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Universidade aprende a trabalhar com empresas

As pesquisas feitas em conjunto por universidades e empresas têm crescido bastante em algumas áreas. Grandes instituições têm se empenhado em aumentar as parcerias, criando agências para fomentar os acordos, incubadoras para abrigar empresas, além de parques tecnológicos.

Setores como engenharia, química ou tecnologia da informação têm mais tradição em trabalhar com pesquisadores de empresas, e outros núcleos às vezes precisam de estímulos para aumentar os acordos. Rogério de Andrade Filgueiras, coordenador adjunto da Agência de Inovação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) lembra o caso da área de biotecnologia, onde havia certa restrição por parte de acadêmicos. Segundo ele, era quase proibido pensar em fazer acordos, por ferir, segundo alguns, a natureza da ciência pura. Eles tinham receio de perder a liberdade acadêmica. “Também fazemos papel de psicólogo”, brinca, para explicar o trabalho para fomentar as pesquisas com o setor privado.

Mas as coisas estão mudando. A Universidade de São Paulo há alguns anos vem se organizando a fim de promover e equacionar questões relativas ao trabalho com as empresas. Na opinião do pró-reitor de pesquisas José Eduardo Krieger, é preciso melhorar o quadro jurídico da instituição, adotar um novo olhar na contratação e processos e desburocratizar. “O processo é irreversível e a USP está preocupada em ter estratégia”, afirma. “Temos muito espaço para evoluir.”

No entanto, é preciso entender o que pode e principalmente o que não pode ser feito dentro de uma universidade. “As coisas nunca vão ser iguais ao ambiente externo”, lembra. Mas o país precisa gerar riquezas e as universidades podem ajudar. “Em parte a universidade tem que se organizar. Mas não estamos mal na fita, não.”

Uma das iniciativas é formar grupos multidisciplinares de pesquisa, transformar solistas, como diz Krieger, em uma orquestra. Em três anos, a USP investiu R$ 250 milhões para formar Núcleos de Apoio à Pesquisa (NAP). Hoje já há 140 deles. São temáticos, mas interdisciplinares.

Quatro entre eles já se transformaram em Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão, ou Cepid, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). “É o sonho de consumo de todo pesquisador”, diz Krieger.

A USP também acaba de inaugurar o Parque Tecnológico do Jaguaré, em conjunto com o Instituto de Pesquisas Tecnológicas e pelo governo do Estado. Vai lidar com tecnologia da informação, saúde, nanotecnologia, fármacos e pesquisas de acessibilidade para pessoas com deficiências.

“A PUCRS tem uma visão estratégica muito clara no sentido de incorporar o empreendedorismo e a inovação como eixos estratégicos”, diz o pró-reitor de pesquisa, inovação e desenvolvimento, Jorge Audy, da Pontifícia Universidade católica do Rio Grande do Sul.

Somente no Parque Científico e Tecnológico (Tecnopuc) atuam mais de 110 empresas e seis mil pessoas. Além do parque, a universidade conta com outros institutos ligados à pesquisa, como incubadora, centro de inovação, escritório de transferência de tecnologia e um laboratório de criatividade. Audy acredita que é necessário um “marco legal mais adequado e estável para a área de inovação”.

Como as outras instituições, a Universidade Federal de Pernambuco aposta na pesquisa com empresas. Entre suas parceiras estão Motorola, Apple e a estatais Chesf e Celpe (de energia elétrica). Segundo Francisco Ramos, pró-reitor de pesquisa e pós-graduação, os laboratórios ajudam muito na formação dos alunos e nas pesquisas. Para ele, muitas vezes os acordos entre empresas e universidades têm que ser induzidos.

No Parque Científico e Tecnológico da Universidade Estadual de Campinas atuam empresas como Lenovo, Samsung, IBM, Banco do Brasil e MC1. No ano passado, a universidade fechou 22 contratos de pesquisa e desenvolvimento com o setor privado. “A Unicamp tem histórico de colaboração com empresas”, afirma Milton Mori, diretor-executivo da agência de Inovação Inova, que auxilia as parceiras privadas a encontrar os pesquisadores mais adequados para suas necessidades.

Apesar dos avanços, ainda existem conflitos relativos às diferenças inerentes entre universidades e empresas. “As empresas têm interesse em resultados de curto prazo, enquanto a universidade visa desafios de pesquisa na fronteira do conhecimentos, que muitas vezes não terão aplicação imediata”, diz.

No entanto, cresce o interesse por parte dos docentes em trabalhar com empresas, em poder usar os recursos de que elas disponibilizam e em abrir uma porta para que os alunos comecem a interagir com a indústria. “Desses casos de interação temos excelentes resultados com benefícios mútuos.” Para facilitar a prospecção de acordos, a Unicamp tem sete líderes de inovação, professores que mantém contato constante com a agência Inova.

Fonte: Valor Econômico

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