Destaques

Evolução das firmas de tecnologia da China desafia gigantes ocidentais

Faz muito tempo que a China é o chão de fábrica que produz em série eletrônicos populares para empresas do mundo todo, mas os produtos com tecnologia do próprio país são raramente vistos como inovadores.

Isso está começando a mudar.

As firmas de tecnologia chinesas estão desafiando cada vez mais as líderes de mercado e definindo tendências nos setores de telecomunicações, dispositivos móveis e serviços on-line.

Ao mesmo tempo em que bloqueiam concorrentes globais no seu imenso mercado doméstico, elas estão contratando executivos do Vale do Silício e se expandindo no exterior com campanhas de marketing agressivas estreladas por atletas e celebridades.

Em muitas partes do mundo, as empresas chinesas ainda enfrentam problemas de percepção dos consumidores, que acham que seus produtos não têm a mesma qualidade dos demais. Alguns concorrentes estrangeiros alegam que o governo chinês oferece vantagens injustas por meio de subsídios, financiamento barato e controles cambiais.

Mas muitos executivos de companhias chinesas e ocidentais afirmam que o setor de tecnologia da China está atingindo uma massa crítica de especialidade, talento e poder financeiro que pode realinhar a estrutura de poder da indústria global de tecnologia nos próximos anos.

“As empresas chinesas eram seguidoras rápidas [das ocidentais], mas agora estamos começando a ver inovação de verdade”, diz Colin Light, sócio da PricewaterhouseCoopers.

A ascensão da indústria de tecnologia da China é alimentada em parte pelo investimento crescente em pesquisa e desenvolvimento. Segundo um estudo do Instituto Battelle Memorial, uma ONG americana de fomento à ciência, os gastos em P&D na China devem alcançar US$ 284 bilhões este ano, 22% a mais que em 2012. O número se compara à estimativa de um avanço de apenas 4% nos EUA, para US$ 465 bilhões. A previsão é que a China supere a Europa em P&D até 2018 e os EUA até 2022.

Os gastos com P&D da Huawei Technologies Co, segunda maior fabricante de equipamentos de telecomunicações do mundo por receita, atrás da sueca Ericsson, saltaram mais de 14 vezes em dez anos, para US$ 5,46 bilhões em 2013. Neste período, a Huawei superou rivais ocidentais, como a Nokia Corp. e a Alcatel-Lucent SA, no mercado de equipamentos de telecomunicações. Isso se deve em parte à forma criativa que seus engenheiros encontraram para modernizar redes sem fio usando software em vez de substituir componentes de hardware caros, diz Peter Zhou, executivo de negócios de equipamentos sem fio da Huawei.

A Huawei agora tem um centro de P&D em Xangai que emprega mais de 10.000 engenheiros. Enquanto a indústria de telefonia celular implanta redes de quarta geração mais velozes, a Huawei já trabalha na tecnologia das redes de quinta geração, que devem ficar prontas por volta de 2020.

A Glory Global Solutions Ltd., fabricante britânica de máquinas usadas por bancos para contar notas de dinheiro, abriu um centro de pesquisa em Xangai em 2011. Seus engenheiros chineses estão desenvolvendo um sensor tecnológico para identificar várias características de segurança que existem nas notas para detectar falsificações, combinando programas de software, engenharia de hardware e métodos científicos como espectrometria.

Trabalhar em tecnologia de ponta com os engenheiros chineses cria o risco de eles deixarem a empresa e irem para as concorrentes locais, diz o diretor-presidente da Glory Global, Paul Adams. Mas os engenheiros chineses estão trazendo novas ideias.

A China também está evoluindo tecnologicamente em áreas sofisticadas como a de processadores de aparelhos móveis, onde ela não costumava atuar. Concorrentes americanos como a Qualcomm Inc. e a Nvidia Corp. ainda estão bem à frente, mas as chinesas Fuzhou Rockchip Electronics Co. e a Allwinner Technology Co. vêm ampliando sua presença no mercado de chips usado em smartphones e tablets mais baratos, que cresce rapidamente. Em dezembro, o governo chinês anunciou que pretende criar um fundo de quase US$ 5 bilhões para investimentos na indústria de microchips do país.

Na área de produtos de consumo, poucas empresas chinesas conseguiram se tornar conhecidas mundialmente. Mas a fabricante de computadores pessoais Lenovo Group Ltd., que no ano passado passou a Hewlett-Packard Co. como a maior fabricante de PCs em unidades vendidas, está estabelecendo um novo precedente com uma agressiva expansão global em smartphones. No terceiro trimestre de 2013, a Lenovo ocupava o terceiro lugar em vendas globais, depois da Samsung Electronics Co. e da Apple Inc., segundo a firma de pesquisa Gartner.

A Lenovo, que comprou a área de PCs da International Business Machines Corp. em 2005, lançou seu primeiro smartphone na China em 2010. Ela contratou muitas pessoas da indústria dos setores de telecomunicações e internet para injetar “sangue novo”, segundo o diretor de estratégia, Zhou Qingtong.

Em 2012, a Lenovo assinou um contrato de três anos para patrocinar a Liga Nacional de Futebol Americano. Também fez do astro de basquete Kobe Bryant o garoto propaganda do seu smartphone na Ásia e contratou o ator Ashton Kutcher para sua nova campanha de marketing nos EUA.

Em dezembro, a Lenovo inaugurou seu novo centro de pesquisa, desenvolvimento e produção de smartphones e tablets, na cidade de Wuhan. Ela também tem investido em expansão, comprando, por exemplo, a brasileira CCE em 2012.

“Definitivamente queremos ser a número um em smartphones, mas isso ainda vai levar um longo tempo”, disse o diretor-presidente da Lenovo, Yang Yuanqing, em entrevista exclusiva ao The Wall Street Journal.

Embora as firmas chinesas tenham feito grandes avanços em hardware, muitas ainda enfrentam um desafio que atormentou outras empresas de tecnologia asiáticas: desenvolver software e interfaces de usuários atraentes aos consumidores globais.

A Tencent Holdings Ltd., dona do aplicativo para smartphones WeChat, está contrariando esta tendência. Lançado no fim de 2010, o app domina o mercado de mensagens em smartphones na China. A maioria dos 272 milhões de usuários mensais ativos é chinesa. Mas, em 2013, a empresa gastou US$ 200 milhões em campanhas para ampliar seu uso em mercados como Índia, África do Sul, Espanha e Itália. A Tencent afirma que mais de 100 milhões de downloads do aplicativo foram feitos no exterior.

O WeChat lançou primeiro que os concorrentes a possibilidade de enviar facilmente mensagens de voz e está ameaçando a liderança do WhatsApp, empresa do Vale do Silício, que tem mais de 300 milhões de usuários mensais ativos no mundo.

“O que acho fascinante na Tencent é que ela está se tornando uma história de software e serviços”, diz Michael Reynal, gestor de carteira da californiana RS Investments, que administra cerca de US$ 27 bilhões.

As ações da Tencent quase dobraram de valor em 2013.

Fonte: Valor

Próximos Eventos