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Universidade dá aula de reforço para aluno da rede pública

Nos últimos oito anos, as escolas públicas não atingiram as metas estabelecidas pelo MEC nos ensinos fundamental 2 e médio. A consequência é um número cada vez maior de alunos chegando ao ensino superior despreparados. Em alguns casos, o universitário tem até dificuldades com as quatro operações básicas de matemática.

Essa é uma realidade que afeta, principalmente, as faculdades particulares com mensalidades mais acessíveis. Porém, as universidades públicas também estão recebendo estudantes com defasagem, em especial, nos cursos com baixa procura ou aprovados por meio de políticas de cotas.

Nesse cenário, as instituições de ensino têm duas opções: reprovar o aluno ou dar aulas de reforço. A segunda alternativa vem ganhando força. As instituições particulares de maior porte já têm aulas de nivelamento e as públicas começam a seguir um caminho semelhante.

A Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) começou a oferecer, no segundo semestre do ano passado, aulas de reforço de matemática, física, química, bioquímica, leitura e produção textual, informática, além de apoio psicológico para quem tem dificuldades de aprendizado. “Atualmente, temos cerca de 800 alunos estão matriculados nesses cursos. Até 2015, a previsão é que 47% dos alunos venham de escolas públicas e por isso criamos uma área de apoio pedagógico”, afirma Janaína Santos, coordenadora da UFSC, que tem cinco campi em Santa Catarina.

A Universidade Estadual Paulista (Unesp), que conta com campi em 25 cidades, vem criando ações parecidas. Em alguns cursos da área de exatas, há aulas de matemática básica na estrutura curricular a fim de preparar o estudante para disciplinas mais complexas como cálculo, cujo índice de reprovação é elevado.

Além disso, desde 2012, um monitor da graduação acompanha, junto com o professor, os estudantes do primeiro ano. “Também criamos uma optativa de redação científica para ajudar os alunos a escrever melhor. Já temos 13 turmas com cerca de 35 matriculados, cada”, diz José Brás Barreto de Oliveira, assessor da pró-reitoria da Unesp.

“Muita gente acredita que nas universidades públicas, os alunos são todos muito preparados. Mas isso acontece apenas em cursos como medicina, engenharia, direito e alguns outros”, ressalta o economista Claudio de Moura Castro, especialista em educação.

Com a aprovação da política de cotas que prevê que 50% dos alunos sejam egressos da rede pública, as três principais universidades públicas de São Paulo – USP, Unicamp e Unesp – tinham planos de criar um “college”, uma espécie de curso preparatório de dois anos para os alunos da rede pública. Somente após esse nivelamento, os estudantes poderiam ingressar no ensino superior. Porém, esse projeto não avançou.

Entre os grupos particulares de ensino superior, a pioneira nesse tipo de ação é a Kroton, cuja última avaliação do Enade, em 2012, mostrou que 80% dos seus cursos foram classificados com notas entre 3 e 5 – mesmo patamar das universidades federais. O desempenho é devido a uma série de ações adotadas pela Kroton para corrigir a defasagem do estudante. Em 2007, a companhia mudou o conteúdo curricular dos cursos, que passou a privilegiar o conhecimento aplicado. Um exemplo: a revisão de logaritmo ou potência é ministrada em conjunto com as aulas de matemática financeira, que exigem um conhecimento prévio dessas duas operações.

Além disso, todos os alunos da Kroton são obrigados a fazer cursos de nivelamento de linguagens, matemática e biológicas por quatro semestres. “O conteúdo das disciplinas é ministrado conforme o nível de conhecimento do aluno para que ele não fique desmotivado”, explica Carlos Henrique Pegurier, vice-presidente de inovação da Kroton.

“As aulas são on-line. Começamos a usar recentemente a plataforma da Khan Academy [ONG do americano Salman Khan] para matemática. Para as demais disciplinas, fizemos uma parceria com a Geek [empresa de tecnologia aplicada à educação] que está adequando nosso conteúdo pedagógico para o formato digital”, complementa Orlando Junior, diretor de avaliação acadêmica da Kroton.

A novidade mais recente da companhia é a adoção de um reforço do conteúdo universitário no último ano de engenharia e direito. A meta é estender esse reforço para as áreas de humanas e sociais no próximo ano, e para os cursos ligados à saúde em 2016.

Não é a primeira vez que as universidades dão apoio a estudantes de ensino médio da rede pública. Muitas universidades públicas, como a Poli e a São Francisco, ambas da USP, e a Universidade Federal do ABC oferecem cursinhos preparatórios para estudantes carentes.

Em paralelo às ações para recuperar à defasagem dos alunos, o MEC e os governos nos Estados se esforçam para envolver as universidades federais e estaduais em programas de formação e qualificação de docentes. Um exemplo é a participação das instituições públicas de ensino superior no Pacto Nacional pela Melhoria do Ensino Médio – uma iniciativa do governo federal em parceria com as secretarias estaduais de Educação para reformular o currículo escolar e a qualificação de professores do ensino médio.

“A universidade tem que ser muito ativa na discussão sobre qualidade na educação básica. Não só discutir, mas correalizar. No momento estão sendo preparados editais nas universidades federais e estaduais de São Paulo para selecionar professores que atuarão na capacitação de professores do ensino médio da rede pública e também na produção de materiais didáticos”, explica Daniel Pansarelli, pró-reitor da Universidade Federal do ABC.

Fonte: Valor

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