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Meio século de ciência e jornalismo

Fica difícil falar de “Médico e Repórter – Meio Século de Jornalismo Científico” sem recorrer à vida de Julio Abramczyk. Formado pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, em 1966, e jornalista com registro profissional desde 1960, ele trilhou o caminho duplo. Trabalha na “Folha de S. Paulo” desde então, jornal no qual já publicou mais de 2,5 mil artigos e reportagens e em que hoje mantém uma coluna semanal. No Hospital Santa Catarina, em São Paulo, cidade onde nasceu, é médico do corpo clínico. Nesse percurso tornou-se um dos principais nomes brasileiros na cobertura jornalística de assuntos científicos e de saúde. Usando uma linguagem sem rebuscamento técnico, aproximou o leitor desses temas, na maior parte das vezes áridos para os leigos.

Em 2009, 50 anos depois da publicação de seu primeiro texto assinado na “Folha”, o jornalista Carlos Eduardo Lins da Silva começou a selecionar e organizar os artigos de Abramczyk, perto de quem trabalhou por muitos anos, para este livro. Ele conhece a vida e a obra do médico jornalista (ou vice-versa) a fundo. Presidente do Projor (Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo), Lins da Silva foi secretário de redação, diretor-adjunto de redação, correspondente em Washington e ombudsman na “Folha”. Também ocupou a função de diretor-adjunto do Valor.

Em sua apresentação, o organizador destaca o importante papel desempenhado por Abramczyk ao narrar e interpretar os diagnósticos dos médicos que trataram Tancredo Neves. Antônio Brito lia para os telespectadores os boletins hospitalares. Abramczyk traduzia aos leitores do jornal o que, de fato, a equipe médica dizia ou ocultava. Essas matérias de interesse histórico figuram no livro ao lado de outras, como a da operação realizada no então presidente Figueiredo no Hospital de Cleveland.

“Médico e Repórter” está dividido por temas: saúde pública, enfermidades do coração, saúde pessoal, doenças de personalidades e jornalismo científico. Cada um é precedido por textos de Marcelo Leite, Cláudia Collucci, Almyr Gajardoni, Lins da Silva e Célio da Cunha – nomes do jornalismo científico.

Pautado pela convicção de que democratizar o saber é fundamental e ciente de que por isso é premente usar linguagem acessível, os artigos de Abramczyk narram as primeiras aplicações da vacina Sabin no Brasil, os primeiros transplantes de córnea, o surgimento da tomografia e a chegada do ultrassom. Cardiologista atento, o jornalista noticiou o primeiro transplante de coração. As suas reportagens sobre a primeira cirurgia da ponte de safena para o enfarte do miocárdio, em 1970, mereceram o Prêmio Esso de Jornalismo.

Há mais de 40 anos, Abramczyk escrevia sobre os problemas pessoais, familiares e sociais provocados pelo alcoolismo e chamava a atenção para os benefícios da amamentação. Comemorava a erradicação da varíola no país e, já então, alertava para a relação entre a mortalidade infantil e a falta de saneamento básico. Foi à Amazônia e tornou-se um dos primeiros jornalistas a transcrever o trabalho dos pajés. Ia a campo em busca da informação, frequentava congressos, pesquisava em bibliotecas, hospitais e faculdades de medicina. Na era da internet e dos textos curtos e sem profundidade, “Médico e Repórter” é mais do que uma coletânea de registros científicos históricos. É um legado para as novas gerações de jornalistas.

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