Destaques

O desafio de levar jovens pobres à era digital

Poucos dias atrás, Vivek Wadhwa, empresário americano do setor de tecnologia e especialista no assunto, ajudou a promover uma “hackatona” na região de San Francisco, nome como ficaram conhecidas as “maratonas de hackers”. O evento, no entanto, não teve o tipo de sessões de programação e debates tão comuns em empresas como Facebook ou Google. Não havia rapazes de moletom na faixa dos 20 anos alardeando por aí suas ideias empreendedoras.

Em vez disso, a “hackatona” de Wadhwa consistiu de dezenas de adolescentes negros e de origem latino-americana das áreas mais pobres de Oakland, Califórnia, bem distantes da rica Palo Alto. E em vez de tentar lançar a próxima oferta pública inicial de ações que levantará “zilhões” de dólares, o que Wadhwa e outros especialistas estavam fazendo era ensinar garotos pobres a programar, com a esperança de inspirá-los para que se tornem engenheiros de computação.

É um experimento intrigante. Há poucas semanas, escrevi sobre a falta de mulheres nas ciências da computação e notei que era imperativo levar mais garotas à programação. Dezenas de leitores me escreveram e-mails concordando. Mas alguns apontaram outra questão: que atualmente não há apenas uma divisão de gênero digital, mas também uma cisão socioeconômica cada vez maior.

Crianças ricas no mundo ocidental são inundadas por aparelhos eletrônicos desde o nascimento. Além do fato de escolas de elite no Vale do Silício ensinarem seus alunos a programar – crianças de classe média nos Estados Unidos e Europa, também, vivem e respiram a computação. Em Londres, por exemplo, a Falkner House, uma escola privada de ensino fundamental (que conheço por minhas próprias filhas), acaba de começar a distribuir iPads para uso na lição de casa.

Quanto mais essas crianças ricas vivem e respiram iPads e computadores portáteis, no entanto, maior é o risco de que isso aprofunde as divisões entre os “nativos digitais” – que são eletronicamente letrados e, portanto, vêm sendo capacitados para lidar com uma economia cada vez mais digital – e os que não são. À medida que a economia torna-se cada vez mais dividida entre os que têm empregos de alta capacitação e os que não têm, o risco é que as crianças mais pobres fiquem excluídas de partes produtivas da economia por não terem acesso a esse mundo eletrônico.

É aí que a “hackatona” de Oakland entra em cena. Atualmente, eventos como esse são apenas gestos superficiais: 180 adolescentes participaram da sessão de programação do fim de semana passado e um número próximo a esse em evento similar anterior, em San Francisco. Wadhwa, contudo, está convencido de que são gestos como esses que podem abrir os olhos dos adolescentes para o mundo digital. Ele destacou que quando essas crianças, mais pobres começaram a programar aplicativos inovadores por conta própria, “elas não fizeram o tipo de tralha [de relacionamento] social fútil que normalmente sai do Vale do Silício, mas aplicativos muito mais úteis, como aplicativos para lição de casa, ou aplicativos para os professores, ou coisas contra o abuso de drogas”.

Wadhwa espera que a iniciativa possa mostrar um modelo que venha a disseminar-se. Uma das partes mais interessantes do experimento é que implica o que os pensadores da administração chamam de “inovação reversa” – a importação pelo Ocidente de ideias inteligentes do mundo em desenvolvimento. A “hackatona” de Oakland teve como base um tablet básico, de US$ 40, conhecido com Aakash, desenvolvido na Índia para consumidores de baixa renda. Com o uso desse produto do “mundo em desenvolvimento”, Wadhwa espera driblar o fato de que os aparelhos deslumbrantes hoje emanando do Vale do Silício são demasiado caros para as crianças de menor renda. Isso lembra a estratégia da campanha de “Um Computador Portátil por Criança”, desenvolvida por Nicholas Negroponte, do Massachusetts Institute of Technology, que também se vale de máquinas básicas e baratas para ensinar computação a crianças em países em desenvolvimento.

Wadhwa já saboreia uma vitória. Quando ele encontrou seus aspirantes adolescentes a programadores em Oakland, perguntou se algum deles sonhava em tornar-se o próximo Mark Zuckerberg. De início, apenas duas mãos se estenderam. No fim do dia, conta ele, quase todos declaravam que queriam ser algum tipo de Zuckerberg. “[Então] concordamos que precisamos deixar de usar Zuckerberg como o exemplo. Queremos que o próximo exemplo seja um José ou uma Keisha”.

É um pequeno sonho, mas inspirador; e, claro, também é revelador da maratona a escalada que sujeitos como Wadhwa ainda têm pela frente.

Fonte: Valor Econômico

Próximos Eventos