Destaques

Um discreto líder rural pragmático e afeito à inovação

O culto à discrição poderia restringi-lo à condição de “eminência parda” do agronegócio brasileiro, onde circula com desenvoltura e é considerado um exemplo de sucesso a ser seguido. Mas a paixão de Jovelino Carvalho Mineiro Filho por pela inovação tecnológica, do campo à saúde humana, e sua lista de amizades influentes, na qual desponta o nome do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o mantêm mais longe dos bastidores do que gostaria – e, por vezes, abrem espaço para polêmicas que o empresário prefere não alimentar.

Considerado visionário em um setor apegado a tradições, Jovelino Mineiro vem se notabilizando nos últimos anos por investimentos em pesquisas contra o câncer, em uma iniciativa que atraiu a atenção do BNDES e de publicações científicas da área de saúde humana. Paralelamente, é dono de cinco fazendas no Pontal do Paranapanema, no oeste paulista, onde planta cana e é um dos principais fornecedores das usinas do grupo Odebrecht, e produz soja em Cornélio Procópio, no Paraná. E se alguns veem nessas atividades algo de paradoxal, o passado faz questão de aproximá-las.

Por obra das andanças de seu avô José Orfila, Jovelino quase se afastou do meio rural, como aconteceu com seu pai. Mas a genética marcada por gerações de fazendeiros prevaleceu e Jovelino retornou às origens familiares nos anos 1980. Farmacêutico da mineira Ouro Preto, José Orfila se casou em Uberaba e, pouco depois, no início da década de 1930, se estabeleceu em Santo Anastácio, no Pontal. Um dos pioneiros do nascente município, “seu” José foi o primeiro vice-prefeito anastaciano. Ali, era proprietário de uma farmácia e de uma fazenda, mas depois de alguns anos decidiu deixar tudo para trás e rumou para a capital paulista.

“Sou de uma família de fazendeiros, mas essa história foi pulada com o meu pai”, lembrou Jovelino em entrevista ao Valor. Paulistano nascido em 1951, o empresário tem uma formação diferente da que marca agricultores e pecuaristas. Economista formado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), enveredou pela sociologia em sua segunda graduação, na octogenária Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP).

Com interesse pelas ciências sociais, em 1974 se mudou com a esposa Maria do Carmo para Paris, onde fez mestrado e doutorado na prestigiosa Universidade de Paris Panthéon-Sorbonne. Naqueles idos, se tornaria amigo de Paulo Henrique Cardoso, filho do sociólogo e futuro presidente da República Fernando Henrique Cardoso. “O professor FHC nunca foi meu professor formal, mas me ensinou muito. O conheci como amigo do Paulo Henrique e nos tornamos grandes amigos”, diz Jovelino, atualmente conselheiro e diretor da Fundação Instituto Fernando Henrique Cardoso (iFHC).

“Ele assistiu umas aulas minhas na década de 1970, creio”, afirma Fernando Henrique. Segundo o ex-presidente, o empresário nunca teve uma atuação política clássica. “Ele funciona basicamente como líder rural (…) Tem mais uma atuação empresarial”, diz. Porém, Jovelino é próximo da geração de políticos que fundou o PSDB, tanto que teve breve carreira no governo.

Nos anos 1980, já de volta ao Brasil, Jovelino foi assessor do governador paulista Franco Montoro e do então presidente da Companhia Energética de São Paulo (Cesp), o físico e professor da USP José Goldemberg. “Ele foi muito útil. Eu o enviei numa viagem à Ásia para ver com os japoneses estavam se orientando em energias renováveis. Mas a empresa [Cesp] estava tão endividada que não tinha margem de manobra”, diz Goldemberg.

Involuntariamente, as dificuldades da gestão pública seriam mais um impulso para que Jovelino se voltasse para a produção rural. “Nunca fui fascinado pelo setor público. No setor privado, conceber e realizar uma ideia está no âmbito da sua atuação. No público, é mais complexo”, afirma.

Foi só no fim da década de 1980 que Jovelino ingressou no setor privado e iniciou a carreira no agronegócio. “Já estava casado há muito tempo. Minha mulher herdou uma série de fazendas e nós fomos tomar conta”. A maior parte dessas propriedades estava no Pontal do Paranapanema, onde os Carvalho estavam radicados quando quase deixaram o campo.

A herança da esposa de Jovelino, Maria do Carmo Abreu Sodré Mineiro, remonta a dois espólios. “As fazendas eram de origem do senhor João Mellão e do senhor Sodré”, conta Jovelino, em referência ao avô de Maria do Carmo, oriundo de uma tradicional família de fazendeiros paulistas, e a seu sogro, o ex-governador de São Paulo Roberto Abreu Sodré (1967-1971).

Começava ali uma profunda reformulação das fazendas. “O Jovelino deu um impulso grande ao negócio que era da família da mulher dele. Ele é urbano e tem um olhar interessante para o campo. Encara a produção rural sem romantismo, como ‘business'”, diz João Sampaio, ex-secretário de Agricultura de São Paulo.

