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Inovação em queda, a tragédia anunciada

Marquei um encontro com Edmund (Ned) Phelps, diretor do Center on Capitalism and Society da Universidade Columbia, no Kongress Hotel em Davos, durante o Fórum Econômico Mundial. É um lugar antigo e tipicamente suíço.

Sentei-me à mesa reservada no restaurante ainda vazio, um pouco antes da chegada de Phelps. Aos 80 anos, ele está grisalho, mas magro e ativo, física e intelectualmente. Há muito admiro sua originalidade, sua modéstia desconcertante e sua polidez.

Phelps ganhou o prêmio Nobel de Economia em 2006 por seu inovador trabalho na década de 1960, especialmente sobre a “taxa natural de desemprego” – a ideia de que a política monetária não consegue alterar a taxa de desemprego no longo prazo.

Nascido em 1933, Phelps cresceu em Hastings-on-Hudson, Nova York, e está na Universidade Columbia desde 1971. Ele é, em minha opinião, um verdadeiro ianque, promovendo o dinamismo que tornou o Norte dos Estados Unidos a região mais dinâmica e empreendedora do planeta a partir da metade do século XIX e no século XX. Em seu livro mais recente, “Mass Flourishing”, Phelps chama o desejo que os indivíduos têm de moldar suas vidas de “valores modernos” – o desejo de criar, explorar e enfrentar desafios.

Optamos por uma sopa de abóbora como remédio para um frio dia alpino, seguida de tagliatelle para mim e carpaccio de vitela (uma segunda entrada) para ele. Pedimos água mineral e nos concentramos em debater suas ideias.

Phelps começa me dizendo que, em um jantar oferecido em Davos a ganhadores do Nobel, ele argumentou que “o estado da Europa não é explicado simplesmente pela crise financeira, mas também se deve à perda de inovação ocorrida há muito tempo. Por um momento, isso não esteve visível porque a Europa transferiu tecnologia dos Estados Unidos. Mas o crescimento da produtividade nos Estados Unidos também caiu em relação ao começo da década de 1970. Então, a Europa estava vivendo com os dias contados”.

Pergunto o que o levou a escrever “Mass Flourishing”. Ele me diz que começou pensando no capitalismo e no socialismo nos anos 1990. “Mas foi só por volta de 2002 que comecei a pensar sobre a criatividade. Percebi que a economia estava atolada na ideia de que o avanço é, em última análise, resultado de descobertas científicas. Joseph Schumpeter [economista austríaco da primeira metade do século XX] disse que cabe aos empreendedores o trabalho de engendrar aplicações comerciais. Mesmo assim, também dizia que dificilmente via criatividade nos empreendedores. Fiquei intrigado com isso e comecei a pensar sobre o que motiva a inovação e qual pode ser seu significado social. O passo seguinte foi pensar: os inovadores estão dando um salto no desconhecido. Isso me levou a pensar que isso também pode ser uma fonte de satisfação e envolvimento dos trabalhadores.”

Saboreamos nossa sopa. Phelps me diz que achou que essa ideia era bastante nova e questionável, e que era melhor tentar encontrar meios de comprová-la. Foi o que fez. “Nas sociedades em que se vê maior prevalência dos ‘valores modernos’ – individualismo, vitalismo e autoexpressão – há também registros de maior satisfação com o trabalho. Passei a argumentar que é difícil ver muita inovação no Reino Unido após a Segunda Guerra Mundial e que a Alemanha não voltou a ter o dinamismo demonstrado desde a era Bismarck [o chanceler que unificou o país no século XIX] até a década de 1930. A França, que entrou depois no jogo da inovação, persistiu um pouco mais. Finalmente, estamos vendo uma grande redução no ritmo de inovação até mesmo nos Estados Unidos. Já era possível ver isso no fim da década de 1960”.

Phelps acredita que esse declínio na inovação é uma tragédia “quando se compara com a época fantástica que a maioria das pessoas viveu no século XIX. Acho que o século XIX foi um período extraordinário, em que houve um jorro de criatividade e todo tipo de experimentações e explorações, que se estendeu pelo menos até a década de 1940”.

“Pensei que adoraria ter alguns registros [contemporâneos] ou escritos autobiográficos em que pudesse mergulhar para ver se conseguiria detectar esse prazer de estar envolvido em coisas novas. Mas também via que não poderia dedicar um ano ou dois a isso. Então, tomei um atalho. Argumentei que poderíamos ver essa experiência e exploração na música e na ficção.”

