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Executivos experientes trocam múltis por startups

A profissionalização nos últimos anos das pequenas e médias empresas e o surgimento de um elevado número de startups no país – que chegam ao mercado com produtos e serviços inovadores e conquistam uma soma relevante de aportes de capital – estão ampliando o leque de possibilidades dos executivos.

De acordo com especialistas em gestão de carreira, embora esse mercado ainda seja pouco explorado pelos profissionais, trocar multinacionais por equipes de negócios menores tem se tornado mais comum. “Migrar para uma pequena ou média empresa é saudável e uma estratégia recomendada em alguns momentos”, afirma Rafael Souto, CEO da Produtive, consultoria especializada em planejamento e transição de carreira.

Em sua opinião, a mudança pode ser interessante, por exemplo, para uma pessoa que já vem de uma trajetória em uma grande organização e quer acelerar a carreira verticalmente – subindo na hierarquia. “Nas companhias maiores, de forma geral, há uma curva mais lenta de desenvolvimento”, explica.

Ir para uma pequena ou média empresa também é um movimento indicado para quem quer atuar mais com gestão, aumentar o escopo de atuação e desenvolver-se mais perto da liderança – o que atrai profissionais com perfil mais empreendedor. “É como se a pessoa deixasse de ser um peixinho em um oceano para ser um tubarão em um aquário”, compara Mara Turolla, diretora de coaching, mentoring e counseling da Career Center, consultoria que auxilia profissionais em transição de carreira.

Segundo ela, a mudança pode ser motivada também por uma identificação com a causa da empresa, do produto ou serviço ofertado por ela – ou ainda por conta do momento pessoal do profissional. “A multinacional muitas vezes demanda viagens e há fases da vida que a pessoa não está disposta a se ausentar tanto.”

A decisão da publicitária Paula Crespi de trocar a Whirlpool, maior fabricante mundial de eletrodomésticos, pelo GuiaBolso, uma startup de finanças pessoais fundada em 2012 com sede em São Paulo, levou em conta alguns desses aspectos.

Após seis anos e meio na Whirlpool e um MBA na Universidade de Stanford, onde teve um contato bem próximo com o ambiente das startups do Vale do Silício, Paula decidiu que queria trabalhar em um negócio menor. “Queria testar coisas novas e de forma rápida”, conta. Segundo a executiva, embora a Whirlpool seja uma empresa inovadora, tem todos os processos de uma grande companhia, o que reduz a velocidade de tomadas de decisão e inovações.

Paula passou, então, a procurar não apenas por uma empresa onde pudesse se desenvolver mais rapidamente e adquirir novas competências profissionais, mas que oferecesse um produto em que acreditasse. Quando conheceu o GuiaBolso, logo se identificou com a proposta da startup, que ajuda seus usuários a organizar a vida financeira e a planejar os gastos futuros – tudo pela internet. “Eu já usava o Mint [plataforma semelhante ao GuiaBolso criada em 2005] quando morei nos Estados Unidos e via como a ferramenta impactava a vida das pessoas.”

Também pesou na decisão dela de deixar o cargo de gerente de inovação na Whirlpool, em janeiro deste ano, o fato de o GuiaBolso ter uma “equipe com profissionais sérios e dedicados”. Ela se refere, entre outros executivos, aos fundadores Thiago Alvarez, que foi gerente sênior da consultoria McKinsey por mais de quatro anos, e Benjamin Gleason, que tem um mestrado em finanças pela Wharton School e trabalhou sete anos como consultor financeiro na Hyperion e na McKinsey. Desde sua fundação, o GuiaBolso já recebeu aporte de três fundos de investimento: o brasileiro e.Bricks, o americano Valor Capital e o fundo latino-americano Kaszek Ventures.

A mudança também mexeu com seus ganhos financeiros, pois, embora continuasse com o mesmo salário, tinha perdido uma série de benefícios. “Mas a expectativa é ganhar mais no futuro com opções de ações da empresa”, afirma a executiva, que calcula ter reduzido o total de sua remuneração entre 30% e 40% ao deixar a multinacional.

Indo para o GuiaBolso, Paula teve um ganho de cargo, pois passou a ser diretora de marketing da startup. Pouco tempo depois ganhou mais funções e hoje é diretora de marketing, produto e atendimento ao cliente – e viu sua equipe triplicar de tamanho. “Tenho muito mais responsabilidades e participo de todas as decisões da empresa. Sinto que estou 100% envolvida com o negócio, o que é extremamente motivador.”

