políticas públicas, formular políticas de Estado, para que se priorize o investimento e o ensino de ciências desde o ensino fundamental.

Qual a sua opinião a respeito das iniciativas de programas de inclusão digital nos estados? O computador é uma ferramenta imprescindível para o aprendizado ou está superestimado?

 

Jorge Werthein: A inclusão digital é absolutamente fundamental para qualquer sociedade que quer definir-se como uma sociedade democrática. Não imprimir ao total da população os benefícios da era digital é marginalizá-los e discriminá-los, é continuar enfatizando ou incrementando a deixa entre os que têm e os que não têm. Então, não há nenhuma dúvida de que a inclusão digital é absolutamente fundamental. Mas a inclusão digital não significa também enfatizar de forma desmedida a importância que tem, por exemplo, o acesso à informática, à internet, ao computador. Acho que se corre o risco de exagerar muito, de colocar o acesso a internet e ao computador como as respostas para aqueles problemas que ao longo desta entrevista conversamos. É uma ferramenta importante, é um instrumento super importante, mas isso não vai servir para poder aumentar significativamente a qualidade da educação, que é um problema que enfrentamos no Brasil. Isso que estou comentando é uma apreciação subjetiva minha, sendo que objetivamente temos um número de pesquisas desenvolvidas em muitos países que demonstram que — cuidado, estou diferenciando, o que pra mim é fundamental — com a inclusão digital há uma ênfase nas vantagens que as ferramentas da informática podem trazer para a melhoria da educação. Quando falamos em inclusão digital, uma falha é ter acesso a um nível de informação muito grande, muito importante, mas ao mesmo tempo não conseguir processar essa informação e convertê-la em conhecimento, se você não levar realmente melhorias significativas. Temos que tentar levar [inclusão digital] a essa população, [mas também] a possibilidade de converter informação em conhecimento. Isso você pode passar se você tem um sistema de educação de qualidade.

Qual a sua opinião a respeito do rumo que o Brasil está tomando na Educação, Ciência e Tecnologia? Quais são as suas perspectivas?

Jorge Werthein: Tivemos avanços significativos nos últimos anos, tanto na Educação, como na área de Ciência e Tecnologia. Creio que não têm havido avanços significativos ainda no ensino de ciências, e por isso é tão importante que tenha sido levantando na Conferência Nacional. Há de se continuar trabalhando e continuar sensibilizando para que se definam políticas públicas em educação, para que o ensino de ciências seja colocado como prioridade em todo o ensino fundamental. Nesse aspecto, creio que ainda estamos devendo muito. Por outro lado, em tantas outras áreas de conhecimento cientifico, na produção cientifica, se avançou significativamente, assim como se avançou também em alguns outros aspectos vinculados, por exemplo, o aumento da matrícula educacional, o aumento da matrícula no ensino médio. Mas ainda continuamos com essa profunda dívida histórica que é a pouca qualidade do ensino público.

Que mensagem o senhor gostaria de transmitir para os secretários de Ciência, Tecnologia e Inovação?

Jorge Werthein: O papel dos secretários de Ciência, Tecnologia e Inovação é fundamental. Agora eu também sinto que os secretários têm que receber muito mais apoio. Os secretários de Ciência, Tecnologia e Inovação têm que ter esse apoio político por parte do governador, apoio que significa uma compreensão sobre a necessidade de aumento de recursos para o setor. Os recursos em sua maioria são muito pequenos para poder enfrentar os desafios do século XXI na área cientifico-tecnológica. É fundamental que o governador compreenda essa importância e dê ao seu secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação os instrumentos necessários para que ele possa implementar uma politica científico-tecnológica que tenha impacto no desenvolvimento de seu estado.

(Entrevista concedida a Marco Antonio de Alencar, da Assessoria de Imprensa do CONSECTI)

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