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Start-ups têm alto índice de mortalidade, mesmo com o apoio de aceleradoras

Em um ano e meio, a Queremos, empresa que congrega pessoas interessadas em financiar shows de artistas dos quais são fãs, passou por uma transformação drástica.
Deixou de ser apenas uma plataforma local, com atuação restrita a pequenas e médias apresentações, para se tornar internacional. Tem operação nos Estados Unidos, participa de apresentações de músicos conhecidos como Snoop Dogg e recebeu investimento de cerca de U$ 1 milhão (R$ 2 milhões).

Não foi um passe de mágica. A Queremos foi uma das primeiras selecionadas pela aceleradora de negócios 21212, que durante seis meses ajudou os sócios a fazer contatos (principalmente nos EUA), investiu dinheiro e, em contrapartida, ficou com uma parte do empreendimento.

Esse método de trabalho é clássico desses grupos e começou a se popularizar nos últimos dois anos no Brasil.

Também ganhou apoio estatal: nove delas foram escolhidas pelo governo federal para intermediar investimentos de até R$ 200 mil em 150 empresas iniciantes, por meio do programa Start-up Brasil

Mas participar desse tipo de programa não é passaporte certo para o sucesso.

De 20% a 30% das start-ups que passam por processos como esses têm sucesso, afirma Frederico Lacerda, sócio da 21212, uma das aceleradoras selecionadas pelo governo.

Ele estima ainda que cerca de metade “são empresas que não faliram, mas também não conseguiram validar o modelo” de negócios. Ou seja, devem ficar estagnadas.

E há as que fecharam as portas -caso, por exemplo, da Craques.com.

A ideia inicial, conta o ex-sócio Pedro Gigante, 26, era criar uma rede social profissional para jogadores de futebol: os atletas publicariam vídeos deles mesmos em ação.

Em seguida, os clubes iriam vê-los e, ao se interessar por alguns deles, eventualmente contratá-los. A companhia ficaria com uma porcentagem do contrato.

“Uma parte pequena de um ‘Neymar da vida’ já seria bastante”, diz Gigante.

Mas não deu certo: os empresários de futebol espalhados pelo Brasil viam os vídeos e se aproximavam dos bons jogadores antes dos clubes.

Para que a aceleradora não tenha problemas com dívidas das organizações nas quais investiram, geralmente o contrato as coloca como sócias-fundadoras, mas com o direito de sair e vender as ações no momento que quiserem. “A gente tem noção dos riscos”, afirma Lacerda.

TEM, MAS ACABOU

Outra “acelerada” que fechou foi a AindaTem. A ideia era ser uma plataforma para intermediar a venda de ingressos para shows, mas os sócios da empresa perceberam que a lei brasileira é dúbia em relação ao mercado secundário de entradas de espetáculos -por isso não conseguiram encontrar investidores.

Braulio Fernandes, 25, que estava à frente, diz que, apesar do fracasso, o processo foi bom para aprender mais sobre administração e fazer contatos.

Quando a Craques.com e a AindaTem foram selecionadas, elas eram, na prática, uma ideia no papel.

É o mesmo que aconteceu com a Professores de Plantão, start-up que se graduou na primeira turma da Wayra (aceleradora do grupo Telefônica Vivo), na sexta-feira.

As empreendedoras Érica Hoeveler, 29, e Cinthia Gaban, 28, colocaram o site no ar, mas o serviço tem diferenças relevantes em relação ao imaginado inicialmente.

No começo, elas queriam intermediar aulas particulares presenciais, mas mudaram o foco para classes on-line. Ofereceriam todas as matérias, inclusive de ensino superior, mas decidiram se restringir aos níveis fundamental e médio.

Nas primeiras turmas de aceleração, era comum um projeto ser escolhido apenas com uma ideia, sem o desenvolvimento de um produto. Segundo investidores, isso deve acontecer cada vez menos, porque o risco é mais alto do que escolher um negócio que já opera.

Por exemplo, para participar do programa do governo, o Start-Up Brasil, que tem inscrições abertas até a próxima sexta-feira, é preciso ter uma pessoa jurídica -não serão aceitas apenas ideias.

