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A revolução coreana e o eterno atraso brasileiro

Em 1988, quando fui morar na Coreia do Sul devido a compromisso profissional de meu pai, conheci um país relativamente pobre, tanto ou mais quanto o Brasil da época. Hoje, 26 anos depois, voltei lá e encontrei uma nação vibrante, com uma economia moderna e crescente, e com sede de mais.

A capital Seul, onde via pessoas morando em estruturas que pareciam iglus de plástico e plantando pequenas hortas nos terrenos livres, agora está coalhada de arranha-céus de arquitetura ousada, com uma invejável e eficiente rede de metrô de mais de 15 linhas. As não mais que meia dúzia de pontes que cruzavam o Rio Han, que corta a cidade, se multiplicaram para mais de 30, espalhando-se até a cidade portuária de Incheon, tudo parte de uma “Grande Seul” que concentra cerca de 25 milhões de habitantes, metade da população do país.

Gangnam, a região do hotel onde fiquei hospedado e recebeu o 27º Congresso Internacional de Matemáticos, razão da minha volta à Coreia, não passava de uma enorme área de arrozais perto de onde foram construídas boa parte das instalações para as Olimpíadas de 88. Hoje, ela – mundialmente famosa graças ao sucesso da música “Gangnam Style”, do rapper sul-coreano Psy – busca ares de cosmopolita, com largas avenidas, modernos prédios de escritórios e ampla variedade de restaurantes e serviços.

Mas o que aconteceu para que a Coreia mudasse tanto no período de pouco mais de uma geração, enquanto o Brasil continua a patinar com medíocres taxas de crescimento econômico? A resposta, dirão os economistas, não é simples, mas por trás desta revolução coreana certamente está o forte investimento em educação, ciência e tecnologia.

Na Coreia, este processo de transformação começou já em 1948, quando o primeiro presidente do país recriado após o fim da ocupação japonesa, Syngman Rhee, instituiu a obrigatoriedade da educação básica. Naquela época, a Coreia era um país eminentemente agrário e um dos mais pobres do mundo, situação que se agravou com a destruição causada pela guerra fratricida de 1950-53, até hoje não definitivamente encerrada e que ainda divide esta península asiática.

Mas, mesmo diante de tantas dificuldades, a Coreia do Sul manteve como uma de suas principais políticas de Estado a manutenção de todas as crianças na escola. E foi esta primeira geração a responsável pela primeira guinada coreana. No início da década de 60, enquanto o recém-instituído Banco Mundial afirmava que o futuro da Birmânia seria mais brilhante que o da Coreia, o governo começou a implementar o primeiro de seus planos quinquenais de desenvolvimento, tendo como objetivo a crescente industrialização de sua economia com base em uma mão de obra já mais bem educada e, assim, passível de melhor qualificação.

Neste ponto, foi fundamental a cooperação e parceria entre o governo e a iniciativa privada, que ganhava força com o surgimento de grandes conglomerados com nomes hoje reconhecidos mundialmente, como Hyundai, Samsung, Daewoo e Lucky Goldstar (atualmente conhecida apenas com LG). Assim, o percentual de gastos em educação com relação ao orçamento total coreano passou de 2,5% em 1951 para 17% em 1966 e 23% em 1995, sendo que só um terço saiu dos cofres do governo. Os dois terços restantes eram financiados pelo setor privado, com estímulo para formação nas áreas de ciências e engenharias.

Já a partir da década de 80, os investimentos em pesquisa e desenvolvimento também começaram a ganhar corpo na Coreia. Lembro que, naquele distante ano de 1988, os produtos coreanos ainda pareciam cópias pioradas dos inovadores japoneses. Então, os investimentos em P&D estavam na faixa de 1,5% do PIB da Coreia, divididos mais ou menos à metade entre governo e iniciativa privada. Hoje, estes mesmos investimentos estão na casa dos 4% do PIB e cerca de 75% dos recursos são bancados pelas empresas, e o objetivo do atual governo da presidente Park Geun-Hye é elevá-los para 5% até 2017. Com isso, a Coreia deixou de copiar tecnologia e passou a produzir suas próprias inovações, tanto que atualmente muita gente prefere comprar uma TV Samsung ou LG do que uma Sony.

Enquanto isso, no Brasil, continuamos atrasados tanto do ponto de vista educacional quanto nos investimentos em ciência e tecnologia. Aqui, a luta para colocar todas as crianças na escola só ganhou força com os programas de renda mínima instituídos a partir do fim da década de 90. Nossa taxa de analfabetismo – algo inexistente na Coreia atual – é estimada em 8,7% e, mesmo sem contar o chamado “analfabetismo funcional”, isso faz com que estejamos no 8° lugar entre os países com maior número de analfabetos adultos.

Já nossos investimentos em ciência e tecnologia estão atualmente na faixa de 1,2% do PIB, sendo mais da metade em recursos do governo, situação pior do que a Coreia tinha ainda nos anos 80. Continuamos, assim, distantes de metas traçadas desde o primeiro governo Lula de elevar estes investimentos para pelo menos 2% do PIB – número considerado mínimo para uma nação desenvolvida segundo avaliação da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e a União Europeia – e aumentar a participação da iniciativa privada no bolo.

Dito tudo isso – que espero transformar em uma matéria mais bem estruturada e formulada em breve no jornal – creio ter visto na minha viagem recente à Coreia que sim, é possível reinventar e revolucionar um país. Claro que temos culturas e proporções muito diferentes, mas acredito que o investimento coreano na educação, ciência e tecnologia é um exemplo e prova de que este é o caminho. Mas só vamos conseguir trilhá-lo se isso for de fato uma política de Estado planejada e estruturada, isto é, não dependente do governo da ocasião, que conte com o apoio, a vontade e a exigência da sociedade. Caso contrário, o Brasil continuará a ser nosso proverbial país do futuro condenado ao eterno atraso.

Fonte: O Globo

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