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Governo estuda reduzir meta de programa de bolsa

Devido à baixa procura, o governo federal estuda reduzir a meta de bolsas do Ciência sem Fronteiras voltadas para atrair pesquisadores do exterior para o Brasil. A informação está na ata da 10ª reunião do Comitê Executivo do programa, realizada em 27 de janeiro, a qual a Folha teve acesso.

Lançado em 2011, o Ciência sem Fronteiras pretende internacionalizar a pesquisa no Brasil e é um dos principais programas do governo. A meta é distribuir 101 mil bolsas de estudo até 2015.

Entre elas, 4.000 bolsas para trazer ao país pesquisadores que atuam no exterior. Metade das vagas são para “pesquisador visitante especial”, para atrair cientistas de liderança internacional. As outras 2.000 são da categoria “jovens talentos”, voltada a cientistas de início de carreira que vivam no exterior. Com a dificuldade de atingir as metas para atrair os pesquisadores de fora, o governo busca alternativas.

Segundo o documento obtido pela reportagem, o presidente da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), Jorge Guimarães, afirmou que muitos pós-doutorandos brasileiros que foram para o exterior pelo Ciência sem Fronteiras poderiam ser candidatos a bolsas “jovens talentos”.

Para Guimarães, essa modalidade poderia se converter “em mecanismo de absorção de ex-bolsistas no ambiente acadêmico nacional”. A medida alteraria o propósito e inflaria os números da bolsa “jovens talentos”, porque os bolsistas de pós-doutorado do programa no exterior já têm a obrigação legal de retornar ao país após o término dos estudos. Ou seja, eles não estariam sendo atraídos, uma vez que voltariam de qualquer maneira.

Indagadas, Capes e CNPq descartaram essa opção e disseram que as “bolsas não serão usadas para atender no país os pós-doutorandos do programa, porque para tal existem bolsas específicas”. Na mesma reunião, foi informado que o resultado das últimas chamadas de graduação-sanduíche, em que alunos de graduação passam de 12 a 18 meses no exterior, acarretaram a absorção de 26 mil novos bolsistas, número “superior ao previsto”.

A diretora de relações internacionais da Capes, Denise Neddermeyer, então ressaltou que Capes e CNPq, órgãos que lideram o programa, “ainda precisam alocar recursos para fazer face a essas novas bolsas”. Conforme a Folha divulgou no último domingo, na reunião foi levantada a necessidade de mais R$ 863,6 milhões de investimento apenas pelo governo federal. Uma das justificativas são os “gastos adicionais com antecipação do cumprimento das metas de concessão de bolsas”.

FALHAS ACUMULADAS

Desde o lançamento, o Ciência sem Fronteiras acumula problemas como atraso no pagamento de bolsas, redução da nota mínima de inglês e manutenção de alunos sem nível mínimo de inglês. Para especialistas, os problemas têm origem no gigantismo da proposta e no curto prazo para a implementação.

“De onde saiu esse número de mais de 100 mil bolsas? O grande nó é a quantidade de bolsas. Era melhor ter feito um programa menor, com um processo seletivo mais rigoroso”, diz Marcelo Knobel, professor e ex-pró-reitor de graduação da Unicamp.

Segundo ele, um entrave é o foco excessivo nos estudantes de graduação, que “ainda estão em um estágio muito inicial de formação, muitas vezes sem maturidade no projeto de pesquisa”.

Leandro Tessler, físico da Unicamp, descreve o caos na na implementação do programa. “Anunciaram uma lista de 200 universidades, depois essa lista mudou e foi expandida, depois aceitaram mandar estudantes para Portugal, depois se deram conta de que havia uma demanda irreal por esse país por falta de conhecimento mínimo de inglês dos candidatos, depois suspenderam o programa para Portugal, e assim vai”, diz.

Fonte: Jornal da Ciência com informações da Folha de São Paulo

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