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Mauro Rebelo: Não basta fazer ciência, é preciso apostar

Em Trieste, na Itália, em um recente encontro internacional de diplomacia científica organizado pela Academia de Ciências para os Países em Desenvolvimento (TWAS, na sigla em inglês) e pela Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS, na sigla em inglês), vi o ex-astronauta da Nasa (a agência espacial americana) David Hilmers falar sobre a cooperação entre cientistas de diferentes nacionalidades no espaço. Vi também Norm Neureiter, ex-conselheiro científico do Ministério das Relações Exteriores dos Estados Unidos, falar sobre a colaboração em projetos científicos com a União Soviética durante a Guerra Fria.

É uma realidade muito distinta daquela dos países em desenvolvimento que estavam ali representados. Como convencer nossos políticos e governantes a valorizar a ciência?

Fiz essa pergunta para Ray Orbach, cientista responsável por negociar a participação dos Estados Unidos no reator termonuclear experimental que será construído na França por um consórcio de nove países. Ali serão simuladas, em ambiente controlado, temperaturas tão elevadas quanto as encontradas no Sol e que farão a fusão nuclear do hidrogênio gerando gás hélio e energia, muita energia.

Como esperar que um país como o Brasil, onde o cidadão comum tem pouca educação –quase 70% da população não completou o ensino médio– e o governo não considera a ciência, a tecnologia e a inovação (CT&I) uma prioridade –temos um quinto da média mundial de cientistas por habitantes–, venha participar de algo tão importante para o futuro da humanidade? Isso requer investimentos de somas assustadoras de dinheiro, incertezas gigantescas, grandes conflitos de interesses e muito risco. E o que é pior, os resultados só aparecem no longo prazo: as operações do reator, por exemplo, são previstas para daqui a 30 anos.

Orbach não tinha a resposta. Nesse momento, o presidente da TWAS, Romain Murenzi, natural de Ruanda, se levantou e me contestou: “Estive no Brasil e, posso garantir a você, seu país tem um forte compromisso com a CT&I”. Ele mencionou a melhora da posição das universidades brasileiras nos rankings internacionais e, como não poderia deixar de ser, o programa Ciência sem Fronteiras.

No dia seguinte, quando o representante da República Dominicana defendeu uma legislação mais vigorosa para evitar a fuga de acadêmicos dos países em desenvolvimento, Romain se levantou novamente e falou que ele se enganava ao pensar que era a falta de infraestrutura que levava os cientistas a escaparem de seus países. Em muitos deles, as condições políticas eram tão instáveis que os pesquisadores temiam pela própria vida, não por indisponibilidade de equipamentos.

Entendi mais tarde, conversando em particular com Romain, que para ele o fato do meu país ter investido na minha formação até o doutorado significava um profundo compromisso com CT&I. Claro que se compararmos o Brasil com Ruanda teremos que aceitar que nosso compromisso com CT&I é forte. Mas e se compararmos com os Estados Unidos? E qual comparação é a correta?

Após ver o vídeo de dois segundos com o leve toque da perna de um paraplégico na bola na abertura da Copa do Mundo no Brasil e a reação da comunidade científica nas redes sociais, encontrei a resposta.

A comparação não importava. Só quando estivéssemos dispostos a investir grandes somas de dinheiro em projetos de ponta, arriscados e incertos, revelaríamos um grande compromisso com a ciência.

O Brasil tem um deficit socioeconômico gigantesco que inibe, também, o seu desenvolvimento científico. É praticamente impossível não estarmos sempre um passo atrás dos nossos colaboradores (e concorrentes). Uma estratégia para fugir dessa armadilha seria trilhar um caminho alternativo, onde o investimento em longo prazo na educação básica fosse acompanhado de investimentos maciços na fronteira das ciências. Áreas com possibilidades de retornos mais rápidos, mas com aportes financeiros maiores e incertezas e riscos também.

A resposta estava naquele gramado. O Brasil tinha se comprometido! O resultado não foi o esperado. Do ponto de vista do marketing, foi um fracasso –e foi um evento de marketing: a demonstração se deu na abertura da Copa, não um congresso científico. Mas cientificamente a empresa não fracassou. É fácil, a posteriori, encontrar as razões pelas quais o empreendimento não deu certo. Mas atire a primeira pedra aquele que nunca falou sobre um resultado antes de ele ser publicado. Caberá às agências financiadoras a avaliação dos recursos investidos e à comunidade científica a verificação das alegações de Miguel Nicolelis, o responsável pelo projeto. Que, alias, será o único a arcar com o constrangimento que foi a diferença entre o prometido e o entregue.

A atividade científica é arriscada e seus resultados nunca podem ser previstos com exatidão. Faz parte do jogo. Um jogo caro, mas que justamente por isso requer um grande comprometimento dos jogadores. Há quatro anos, Nicolelis foi a aposta certa. Mais do que isso, apostar na ciência foi a decisão certa para o Brasil. A ciência brasileira pode viver sem os R$ 33 milhões que foram destinados à pesquisa de Nicolelis. O que o Brasil não pode é viver sem o compromisso fundamental de arriscar na ciência.

MAURO F. REBELO, 42, doutor em biofísica, é professor do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da Universidade Federal do Rio de Janeiro

Fonte: Folha de São Paulo

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