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Para manter o fôlego dos investimentos em inovação, a equipe que assumir o governo brasileiro – seja qual for a decisão dos eleitores neste domingo – terá de realizar ajustes nas estratégias de fomento. Segundo especialistas e empresários ouvidos pelo Valor, o ano 2015 será importante para sinalizar visão de longo prazo aos projetos de pesquisa e desenvolvimento (P&D) e consolidar a inovação como um dos pilares do crescimento sustentável. “Antes de tudo, é uma decisão econômica”, defende Pedro Wongtschowski, membro do Conselho de Administração do Grupo Ultra.

Desde a aprovação da Lei da Inovação, no fim de 2004, os projetos de P&D se beneficiaram do crescimento do PIB e das ações de fomento, somando R$ 54,25 bilhões, em 2012 (último número divulgado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação – MCTI). Naquele ano, o percentual de investimentos em relação ao PIB alcançou o índice de 1,24%. Em 2004, os aportes em atividades de P&D registraram a cifra de R$ 32 bilhões (ou 0,97% do PIB). A meta inicial do governo Lula – seguida por Dilma – era alcançar 2% do PIB, com ampliação da participação da iniciativa privada nos orçamentos. “Em economias onde a inovação está no centro da política econômica, a relação de investimento é de, pelo menos, 2,5% do PIB”, compara Gerson Valença Pinto, presidente da Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (Anpei).

Para engordar o orçamento de P&D, o governo federal apostou em maior integração com a iniciativa privada, envolvendo líderes empresariais no desenho de ações de fomento e programas de incentivo como o Inova Empresa, que injetou R$ 32,9 bilhões no sistema de inovação – a maior parte (R$ 20,9 bilhões) em crédito com taxas subsidiadas. Também formatou, em parceria com a indústria, a Embrapii.

Um dos objetivos é ampliar a média histórica de participação de dinheiro privado nos projetos, inferior a 50%. Em 2012, o percentual ficou em 45%. Em países como China, Coreia e Japão, as empresas respondem por cerca de 75% dos orçamentos destinados à inovação. Nos EUA, mesmo em tempos de crise, a média está em 60% de investimento privado.

Ainda não é possível medir os efeitos das políticas de fomento aplicadas no Brasil nos últimos dois anos, principalmente porque elas tornaram-se anticíclicas com o arrefecimento da economia. “Os empresários ainda reagem ao curto prazo. Por isso, a desaceleração econômica afeta os projetos de P&D. Para a maioria, não dá para destinar recursos à inovação quando é preciso lutar pela sobrevivência”, comenta Wongtschowski.

De qualquer forma, o aumento do investimento privado não deve reduzir o montante aplicado pelo poder público, que sempre será importante para compor o orçamento e garantir injeção de capital em linhas de pesquisa que interessam ao país. “É preciso ampliar a capacidade de alavancagem do dinheiro público. A contrapartida tem de ser maior”, diz Maurício Antônio Lopes, presidente da Embrapa.

São inegáveis os esforços empreendidos nos últimos anos para os projetos de inovação. A força conquistada pela Finep é prova disso. Segundo Glauco Arbix, presidente da agência federal de fomento, em 2010, a Finep desembolsou R$ 1,2 bilhão. Neste ano, o total deve chegar perto dos R$ 12 bilhões, entre operações de crédito reembolsável e não reembolsável. “A demanda agrupada do Inova Empresa chegou a quase R$ 100 bilhões. A alta procura empresarial por financiamento mostra que o Brasil quer inovar, independentemente de crise.”

“Os programas de incentivo são importantes. Mas o acesso aos recursos financeiros é apenas parte da equação”, diz Pinto. Segundo ele, para ser eficaz na estratégia de inovação, é preciso fortalecer as bases econômicas como um todo, o que inclui maior musculatura ao mercado interno e apoio a iniciativas que tragam maior competitividade aos produtos brasileiros no exterior. “A agenda converge com demandas gerais dos negócios, como a redução do custo Brasil, da burocracia e uma política de câmbio mais favorável à exportação”, avalia o presidente da Anpei. Outro ponto de atenção são os desafios ligados à propriedade intelectual. “Temos de resolver a questão das patentes e reduzir o prazo para o registro das tecnologias e produtos.”

A inserção das empresas brasileiras na cadeia global de valor é outro tema espinhoso e que demandará mais esforços em inovação. Uma avaliação dos rankings internacionais das empresas que mais investem em pesquisa e desenvolvimento mostra que há muito trabalho a ser feito no Brasil. De acordo com o estudo Global Innovation 1000, realizado pela Strategy& a partir dos balanços de mil empresas de capital aberto no mundo, só seis brasileiras estão entre os maiores investidores em P&D na edição em 2013 (Vale, Petrobras, Gerdau, Totvs, CPFL Energia e Embraer).

Fernando Fernandes, sócio da Strategy&, explica que a informação mais grave é a queda dos investimentos das empresas brasileiras em comparação com os resultados apurados em 2012. Enquanto os gastos com inovação (levantados pela amostra) bateram recorde histórico em 2013, somando US$ 638 bilhões – com aumento de 5,8% em relação ao ano anterior -, o total investido pelo grupo das brasileiras caiu 18,3%, somando US$ 3 bilhões. “Apostar em inovação é uma forma de sair mais forte de períodos econômicos conturbados. O Brasil está na contramão”, afirma.

No caso da Petrobras, o orçamento global de P&D encolheu US$ 300 milhões, caindo de US$ 1,4 bilhão (2011) para US$ 1,1 bilhão (2013). “Já em 2012, sentimos a queda dos investimentos. A Petrobras investe cerca de 0,8% de seu faturamento em P&D, o que é muito pouco face aos desafios tecnológicos do pré-sal”, avalia Fernandes.

Paulo Mól, diretor do Instituto Euvaldo Lodi (IEL), acredita que os próximos meses serão delicados para a definição dos projetos de inovação. “Todo mundo sabe que 2015 será um ano de ajustes. O empresário terá de buscar maior competitividade e produtividade em um cenário econômico complexo.” Para dar continuidade aos projetos, o poder público terá de manter o fôlego dos investimentos.

Fonte: Valor

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