Movimento semelhante ao de Paula fez a engenheira Adriana Avó, que, apesar da formação acadêmica, sempre trabalhou em áreas de relacionamento com o cliente. Em 2012, após cinco anos na incorporadora e construtora Gafisa, a executiva deixou o cargo de gerente para assumir o posto de diretora de atendimento ao cliente em uma startup que estava abrindo as portas – a loja online de móveis Mobly, que tem como principal investidor o fundo alemão Rocket Internet. “Foi uma junção de várias coisas”, diz Adriana sobre a decisão de deixar uma grande empresa por um negócio ainda em formação. “Nunca havia planejado sair do ambiente controlado de uma grande empresa, mas fiquei encantada com a possibilidade de criar algo do zero.”

A entrevista de emprego na Mobly virou uma reunião de trabalho sem que ela se desse conta. Depois de conversar com o fundador da startup – “um menino que chegou de calça jeans e camiseta branca, enquanto eu estava toda arrumada, no melhor estilo ambiente corporativo” -, Adriana, já de saída da sala, foi chamada por dois executivos da loja virtual para dar sua opinião sobre a criação do site da Mobly. “Fiquei mais de três horas ali e saí deslumbrada. Não era preciso marcar reuniões e reuniões para aprovar as ideias. A velocidade e a facilidade de tomar decisões, aliadas à falta de hierarquia, contribuíram para eu aceitar a vaga”, conta.

Para Adriana, o ambiente ágil da startup trouxe mais responsabilidades e aprendizado profissional. “Ajudei a construir a cultura da empresa e hoje lidero uma equipe de 122 pessoas. Até o fim do ano serão 158 funcionários trabalhando comigo.”

No outro lado da equação, a executiva teve que aceitar reduzir seus ganhos financeiros para encarar a nova experiência. Ao fazer a transição, o salário fixo permaneceu o mesmo, mas o variável caiu de forma drástica. Na Gafisa, ela ganhava de seis a doze salários a mais por ano, dependendo das metas alcançadas. Na Mobly não haveria um salário extra sequer. “No segundo ano na empresa, porém, já recebi três salários a mais por conta do crescimento da startup. De qualquer forma, ainda é uma aposta”, afirma a executiva, que tem uma participação na empresa.

Além da disponibilidade de abrir mão de um salário polpudo, trabalhar em uma pequena empresa requer autoconhecimento. Mara, da Career Center, afirma que o profissional terá atividades mais amplas em um negócio menor. “Todo mundo se junta para resolver um problema. Por isso, é preciso ser multifunção”, diz. Em muitos casos, também será necessário lidar diretamente com o dono da empresa, o que pode interferir na forma de fazer negócios. “Quando o dono está presente, ele administra também com o emocional, não só com o racional. É preciso compreender esse cenário.”

A passagem por uma pequena ou média empresa, além de trazer benefícios para o desenvolvimento profissional, também é bem vista pelo mercado. Souto, da Produtive, ressalta que a lógica da carreira é que vai ser avaliada. “Se o executivo saiu de uma multinacional e foi para um negócio menor para ganhar função, responsabilidades e ampliar seu escopo de atuação, a mudança é vista como um crescimento profissional”, diz. “A coerência da trajetória é mais importante que o porte da empresa”, corrobora Mara.

Esse pensamento também é compartilhado pelo administrador Ricardo Marconatto, diretor executivo da consultoria de marca GAD’. Depois de anos trabalhando em empresas líderes de mercado, como Coca-Cola e Telefônica, ele migrou para um negócio menor e passou por outras três experiências em empreendimentos de médio porte. “Sou um profissional orientado por desafios. Ao aceitar um novo emprego não é o tamanho da empresa que levo em conta, mas sim o momento estratégico do negócio e como aquilo vai contribuir para o desenvolvimento da minha carreira”, afirma.

Na consultoria onde atua desde janeiro do ano passado, Marconatto chegou em meio a uma importante transição. “Eram cinco unidades de negócios e entrei para promover a integração e reestruturar o portfólio”, diz. Para ele, em uma empresa média o executivo tem poder de transformação e suas decisões têm impacto maior nos negócios e para os acionistas – o que é altamente motivador. Marconatto ressalta, porém, que isso só fez sentido para ele após suas passagens por grandes empresas. “As multinacionais são verdadeiras escolas.”

Para Souto, da Produtive, o ideal é equilibrar empregos em grandes ou pequenas empresas ao longo da carreira. “Isso é valorizado pelo mercado, pois o executivo leva com ele o melhor de cada lugar.”

Fonte: Valor

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