“Sugeri que se difundiu uma nova sensação de respeito próprio, maestria, engajamento e criatividade no século XIX. Emma Griffin, autora de ‘Liberty’s Dawn’ [história publicada em 2013 sobre a revolução industrial inglesa, que usa os testemunhos em primeira mão de centenas de trabalhadores], encontra evidências de pessoas que começam a assumir o controle de suas vidas. Ela começou com o século XVIII e princípio do século XIX. Agora, está chegando na metade do século XIX e me enviou um e-mail sobre um adolescente que foi trabalhar em uma mina. Ele se sentia aprisionado? Longe disso. Ele escreve que se sentia livre, que de repente tinha problemas para resolver e muita coisa para aprender sobre como trabalhar na mina, como fazer isso com segurança e assim por diante. Aquilo mudou sua vida.”

Observo que isso está longe do que Karl Marx viu. “Ele não quis ver”, é a resposta de Phelps. Concordo que o século XIX foi economicamente criativo. Mas até onde isso levou ao “florescimento das massas”? Essa não é uma visão excessivamente romântica? Enquanto o garçom serve o prato principal, Phelps diz que sou a primeira pessoa a sugerir que ele seja um “romântico”.

Ele continua falando sobre o florescimento do século XIX em, por exemplo, “empresas operadas pelos próprios donos, oficinas de ferreiros que consertavam utensílios domésticos porque era divertido e também porque esperavam ganhar mais se conseguissem encontrar um meio de produção melhor. A ascensão das fábricas e cidades foi também uma enorme bênção para a satisfação no trabalho e o desenvolvimento intelectual. Além disso, os salários reais começaram a aumentar mais ou menos no mesmo ritmo da produtividade”.

Muitos afirmam que, do fim do século XIX em diante, a inovação passou a vir cada vez mais das divisões de pesquisa e desenvolvimento das grandes corporações. Portanto, mesmo que ele esteja certo em relação à metade do século XIX, será que a maioria das pessoas deixou de se envolver na inovação durante o século XX?

“Sou cético em relação à tese de que a inovação ficou muito burocratizada durante esse período”, responde Phelps. “As décadas de 1920 e 1930 foram um período de crescimento sensacional da produtividade, com novos produtos surgindo em todos os lugares e a maioria desses novos produtos e novos métodos eram desenvolvidos por pessoas que iniciaram suas próprias empresas. Portanto, deve ter sido uma época muito interessante, o que é paradoxal, pois foi quando a Grande Depressãose intrometeu.”

Não estaria ele, pergunto, subestimando o impacto de inovações fundamentais, como a eletricidade, o motor a combustão interna, a química e o computador? Essas inovações não foram os fatores reais de indução? E o problema não é o fato de não estarmos mais criando inovações em uma escala grande o suficiente?

Fazemos uma pausa para pedir dois expressos duplos. Phelps prossegue: “A ocorrência de picos de inovação é irrelevante. Não consigo imaginar um mundo em que seja impossível conceber coisas novas. Portanto, a questão é: por que estamos tendo menos desses picos recentemente? Acho que isso tem a ver com o retorno de valores tradicionais [que se opõem à autoexpressão individual]”.

Não estaria ele, sugiro, ignorando o fato de que no começo do século XIX as pessoas podiam criar inovações no quintal de casa, e que hoje ninguém consegue fazer chips de computador desse modo? “Aceito que o que vou chamar de ‘grande inovação’ é hoje algo mais técnico. Não é tanto algo de base. Mas há muitas inovações que nada têm a ver com a ciência ou a engenharia. O que dizer dos setores criativos? Nas artes, cinema, editoração, ficção… Está havendo enormes inovações naquilo que compramos, consumimos, que não têm nenhuma ligação evidente com a ciência. Suponha que a ciência não tivesse conseguido nenhum avanço desde 1820. Isso significa que não conseguiríamos criar nada de novo? Que não conseguiríamos criar um novo gênero de cinema, ou um novo gênero de livros, novos tipos de roupas?”

Respondo que a humanidade sempre desenvolveu essas inovações: o romance foi uma delas. Mas, se não tivesse havido avanços científicos, não teríamos as melhorias de produtividade dos últimos dois séculos.

Phelps diz: “Não estou particularmente interessado no crescimento da produtividade, exceto como medida do ritmo de inovação. Meu interesse fundamental está no que está acontecendo com a experiência do trabalho e as oportunidades de exercício da criatividade”.

“Estou dizendo que a vida inovadora iniciada no século XIX tornou possível uma satisfação que não existia antes. Sem nenhum avanço importante na ciência, a inovação teria rendido menos crescimento, mas não teria havido necessariamente uma redução da atividade de inovação. Além disso, as recompensas da vida inovadora para o indivíduo não teriam sido menores.”

“Meu argumento é que hoje há um desejo e uma capacidade de inovação menores e isso permeia também os setores criativos. Quem discordaria de que a era dourada do cinema esteve nos estúdios de Berlim e depois em Hollywood nas décadas de 1920 e 1930?”

