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Laboratório brasileiro mantém seu foco em inovação

O laboratório nacional Cristália não é uma das maiores farmacêuticas do país em faturamento, mas sua reputação na área de inovação a coloca entre as grandes companhias do país. Uma das principais parceiras do governo federal para a produção de medicamentos de alta complexidade, a empresa foi criada, meio que por acaso, para reduzir os custos operacionais do sanatório administrado por seus fundadores.

Instalada em uma área de 110 alqueires em Itapira, interior de São Paulo, a cidade ficou conhecida entre os anos 50 e 60, nacionalmente, como a “capital dos loucos” por sediar importantes hospitais psiquiátricos na região. A Cristália bem que tentou seguir sua sina, mantendo-se apenas como um sanatório, como foi fundada originalmente no início dos anos 70, mas uma ideia ousada de um dos seus fundadores mudou os rumos da história da companhia. “Sugeri aos meus sócios montarmos um pequeno laboratório para produzir medicamentos para o nosso hospital psiquiátrico. Eles me chamaram de maluco, mas bancaram o projeto” disse ao Valor Ogari Pacheco, presidente do laboratório e um dos fundadores da Cristália. Ele tem 50% das ações da empresa.

O laboratório foi instalado ao lado do sanatório. Caso não desse certo, seria transformado em um pavilhão com mais leitos. Hoje, o hospital psiquiátrico virou um apêndice dentro do complexo industrial Cristália, que sedia duas unidades farmacêuticas, uma farmoquímica (produtora de insumos para medicamentos), uma unidade de produtos oncológicos, uma fábrica de biotecnologia e um centro de pequisa, desenvolvimento e inovação (P&D). Nos próximos 18 meses, serão erguidas outras três unidades no local: uma fábrica de princípios ativos oncológicos, uma de peptídios (biomoléculas) para a produção de medicamentos biológicos e outra unidade de biotecnologia. Os investimentos nessas três unidades serão de cerca de R$ 160 milhões.

Essa expansão faz parte da estratégia da companhia em reforçar seu DNA em inovação. A Cristália, que possui 49 patentes registradas, ganhou 24 das 56 parcerias de desenvolvimento produtivo (PDPs) para transferência de tecnologia com o governo federal. A participação do laboratório em licitações públicas para fornecimento de medicamentos hospitalares responde por boa parte do faturamento da companhia. No ano passado, a receita bruta ficou em R$ 1,2 bilhão, aumento de 56% sobre igual período de 2011.

A relação do grupo com Brasília começou nos anos 70, quando a Cristália foi fundada, e se mantém firme até hoje. A companhia faz parte da Orygen Biotecnologia, superfarmacêutica criada com apoio do governo para produzir medicamentos biossimilares em sociedade com a Biolab e Eurofarma.

Ao ter a ideia de reduzir os custos operacionais do sanatório produzindo seus próprios medicamentos, Ogari Pacheco não pensou àquela época que iria tão longe. Formado em medicina pela Universidade de São Paulo (USP), com especialização em cirurgia, Pacheco terminou sua residência em 1966 e no ano seguinte recebeu convite de um amigo para montar uma clínica cirúrgica em Itapira. “Nesse mesmo período, recebi proposta para trabalhar meio período em um hospital psiquiátrico da cidade.”

Foi nesse emprego temporário que, no início dos anos 70, que Pacheco e outros três médicos decidiram investir em um hospital psiquiátrico próprio. Eles alugaram as instalações de uma clínica, localizada em uma fazenda, onde fica a atual sede do grupo. “A fazenda já era conhecida como Cristália por causa de uma fonte de água mineral descoberta na propriedade muitos anos antes por um imigrante libanês.”

O negócio prosperou e o grupo de quatro médicos não só comprou a propriedade, como adquiriu outros dois hospitais (vendidos posteriormente). O pequeno laboratório começou a produzir psicóticos para atender o sanatório. “Começamos a vender a produção excedente. Poucos anos depois, começamos a participar de licitações para a venda de vários medicamentos para o governo”, disse Pacheco. Hoje, a companhia comercializa cerca de 180 medicamentos, com mais de 300 apresentações.

Especializada em medicamentos mais complexos, com maior margem de preços, a Cristália decidiu montar nos anos 80 uma farmoquímica (empresa produtora de insumos) estimulada por um programa governamental de nacionalização de produtos. Essa verticalização foi e ainda é o diferencial da companhia farmacêutica – o país importa boa parte dos insumos para a produção de remédios. A Cristália exporta.

Criada por quatro médicos, a companhia está hoje sob o controle de apenas duas famílias: Pacheco e Stevanatto, que dividem a sociedade meio a meio. Ogari Pacheco, aos 74 anos, continua firme no negócio. Os outros 50% estão em poder da segunda geração dos Stevanatto (a vice-presidência é ocupada por Kátia, filha de João Stevanatto). Os outros dois sócios saíram do negócio há 30 anos quando a Cristália foi processada por produzir um medicamento para combater a tuberculose. “Fomos acusados de infringir a lei das patentes. O fato é que o Brasil não reconhecia patentes naquela época. Portanto, não estávamos infrigindo nada. Decidimos continuar com o processo, que durou cerca de dez anos.”

Casado pela segunda vez, Pacheco tem quatro filhos. Três do primeiro casamento, do qual ficou viúvo em 1986. Com a forte onda de consolidação no setor farmacêutico, o empresário garante que enquanto estiver vivo, não vende o controle de sua empresa. Ele também não pretende abrir o capital da companhia, pelo menos no curto prazo. A empresa prepara-se para se tornar uma sociedade anônima (S.A.).

Fonte: Valor Econômico (adaptado)

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