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Falta padrão para avaliar criações

Os serviços respondem por 68% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro e empregam 70% da mão de obra. Apesar da força na geração de riquezas, as empresas do setor enfrentam dificuldades em realizar investimentos e concretizar projetos de inovação. Entres os fatores que atrasam a pesquisa e desenvolvimento – e reduzem as chances de conseguir financiamento – está a complexidade para mensurar quanto valem, de fato, os projetos e propostas de criação. “A inovação só acontece com a implementação do serviço, o que está fora dos padrões para avaliação”, explica Hudson Lima, superintendente da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).

Os métodos atuais – utilizados por agências de fomento e bancos para avaliar o potencial da inovação – estão atrelados ao avanço tecnológico da indústria, com foco na invenção de produtos. “Na seara de serviços, é comum a utilização de um conjunto de bens para criar uma forma de atender às expectativas do cliente, seja por uma nova modalidade ou pelo aperfeiçoamento do que já existe”, comenta. Avaliar quanto vale um modelo de negócio inovador é o maior desafio do segmento. “Só com planos criativos é possível causar rupturas nas cadeias produtivas”, complementa Carlos Eduardo Negrão Bizzotto, coordenador de projetos da Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec).

Bizzotto cita o exemplo da Apple, cuja verdadeira inovação não foi criação de aparelhos como Ipod e Ipad e Iphone. “A grande sacada da empresa foi elaborar um sistema de distribuição de conteúdo que permitiu ao consumidor pagar por músicas, vídeos e jogos. Eles agregaram opções para a utilização dos aparelhos”, comenta. No caso do Iphone, a integração das funções de telefonia, internet e computador pessoal é que demarcou a fronteira dos smartphones.

As empresas que, como a Apple, cresceram ao propor uma nova forma de atender o consumidor dão nova direção para os projetos de inovação em todo o mundo. Afinal, a produto começa a fazer sentido para o cliente a partir do momento em que ele serve a um propósito e agrega serviços capazes de despertar o desejo pelo bem. As companhias aéreas de baixo custo são exemplos disso. Ao modelarem de forma diferente seus negócios, criaram acesso a novos consumidores para o mercado de transporte aéreo – criando valor em um serviço existente. “A inovação só acontece se estiver baseada em quatro eixos: negócio, gestão, processos e produtos”, avalia Valter Pieracciani, sócio da consultoria Pieracciani.

Segundo ele, as políticas públicas de fomento à inovação precisam considerar esses pilares para ser mais efetivas e promover a criação de serviços capazes de trazer saltos competitivos ao Brasil. “São os serviços que estão revolucionando a economia mundial”, afirma. Como exemplo, ele cita a evolução do varejo brasileiro, intimamente ligada às inovações do setor de logística. “O desafio é entregar produtos com eficiência e menor custo, resultando em uma margem de lucro maior”, explica.

No Brasil, o site Buscapé aproveitou o potencial do comércio eletrônico para oferecer ao consumidor um serviço de busca dos preços praticados pelas redes de varejo no mundo virtual. “Encurtamos o caminho do cliente. Em vez de trafegar pela internet, ele pode enxergar em uma tela os preços em diversas lojas”, diz Rodrigo Borges, vice-presidente de fusões e aquisições do Buscapé e coordenador do comitê de inovação em serviços da Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (Anpei).

“No mundo físico, o consumidor anda e visita cada loja, gasta combustível e tempo.” O site criou valor para o cliente e para as lojas virtuais. Quem utiliza a ferramenta está na fase de tomar a decisão, já sabe o que quer e vai atrás do melhor preço e condição para a aquisição. “É o que chamamos de consumidor qualificado. Raramente ele acessa só para dar ‘uma olhada’, vai ao Buscapé para comprar”, afirma Borges.

Apesar do sucesso, a pesquisa e desenvolvimento de novos serviços são constantes no Buscapé, que precisa ser ágil para criar diferenciais e superar a concorrência. “Nos serviços, a inovação é copiada de forma rápida. Temos sempre de andar na frente”, adverte Borges.

Fonte: Valor Econômico

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