O projeto é uma maneira que o governo encontrou para apoiar essas companhias e as aceleradoras, segundo Rafael Moreira, coordenador de softwares do Ministério da Ciência e Tecnologia.

Moreira explica que o governo já deu dinheiro diretamente para as start-ups e que, agora, está interessado em fortalecer o “ecossistema” de negócios de tecnologia.

Para ele, companhias vão ter sucesso se faturarem cerca de U$ 4 milhões (R$ 8 milhões) por ano, despertarem o interesse de fundos de capital ou se tornarem fornecedoras de grandes organizações.

Ele espera que, entre as escolhidas, de 15% a 20% sejam bem-sucedidas.

“Isso é tudo muito novo no Brasil, e a gente precisa falhar para acertar.”

Originalmente, o governo pretendia escolher seis aceleradoras. Mas ampliou para nove porque gostou das propostas delas.

Entre as escolhidas, há duas que formaram suas primeiras turmas há menos de um mês e cinco que não concluíram um único processo de aceleração.

“Elas provaram que têm condições de entregar resultados por causa do perfil dos sócios, pelos fundos de investimento que têm por trás e pelo acesso a mercados que mostraram ter. Agora, vamos olhar se o que estava no papel consegue ser executado.”

A Outsource é um exemplo de equipe sem tradição nesse mercado. A companhia atua no ramo de consultoria, mas decidiu formatar um sistema de aceleração por causa do programa do governo.

“Enquanto aceleradora com empresas nascentes embaixo de um mesmo teto, somos os calouros”, afirma o sócio-fundador Robert Janssen, 54.

A consultoria é especializada em auxiliar negócios de tecnologia interessados em ganhar mercado em países estrangeiros.

É o que a Queremos pretendia ao buscar um programa desse tipo. A empresa já vinha obtendo bons resultados no Brasil, especialmente no Rio de Janeiro, mas queria ganhar mercado.

Tiago Compagnoni, um dos cinco sócios da companhia, diz que nos Estados Unidos há muitas bandas novas, que não têm nem mesmo discos lançados, mas com potencial para atrair público para shows.

Os produtores de eventos, no entanto, ficam receosos de fechar contratos com esses grupos. Eles queriam atuar nesse mercado, mas não conheciam gente naquele país.

Por meio dos contatos da 21212, no começo deste ano, conseguiram se apresentar em um evento chamado TechCrunch Disrupt, onde tiveram a chance de se apresentar aos investidores americanos. Convencê-los a colocar dinheiro na empreitada representaria a entrada naquele mercado.

Deu certo. Agora, a companhia também atende como We Demand e ajuda a viabilizar shows de artistas famosos, como Daft Punk, The XX e Franz Ferdinand.

“As start-ups que dão certo trazem um retorno tão grande que cobrem o que perdemos com as outras”, diz Lacerda, sócio da 21212 e, por extensão, da Queremos.
A Professores de Plantão, no momento, está em conversas com investidores-anjo.

Entre seus colegas da Wayra, outras duas ainda não receberam aportes.

A Qranio, uma plataforma de games para computadores e smartphones, foi a que recebeu o maior investimento: R$ 500 mil. Pelo menos outras três também acharam investidores.

Entre as da 21212, o maior sucesso com os fundos de capital foi a Pagpop, de soluções de pagamento, que conseguiu um aporte de R$ 5 milhões da Intel.

Mas não são todos os empreendedores que buscam investimento. A marca de camisetas e vestidos PhD, uma das recém-graduadas na Aceleratech, é um exemplo.

Ela vende peças de roupas com estampas de fotos feitas por novos artistas plásticos. Uma porcentagem da receita fica para eles.

Tainá Barrionuevo, 25, sócia da empresa, conta que o site dela foi ao ar apenas três semanas antes do fim da estadia na aceleradora -a PhD graduou-se na Aceleratech em abril.

“Alguns não querem aportes nesse momento porque acham melhor avançar mais”, afirma Pedro Waengertner, 36, cofundador da Aceleratech.

O programa termina com um evento chamado “demo day”, em que as start-ups se apresentam para investidores. Segundo Waengertner, a negociação para um eventual aporte não acontece rapidamente, por isso nenhum dos 11 grupos de empreendedores saiu de lá com um investimento.

Fonte: Folha de São Paulo

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