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São Carlos terá laboratório nacional especializado

Pesquisas básica e aplicada estão por trás de todos os sucessos da agricultura de precisão no Brasil. A primeira, a cargo das universidades; a segunda, principalmente a cargo da Embrapa, Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, vinculada ao Ministério da Agricultura, e que em abril completou 40 anos. Dos quase 2.400 pesquisadores da empresa, cerca de 10% estão envolvidos diretamente com estudos de agricultura de precisão, atividade tão estratégica que levou à estruturação da Rede de Agricultura de Precisão, integrando 21 unidades da instituição, com 15 campos experimentais e, a partir de setembro, o Laboratório Nacional de Agricultura de Precisão, que está sendo construído em São Carlos (SP).

Todo esse esforço conta, também, com a colaboração de entidades similares à Embrapa em outros países com os quais há intercâmbio de pesquisadores em programas de doutorado e de pós-doutorado. O engenheiro agrônomo Ariovaldo Luchiari Júnior é um desses pesquisadores: passou quatro anos no Estado do Nebraska, nos EUA, pesquisando agricultura de precisão. “Na verdade, na agricultura de precisão combinamos velhos conceitos com novos instrumentos”, explica ele, atualmente pesquisador da Embrapa Informática em Campinas, instalada em pleno campus da Unicamp.

As pesquisas feitas por ele e outros colegas trazem conhecimentos que às vezes são usados de forma surpreendente. Como o sistema de reconhecimento de imagens capazes de identificar mato e acionar um pulverizador de defensivo que atinja somente aquela planta. “Talvez não seja muito útil em agricultura, mas nos EUA existem empresas utilizando essa tecnologia em canteiros centrais de estradas, para dar manutenção nos gramados”, conta Luchiari. Também surpreendentes são os estudos do solo feitos com tomografia computadorizada, como conta o engenheiro Ricardo Inamasu, pesquisador da Embrapa Instrumentação, em São Carlos: “Fomos os primeiros a fazer isso em ciência do solo. A princípio, o solo parece uniforme, mas nunca é – tem buraco de minhoca, de tatu, pedras, e a tomografia pode mostrar as diferenças, textura, granulometria.”

Em Gavião Peixoto, perto também de São Carlos, outro pesquisador da mesma unidade, o engenheiro eletrônico Lúcio Jorge, pilota pequenos veículos aéreos não tripulados (VANTS), equipados com câmeras e sensores, que periodicamente sobrevoam uma plantação de laranjas da Citrosuco para detectar o greening, doença que impede o amadurecimento dos frutos. “As imagens de uma plantação podem ser obtidas de satélites, por exemplo, e servem para se observar falhas de plantio, vigor das plantas e existência de doenças. Mas são imagens caras e nem sempre nítidas por causa de nuvens”, explica o pesquisador. O VANT, diz ele, é uma solução mais barata e poderá colocar as imagens ao alcance de um número bem maior de agricultores.

Apesar da sofisticação desses recursos, Luchiari, da Embrapa Informática, observa que a agricultura de precisão nem sempre exige máquinas automatizadas ou grande sofisticação: “É preciso cuidado com o deslumbre tecnológico. O básico é mesmo adotar as melhores práticas agrícolas: máquinas reguladas, trato, monitoramento de pragas e água”, explica.

Foi também sem automação nem sofisticação que um produtor de café de Viçosa, MG, conseguiu produzir café gourmet depois de estudar sua propriedade e descobrir que tinha vários tipos de solos, com diferentes graus de insolação por causa das montanhas e cafeeiros produzindo de modo diferente, lembra Ricardo Inamasu: “Com esse mapeamento ele descobriu que 20% da sua área produzia café de excelente qualidade, mudou a forma de colheita para essa parte e agora consegue uma receita melhor em cada safra”, diz o engenheiro.

À medida em que evoluem a tecnologia e o conhecimento sobre cada metro quadrado de solo, a agricultura de precisão vai se tornando mais sofisticada. Luchiari acha que, em breve, a aviação agrícola poderá se utilizar disso para aplicação de defensivos em grandes áreas. E não descarta a possibilidade de que, um dia, o solo de países inteiros esteja mapeado, tal como o Google Street View vem mapeando as ruas de cidades em todo o planeta.

Nesse futuro está a gestão remota da propriedade e de todo o sistema de agricultura industrial proporcionado pela precisão, detalha Paulo Hermann, presidente da John Deere: “Em cinco, dez anos – não sabemos ao certo – não só estaremos informados sobre o que acontece no campo, mas será possível para o fazendeiro e para o gestor interagir com as máquinas por meio da telemetria”, explica. Em sua empresa, essa possibilidade já faz parte do programa Farm Sight, destinado a levar para o campo o máximo em tecnologias de ponta – incluindo algumas que só existem nos filmes, como controle inteiro de uma fazenda por meio de telões sensíveis ao toque.

Fonte:Valor

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