De fato, o perfil da produção agropecuária de Jovelino difere muito daquela herdada nos anos 1980, quando ele e a esposa foram morar na Fazenda Bela Vista, em Pardinho. “O Jovelino herdou fazenda de café e hoje não tem mais café. E herdou uma pecuária extensiva e atrasada”, diz Sampaio.

Com a calculadora nas mãos, Jovelino abandonou a produção de café e virou de cabeça para baixo a de gado. “Tivemos uma sucessão de geadas e crises importantes no mercado de café. Fizemos conta, traçamos um plano e fomos mudando a produção para as cadeias produtivas que floresceram no Estado de São Paulo”. Aos poucos, deixou de ser cafeicultor e passou a apostar em culturas como eucalipto e cana, que passaria por um boom na segunda metade da década de 2000. Mais recentemente, estreou na produção de seringueira em Rancharia, também no Pontal.

Mas foi em Pardinho mesmo que Jovelino faria da inovação seu principal mote. Na esteira da elevação dos preços da terra em São Paulo, ele concluiu que não era mais razoável produzir gado no Estado, especialmente da forma extensiva que ainda caracteriza a pecuária nacional, com baixa tecnologia.

“Reformulamos a estrutura de gado. Pelo preço da terra em São Paulo, não fazia mais sentido ter gado para a produção de carne”, diz Jovelino. Mas não abandonaria a pecuária. Apesar dos negócios na agricultura, ficaria conhecido por sua atuação como pecuarista nos bastidores de algumas das principais entidades de classe do setor, como a Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ) e a Sociedade Rural Brasileira (SRB).

Em meados dos anos 1990, Jovelino fez uma aposta definitiva na produção de gado para genética – ou seja, na venda de touros selecionados. “Só fiquei com genética, que tem maior valor agregado”, afirma. Atualmente, conta com um rebanho de 2 mil vacas voltadas para a produção de genética (sêmen, touros). São as chamadas matrizes. No dia a dia das operações está seu filho Bento Mineiro, de 23 anos.

De Pardinho, Jovelino fomentou pesquisas em genética em parceria com a área de veterinária da Unesp de Botucatu. “Ele sempre acreditou que a ciência brasileira pode contribuir de forma significativa para a inovação”, diz José Fernando Perez, então diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

“Nunca fui fascinado pelo setor público; no privado, conceber e realizar uma ideia está no âmbito da sua atuação”

Para prosseguir no desenvolvimento da genética bovina, Jovelino criou uma central de coleta de sêmen, em 1999. “Tínhamos um projeto de pesquisa e, para comercializar sêmen e embrião, nos transformamos em uma central aprovada pelo Ministério da Agricultura”. Surgia a Central Bela Vista. Em poucos anos, a empresa sacudiu o segmento de genética bovina. “O Jovelino achava que as centrais de inseminação tradicionais estavam em dívida com o pecuarista. Elas cobravam muito caro”, afirma uma fonte.

Na prática, a Central Bela Vista não vendia sêmen e embrião, como as centrais tradicionais. Na Bela Vista, cobrava-se apenas pelos serviços de retirada do sêmen. “Nunca vendemos um sêmen. O criador vendia diretamente. Esse programa possibilitou a democratização da oferta de material genético”, afirma Jovelino.

Em paralelo, a Central Bela Vista seguia em seus projetos de pesquisa. Em polvorosa pelo avanço do Projeto Genoma, que mobilizou cientistas do mundo todo, inclusive do Brasil, a Fapesp lançou um programa de parcerias para estudar o genoma de pragas ou animais que tivessem retorno comercial. Em 2003, pesquisadores ligados à Jovelino bateram à porta de Perez, da Fapesp. “Ele veio com a ideia de fazer o genoma do boi. Achei muito visionário. Aliás, a contribuição financeira dele não foi inferior à que a Fapesp deu no genoma do boi”, afirma Perez sobre o momento que marcou o início de sua amizade com Jovelino. Amizade essa que, alguns anos mais tarde, os levaria a projetos ainda mais ambiciosos.

Foi durante os anos de desenvolvimento da Central Bela Vista e da reestruturação das fazendas que Jovelino se viu em meio a polêmicas e críticas. Próximo do então presidente Fernando Henrique e dono de fazendas numa região de conflito fundiário como o Pontal do Paranapanema, o empresário foi parar na primeira página dos jornais do país em pelo menos duas ocasiões.

Em uma delas, no ano 2000, porque o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) invadiu a fazenda Córrego da Ponte, em Buritis (MG), que tinha como sócios o próprio Jovelino e os filhos de FHC. A sociedade do empresário com o ex-presidente na fazenda, que foi vendida há alguns anos, ocorreu após a morte ex-ministro da Comunicação Sergio Motta, primeiro sócio do ex-presidente na propriedade de Buritis. “Como nunca entendi nada de fazenda, convidei o Jovelino”, afirma Fernando Henrique Cardoso.

