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Franquia tem pouco espaço para inovar

Em um momento em que o Brasil perde competitividade no cenário global, o consumo interno diminui e a inflação começa a pesar no bolso dos brasileiros, investir na reinvenção deve ser uma constante em todos os negócios, independentemente do ramo. Disposta a saber qual o grau de inovação das redes de franquias nacionais e o quão preparadas estão para reverter esse quadro, o Grupo Bittencourt realizou entre os meses de abril e junho o estudo “Inovação nas Redes de Franquias”, que será apresentado durante a 5ª edição do Fórum Internacional de Gestão de Redes de Franquias e Negócios, que acontece de 16 a 17 de setembro, em São Paulo. O Valor publica os principais resultados com exclusividade.

“O tema ainda é obscuro para a maioria das empresas, que atribui o termo inovação a ideias geniais e isoladas ou capazes de melhorar algo que já existe”, afirma Lyana Bittencourt, sócia e diretora de marketing e desenvolvimento do grupo, e uma das responsáveis pela pesquisa. “Poucos conseguem olhar a inovação de maneira mais ampla, como uma cultura integrada à empresa de forma a permitir que as verdadeiras inovações surjam como a colaboração de toda a cadeia, com o compartilhamento de informações com pessoas nos diferentes níveis, com autonomia e liberdade para propor soluções e conduzir mudanças sem que isso represente risco para o seu desenvolvimento dentro da empresa.”

A constatação é confirmada por José Carlos Semenzato, CEO do Grupo SMZTO. “Apesar do alto grau de profissionalismo registrado em nossas redes e da posição ocupada pelo franchising brasileiro no cenário internacional, ainda vivemos a rotina da melhoria de processos a fim de registrar resultados mais positivos”, afirma. “Seguimos à risca a cartilha, embora a comunicação entre franqueadora e franqueado tenha melhorado nos últimos anos e muitas redes tenham investido em conselhos de franqueados, com o objetivo de planejar o crescimento da operação em conjunto.”

Embora a chamada ‘inovação disruptiva’, aquela que muda totalmente o mercado e a forma de se consumir e se relacionar com produtos e serviços, ainda esteja distante da realidade da maioria das franquias brasileiras, os primeiros passos já começaram a ser dados. De acordo com o levantamento, 33% das redes consideram que possuem um processo formalizado de condução de projetos de inovação. Os insights são apontados nas pesquisas de mercado como ponto de partida para inovar (38%) e eventos inesperados, como um novo concorrente ou uma nova tecnologia que impacta diretamente o seu negócio, como uma mola propulsora para sair da zona de conforto (15%). Em ambos os casos, porém, fica claro que o movimento é de fora para dentro, ou seja, é o mercado forçando as franqueadoras a se movimentarem.

Os especialistas insistem que tão importante quanto o processo de ter boas ideias é ter recursos para colocá-las em prática. Espaço físico, capital e tempo, além da autonomia para a execução de projetos são fatores importantes. A maioria das franqueadoras (72%) concorda que seus espaços físicos, muitas vezes livres de paredes, facilitam a troca de informações entre as equipes. Todavia, quando questionados sobre o investimento de verbas para melhorar tais ambientes, apenas 64% dizem colocar a mão no bolso.

“Muita gente fala de inovação, mas poucos criam mecanismos para se apropriar da inovação em toda a rede”, diz o consultor Marcelo Cherto, presidente do Grupo Cherto. “Ainda faltam processos, mecanismos e conhecimento correto do que é inovação”. Ele brinca e afirma que falar de inovação é o mesmo que falar de sexo na puberdade – todos dizem que praticam, poucos o fazem de verdade e pouquíssimos o fazem direito. Para o consultor, inovação está diretamente ligada à cultura da empresa, ao perfil de seus dirigentes e à liberdade que a franquia dá para as pessoas apresentarem ideias, sem ser penalizadas quando os resultados não são os esperados.

Este talvez seja um dos principais gargalos do segmento de franchising quando o assunto é inovação, de acordo com os resultados apresentados pela pesquisa da Bittencourt. Segundo o estudo, as franqueadoras atribuem um grande senso de responsabilidade a seus funcionários, estimulando-os a assumir para si as consequências de suas atitudes em 84% das redes. Apenas 44% revelam recompensar ações com risco potencial maior. Entre as franquias que participaram da pesquisa, 82% responderam que quando a equipe da franqueadora erra, os erros são avaliados como ‘oportunidade de aprendizado’, o mesmo ocorre em 70% dos casos quando o erro é cometido pelos consultores de campo. Para 21% das franqueadoras, contudo, quando o erro é cometido pelo franqueado acaba representando um risco ao negócio.

“É ainda um desafio para os franqueadores engajar os franqueados na condução da inovação na rede”, diz Cláudia Bittencourt, sócia e diretora geral da Bittencourt. “Um franqueado inovando sozinho em sua unidade não é saudável para uma rede de franquias, mas quando isso ocorre em consonância e com coerência em relação às diretrizes da franqueadora beneficia não só o franqueador, mas toda a cadeia que ele construiu.”

Vale ressaltar que o maior nível de estímulo ao compartilhamento de informações se encontra entre franqueadora e franqueado e consultores de campo e franqueados (80% dos casos) e entre colaboradores de uma mesma área (72% dos casos). “Não é errado dizer que as franqueadoras ainda são em boa parte conservadoras, têm receio de compartilhar suas informações entre pessoas que não estão totalmente sob o seu controle”, ressalta Lyana. Segundo ela, ainda existe uma centralização das iniciativas de inovação no alto escalão, fazendo com que os processos ocorram das lideranças do topo para a base da pirâmide.

Fonte: Valor

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