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Nova era no setor automotivo exige mais investimentos em inovação

Líderes das principais montadoras do mundo reunidos esta semana no Salão Internacional do Automóvel, em Detroit, vão encontrar um clima muito mais ameno do que nos últimos anos.

O tempo em Detroit promete ser frio e úmido como sempre. Mas a indústria automotiva americana está ensolarada. As vendas no ano passado recuperaram praticamente todo o terreno perdido durante a recessão de 2009, ajudadas pela queda no preço da gasolina e a alta na demanda por carros de luxo, caminhonetes altamente lucrativas e utilitários esportivos.

O ritmo do crescimento neste ano vai desacelerar, mas muitos executivos do setor esperam um mercado tranquilo no curto prazo em comparação com a turbulência dos últimos anos.

O que poderia dar errado? Isso estará nas entrelinhas à medida que os executivos da indústria apresentam os novos modelos e veem o que a concorrência está fazendo.

Para as montadoras reestruturadas de Detroit, o desafio é não repetir o ciclo de altos e baixos que tem atormentado o setor automotivo dos Estados Unidos desde o início dos anos 80. A prosperidade costuma gerar uma diversificação maléfica e inchar os custos em Detroit. Desta vez, porém, a dor de ter chegado à beira da falência e a humilhação de ter recebido socorro do governo federal não podem ser esquecidas rapidamente.

O boom do petróleo e gás nos EUA eliminou, ao menos por ora, outra fonte de preocupação para os barões da indústria automotiva: as oscilações bruscas dos preços dos combustíveis.

Mas os desafios tecnológicos impostos pelas novas metas de eficiência no consumo de combustível se tornam mais difíceis porque as concorrentes da Ásia e da Europa também estão se recuperando. Elas vão usar o Salão de Detroit para apresentar seus planos ambiciosos, com novos produtos para os EUA e a China, agora o maior mercado automotivo mundial.

O evento deste ano vai marcar o início de um novo capítulo na história da indústria automobilística dos EUA. A era dos processos de recuperação judicial e do socorro financeiro acabou. Mas outra está começando: a era de apostas tecnológicas de alto risco, competição global acirrada e mudança de atitude dos consumidores em relação ao papel dos carros na sociedade.

Por enquanto, as montadoras de Detroit ainda dependem fortemente das vendas de grandes picapes e utilitários esportivos para o seu resultado financeiro. Por isso, a Ford apostou em inovar com a F-150, o seu modelo mais vendido no mercado americano. Ela é diferente dos modelos anteriores porque sua estrutura será feita em grande parte de alumínio em vez de aço. O alumínio é mais leve e deve permitir que a nova F-150 tenha uma eficiência maior no consumo de combustível.

A F-150 é um exemplo de como as montadoras precisarão promover avanços substanciais para atender a exigência de mais do que dobrar a eficiência do consumo de combustível nos principais mercados até meados da próxima década. A meta do governo americano é de uma frota que faça em média 23 quilômetros por litro até 2025.

“Analisei outros períodos no passado em que saímos de períodos de sucesso e, então, estagnamos e tropeçamos, e acho que foi porque paramos de fazer grandes apostas”, diz o presidente do conselho da Ford, Bill Ford Jr. “Se aprendi algo, é que você precisa andar mais rápido e fazer apostas maiores quando está indo bem.”

A F-150, que chegará ao mercado americano ainda este ano, terá o chassi e a carroceria de alumínio. Ela pesará cerca de 320 quilos a menos que o modelo anterior, o que deve permitir a redução do consumo de combustível.

Até agora, apenas alguns carros de luxo caros, como o Tesla S, o Audi A8 e alguns modelos da Jaguar, tiveram praticamente toda a sua carroceria feita com alumínio. Veículos de alumínio exigem grandes investimentos iniciais em novos sistemas de manufatura. Outra razão que impediu até agora o uso do alumínio em carros produzidos em grande escala é o preço do metal. Ele é mais caro que o aço e mais difícil de ser manipulado.

No passado, segundo Bob Lutz, ex-vice-presidente da General Motors Co., os engenheiros de automóveis estavam dispostos a gastar apenas US$ 0,45 a mais por quilo para reduzir o peso do veículo. Agora, diz ele, essa regra caiu por terra.

Apesar disso, Lutz diz que a GM decidiu não fabricar sua nova picape Chevrolet Silverado com uma grande parte de alumínio por causa do custo alto e de preocupações com a durabilidade. A resposta da GM à demanda por maior quilometragem foi uma linha de picapes menores que será lançada em Detroit, incluindo a GMC Canyon.

A Chrysler Group LLC, que fabrica a linha de picapes Ram, contratou uma equipe de engenheiros em 2005 para avaliar uma série de tecnologias voltadas a aumentar a eficiência de combustível da Ram. Com base nos resultados do grupo, os executivos da empresa decidiram focar primeiro naquilo que oferece um retorno relativamente alto por um custo baixo, como eixos, novos motores e transmissões com mais velocidades, diz Bob Lee, vice-presidente responsável pela engenharia de motor e propulsão eletrônica.

A Chrysler deve lançar este ano um novo motor a diesel, adaptado de um projeto da Fiat, para as caminhonetes Ram mais leves. Acoplado a uma transmissão de oito velocidades, o motor deve permitir percorrer até 11,5 quilômetros por litro na estrada, informa a empresa. “Como estamos mudando radicalmente esses veículos, não está tão claro que os consumidores vão pagar por eles”, diz Lee.

Os executivos da Ford dizem que começaram a pensar em medidas radicais para melhorar substancialmente a eficiência de combustível da F-150 quando o setor nos EUA ainda estava se recuperando da crise financeira e de um aumento nos preços da gasolina que causaram uma violenta queda nas vendas de caminhonetes de grande porte e utilitários esportivos.

A Ford não divulga quanto investiu no desenvolvimento da caminhonete de alumínio, mas uma pessoa a par do tema diz que foram bilhões de dólares e que o valor é um dos maiores já destinado a um único produto.

Se a Ford conseguir produzir a nova F-150 sem prejudicar os lucros no longo prazo, a estratégia deve liderar a transição do aço para o alumínio como o principal metal usado na fabricação de veículos. Ela já começou a desenvolver carrocerias de outros modelos com o metal.

Fonte: Valor

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