“Acho que toda essa coisa da ciência é apenas uma tentativa de desviar a atenção do assunto e nos afasta do ponto de que, independentemente da importância da ciência para alguns setores, é preciso ter disposição e espaço para inovar.”

O garçom traz a conta no momento em que nos voltamos para uma área em que tem havido muita inovação científica: a tecnologia da informação. Phelps observa que Steve Jobs jamais chamaria a si mesmo de cientista, no que concordo.

Mas, observo, o chip de silício, o microprocessador e a internet criaram oportunidades para os inovadores. Jobs foi um deles. Portanto, onde houve a possibilidade de grandes inovações, ela foi explorada. Ficou limitada a esta área porque ocorreu onde houve oportunidades.

Ele diz: “Afirma-se que uma onda de conquistas científicas explica a inovação nos Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha e França entre os anos 1880 e 1940. Mas isso não explica a falta de inovação na Holanda, Itália e Espanha. Então, por que deveria haver o pressuposto de que a perda de inovação nos Estados Unidos desde o começo da década de 1970 é resultado de uma escassez de conquistas científicas e não do ressurgimento de valores tradicionais? Uma teoria dos valores da história fornece uma explicação melhor para a inovação econômica do que uma teoria da ciência.

“O ressurgimento de valores tradicionais criou um novo materialismo, que não é bom para a inovação, uma vez que a inovação é uma coisa cerebral, intelectual. Há também meu ponto de vista de que o setor financeiro pensa no curto prazo. Isso agora afeta a maneira como se faz negócios no coração da América e acho que essas grandes corporações estabelecidas não são nada inovadoras. Mas isso é algo novo. Houve um tempo em que elas eram inovadoras.”

E ele acrescenta que, “nos Estados Unidos, cada ponto da legislação tem hoje milhares de páginas, com todos os tipos de isenções fiscais especiais e tratamentos especiais… e é claro que a possibilidade de obter essas isenções especiais estimula o lobby, que então encoraja mais iniciativas do gênero. Isso tira a atenção dos executivos-chefes da inovação, porque há um modo mais fácil de melhorar os resultados. Não só isso, como também os direitos adquiridos dificultam a atuação dos recém-chegados. E assim as corporações estabelecidas não precisam mais inovar.”

Se um presidente realmente acreditasse na doutrina Phelps, como seria seu programa? “Bem, é preciso começar com uma conversa nacional sobre a importância da criatividade e das descobertas, mas especialmente da inovação nos negócios. É preciso que as pessoas e o governo ‘se concentrem no programa’. Não sou contra um governo grande. Adoraria ter subsídios colossais ao emprego, revolucionar as cláusulas sob as quais os trabalhadores de baixa renda são contratados e, se houvesse algumas iniciativas interessantes que o governo pudesse adotar para abrir caminho para mais inovações, isso será maravilhoso. Mas precisamos acabar com toda essa proteção social. Precisamos usar o dinheiro dos impostos para coisas como subsídios a trabalhadores de baixa renda – subsidiar o trabalho, talvez subsidiar a inovação, talvez subsidiar os investimentos.”

E os benefícios aos desempregos? O Medicare? “Não sou contra a seguridade social. No meu mundo ideal, os menores salários seriam tão elevados pelos subsídios ao emprego que todo mundo poderia ter bons níveis de seguro médico e de aposentadoria nos mercados privados. Mas não vivemos nesse mundo. Portanto, resisto a participar de uma cruzada contra a seguridade social.”

Sugiro que é difícil traçar uma linha entre o “seguro social” que ele defende e a “proteção social” que condena. “Sim, precisamos proteger os indigentes. Mas a proteção social tornou-se excessiva.”

Ele também não aceitaria o fato de que o governo pode fornecer seguro-desemprego e seguro-saúde com mais competência que o setor privado?

“Sim. Entendo que há falhas nos mercados privados de seguros. Mas a vantagem poderia estar a favor do seguro privado se tivéssemos distribuído os frutos do trabalho de maneira mais justa.”

Pergunto, finalmente, se ele pensa que a decisão de resgatar o setor financeiro em 2008-09 foi um engano terrível.

Phelps admite que os bancos são um problema: “Se você consegue ser o maior, então você terá um bom lucro. Assim, todos os bancos estavam tentando ficar cada vez maiores durante o boom imobiliário. Parte de minha visão é que os grandes bancos deveriam ser desmembrados. Eu gostara de ver a economia americana voltar aos pequenos bancos enraizados nas comunidades em que os banqueiros soubessem alguma coisa sobre as companhias iniciantes locais.”

Com isso, vamos embora. Phelps acredita firmemente que a criatividade possibilita uma vida mais plena ao indivíduo e recria o mundo. Ele é um verdadeiro americano.

Fonte: Valor Econômico

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