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Inovação vai puxar avanço americano, diz Michael Spence

A economia americana continua bastante inovadora e é estruturalmente flexível, trunfos que explicam o desempenho bem melhor dos Estados Unidos em comparação a muitos países da Europa e o Japão, diz Michael Spence, vencedor do Nobel em 2001 juntamente com Joseph Stiglitz e George Akerlof. Para ele, a inovação tecnológica e o comércio exterior com Canadá, México e China vão puxar o crescimento dos Estados Unidos em 2015, assim como também vai ajudar alguma recuperação no consumo, num cenário em que o aperto no mercado de trabalho fará a renda crescer com mais força, pelo menos em alguns setores da economia.

Esses fatores positivos, porém, não devem ser suficientes para os EUA sustentarem um ritmo de crescimento superior a 3%, diz Spence, professor da Universidade de Nova York. Com isso, o país não deve repetir os expressivos resultados observados no segundo e no terceiro trimestres deste ano, quando o país avançou a uma taxa anualizada de 4,6% e 3,9%, pela ordem.

Para Spence, a demanda doméstica não deverá tem um desempenho exuberante, uma vez que os ganhos da população de renda média ainda seguem limitados. A seguir, os principais trechos da entrevista feita por e-mail.

Valor: No segundo e no terceiro trimestres, a economia americana teve os melhores seis meses desde a segunda metade de 2003. O senhor. acredita que o crescimento recente pode ser sustentado em 2015?

Michael Spence: Não. A economia ainda vai experimentar ventos contrários de um crescimento ainda não vigoroso da demanda doméstica. Isso tem muito a ver com o aumento limitado dos ganhos da população de renda média. Além disso, nem o investimento empresarial nem o do setor público voltaram ao nível que sustentaria um crescimento superior a 3%. O nível do investimento como proporção do PIB não é alto o suficiente, o que vai restringir o potencial do lado da oferta e o crescimento da produtividade. Já o petróleo e gás vão ajudar. O comércio com o Canadá, o México e a China também vai auxiliar, enquanto a Europa e o Japão serão grandes forças contrárias no front do comércio exterior. Ainda que mais lenta, uma melhora do capital humano vai ocorrer, aumentando a capacidade da qualificação em várias áreas.

Valor: E o efeito do fortalecimento do dólar?

Spence: Ele pode ajudar ou atrapalhar. Pode auxiliar a Europa (que terá uma moeda mais desvalorizada), fazendo com que, ao longo do tempo, o efeito do crescimento seja maior do que o impacto negativo sobre a competitividade (da economia americana). Há também um risco de que haja volatilidade nos mercados de ativos e um efeito riqueza negativo, quando os preços de ativos convergirem para os fundamentos, à medida que houver a retirada dos agressivos estímulos monetários. Isso pode prejudicar o crescimento.

Valor: Quais serão os principais motores da economia americana em 2015?

Spence: A inovação puxada por tecnologia e o comércio com o Canadá, México e China. Além disso, alguma recuperação na demanda de consumo vai ajudar, à medida que ocorrer um aperto no mercado de trabalho, o que fará a renda crescer em alguns setores.

Valor: Houve uma queda considerável da taxa de desemprego e a criação de empregos está melhor, mas o crescimento dos salários ainda é modesto. Isso significa que ainda há uma ociosidade razoável no mercado de trabalho?

Spence: É um quadro misto. Há tanto ociosidade como escassez, dependendo do tipo de emprego para o qual se olha. De modo geral, o mercado de trabalho está ficando mais apertado, sendo possível esperar que isso vá aparecer no crescimento geral dos salários em 2015. No entanto, os aspectos poupadores de trabalho devido às tecnologias digitais continuam a operar na economia. Isso pode restringir a expansão dos salários e do rendimento do grupo no intervalo intermediário da renda no curto e no médio prazo.

Valor: A inflação está consideravelmente abaixo da meta de longo prazo do Fed, e muitas estimativas indicam que essa tendência vai continuar por um bom tempo. Isso significa que a política monetária também vai continuar expansionista?

Spence: Provavelmente sim. Isso realmente depende dos salários e da renda.

Valor: Os preços mais baixos do petróleo darão um impulso à economia americana?

Spence: Os EUA são hoje essencialmente auto-suficientes em petróleo e, no caso do gás, têm superávit. Desse modo, eu não acho que a queda dos preços de petróleo terá um grande efeito.

Valor: Quando o Fed deverá começar a elevar os juros?

Spence: Como eles (os integrantes do Fed) dizem, é algo que depende dos dados. Os dados chave são o mercado de trabalho, caso dos aumentos do emprego e dos salários, o crescimento e, claro, a inflação. Eu realmente não sei, mas, se fosse forçado a dar uma opinião, eu diria que as pressões inflacionárias vão permanecer baixas e que qualquer aumento dos juros vai ser bastante gradual.

Valor: O senhor acha que a normalização da política monetária vai aumentar a volatilidade nos mercados globais? Como países como o Brasil devem se preparar?

Spence: Eu não espero que a mudança na política monetária nos EUA vá criar muita volatilidade, diferentemente do que ocorreu depois do anúncio da redução de compra de ativos pelo Fed (em maio de 2013), que foi inesperado. Hoje todo mundo espera uma normalização gradual da política monetária. Acho que, do ponto de vista de políticas, o Brasil e outros mercados emergentes sistemicamente importantes estão preparados para esse evento.

Valor: O afrouxamento quantitativo (a política de compra de ativos pelo Fed) foi um instrumento bem-sucedido de política monetária ou ainda é cedo para dizer?

Spence: Ele foi bem-sucedido logo no começo. Com uma resposta fiscal limitada, com exceção do período logo depois de 2008, o afrouxamento quantitativo pode ter sido a segunda melhor opção de política. Mas muitas pessoas, incluindo eu, acreditam que os custos e os riscos de um período prolongado de juros muito baixos superam agora os benefícios.

Valor: Por que os EUA mostram um desempenho econômico melhor do que a zona do euro e o Japão?

Spence: A economia americana tem problemas, mas permanece bastante inovadora e é estruturalmente flexível, diferentemente de muitas na Europa e do Japão. Mudança estrutural é importante. É necessário se recuperar de defeitos do padrão de crescimento pré-crise que era pesadamente dependente de dívida e de uma demanda doméstica inflada. Ela também teve que se adaptar às forças tecnológicas e dos mercados globais. Na Europa e no Japão, essa adaptação está parada ou é muito mais lenta.

Valor: O senhor vê o risco de estagnação secular nos EUA e em outras economias desenvolvidas? Alguns analistas dizem que o crescimento potencial dos EUA é de cerca de 2%. Concorda?

Spence: Não. O crescimento potencial é maior. Mas, para atingi-lo, é necessário investimento em capital humano e infraestrutura, melhor uso da capacidade fiscal e obviamente recuperação em outras partes do mundo, na Europa e no Japão. Uma lei tributária sensata ajudaria, assim como medidas redistributivas mais agressivas.

Valor: Quais são as maiores fragilidades da economia americana?

Spence: O panorama fiscal de longo prazo é um elemento de fragilidade. Isso está associado a obrigações que não são dívidas, como a previdência e o sistema de saúde. Isso atinge o orçamento com força em cerca de dez a 15 anos.

Fonte: Valor

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