Dois anos depois, sempre com a argumentação de que as terras eram griladas, o MST voltaria à carga e invadiria a fazenda Santa Maria. Localizada em Teodoro Sampaio, também no Pontal, a área tinha seu título de propriedade contestado em ação judicial pelo governo do Estado – uma das muitas movidas na região para reconhecer as terras como devolutas.

“O Estado questionar títulos que ele deu gerou uma desconfiança muito grande. Não sei quando [essas ações] começaram, mas foi uma ideia infeliz que atrasou a 10ª Região Administrativa de uma maneira muito forte”, afirma Jovelino. Em 2013, o empresário ganhou a ação que o Estado questionava o título da fazenda Santa Maria, parte da herança de João Mellão, avô de sua esposa.

O empresário também se envolveu em polêmicas durante a fase de expansão dos negócios no Pontal. “Ele comprou terras griladas sabendo que eram griladas. Todos ali compraram. O fato das terras serem griladas nunca intimidou ninguém”, afirma o professor de geografia da Unesp de Botucatu, Bernardo Mançano. Jovelino rebate as acusações. “As críticas são descabidas porque a única fazenda em que havia a ponderação é em Teodoro Sampaio, que a Justiça considerou como terra particular”.

Em meio aos dissabores, Jovelino desafiava as centrais de disseminação genética tradicionais. “A Central Bela Vista ganhou tanto espaço que a CRV Lagoa resolveu comprar”, diz uma fonte que acompanhou as negociações. Em 2011, Jovelino vendeu a central para a holandesa CRV. “A Bela Vista teve um sucesso comercial e, com o projeto genoma, tinha uma biblioteca de genes. Recebi uma oferta e achei que estava na hora de vender”, afirma o empresário.

Apesar disso, ele diz que a Bela Vista resultou naquela que é hoje uma das maiores paixões: a Recepta Biopharma, empresa de pesquisas contra o câncer criada em 2006 em sociedade com os amigos José Fernando Perez, ex-diretor da Fapesp, e Emilio Odebrecht, presidente do conselho de administração da Odebrecht, e com o Instituto Ludwig de Pesquisas contra o Câncer.

“A Central Bela Vista proporcionou o convívio com a Fapesp, com o professor Perez. Ela deu a oportunidade de criarmos a Recepta”, afirma Jovelino. O nascimento da empresa remonta a 2004, quando Perez fazia uma visita à sede do Instituto Ludwig, em Nova York. “Eles estavam mudando o modelo operacional e resolveram se concentrar na pesquisa acadêmica, estimulando a criação de empresas de biotecnologia que fizessem a ponte entre a academia e a indústria farmacêutica”, afirma Perez.

Surpreso com o convite para montar uma dessas empresa de biotecnologia no Brasil, Perez fez sua primeira ligação para Jovelino. “Ele topou na hora e depois convidou o Emilio”, lembra o hoje CEO da Recepta. “Jovelino e Emílio tiveram uma percepção muito clara de que não é um negócio de retorno rápido”, afirma. As pesquisas levam muitos anos e podem até fracassar.

Apesar das dificuldades, a Recepta vem avançando. Citada em revistas como a “Nature”, a empresa obteve reconhecimento do FDA, órgão regulador da área de saúde e alimentos dos EUA. Segundo Perez, a pesquisa contra câncer de ovário da Recepta recebeu o status de “droga órfã” do FDA, conferido a uma doença sem medicamento eficaz. “Os estudos não são conclusivos, mas o status significa que foram considerados relevantes”, observa Perez.

Foi na esteira das pesquisas promissoras da Recepta que o BNDES se tornou sócio da empresa. Em 2011, por meio de seu braço de participações, comprou uma fatia de 16% por R$ 28,9 milhões. Desde 2006, a Recepta investiu R$ 70 milhões em pesquisas. Ainda não há resultados comerciais, mas Perez acredita que, em três ou quatro anos, uma das pesquisas da empresa atingirá a fase 3 e será vendida para uma farmacêutica. Nessa fase, considerada a de menor risco tecnológico, a indústria farmacêutica conclui as pesquisas, testando o medicamento em milhares de pacientes.

Apesar de refratário à exposição, o sucesso da Recepta recoloca Jovelino sob holofotes. “Ele não gosta do palco. Ele trabalha muito bem no bastidor”, diz o amigo Johnny Saad, dono da Rede Bandeirantes e sócio de Jovelino no Terra Viva, canal de televisão especializado em agronegócios.

Nos bastidores, como gosta, Jovelino segue atuando na política setorial, como membro da diretoria da Associação Brasileira de Criadores de Zebu e conselheiro da Rural. E na política partidária, ajudou nos primeiros movimentos de aproximação do senador Aécio Neves (PSDB) com representantes do agronegócio, no ano passado.

Fonte: Valor

Próximos Eventos