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Eventos científicos “caça­níqueis” preocupam cientistas brasileiros

Estão abertas inscrições, com taxas de até € 450 (R$ 1.453), para 116 reuniões científicas simultâneas em fevereiro de 2016 no Rio de Janeiro. O problema é que eventos como esses já são conhecidos como “scam conferences” (conferênciasgolpe, literalmente em inglês) no exterior. Organizados sem cuidados acadêmicos, eles são apontados como fraudulentos por instituições de pesquisa de outros países. A organizadora desses 116 eventos é a Waset (Academia Mundial de Ciência, Engenharia e Tecnologia, na sigla em inglês). Apesar do nome, é uma editora. Embora divulgue ter sede em Riverside, nos EUA, seu telefone para contato é dos Emirados Árabes Unidos. E, além de inválidos, os registros de suas revistas são da Turquia, segundo o cadastro internacional numérico de periódicos ISSN. Enquanto no exterior é apontada em alertas para pesquisadores não participarem de suas conferências nem publicarem em suas revistas, no Brasil a Waset aparece na seleção baseada em critérios de qualidade de periódicos nacionais e estrangeiros, feita pela Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), órgão do MEC (Ministério da Educação).

Disponível na plataforma on­line Qualis Periódicos, essa seleção da Capes orienta pesquisadores, professores e pós­graduandos a escolher revistas para publicar seus estudos. As informações são importantes para as carreiras acadêmicas, nas quais contam a quantidade de artigos publicados e a participação em conferências, que muitas vezes são organizadas por editoras de periódicos. Sites como o da Universidade de Tecnologia de Queensland, na Austrália, da Sociedade Europeia de Redes Neurais e blogs de cientistas reúnem depoimentos negativos contra a Waset. Os relatos explicam que as conferências em série se tornam uma só, juntando especialistas de áreas diferentes e servindo apenas para a editora lucrar com taxas de inscrição. O ecólogo Alexandre Marco da Silva, professor da Unesp de Sorocaba, soube pela reportagem que seu nome está no comitê científico da 14ª Conferência Internacional de Geofísica e Engenharia Ambiental, um dos 116 eventos. “Eu nem sei que conferência é essa”, disse ele surpreso ao telefone, acrescentando que exigirá a retirada de seu nome do comitê. Indicado em todos os 116 sites das conferências da Waset “marcadas” para 2016, o Hotel Windsor Guanabara também afirmou por meio de sua coordenação de eventos desconhecer esse agendamento, assim como mais 110 reuniões em 2017 e outras 110 em 2018.

“FALHA GRAVE” A inclusão da Waset no Qualis foi considerada como “falha grave” da Capes por cientistas ouvidos pela Folha, que preferiram não ser identificados para não se indisporem com a agência do MEC. Exceção a esse anonimato foi o físico Roland Köberle, professor aposentado da USP de São Carlos e membro da Academia Brasileira de Ciências. “É muito estranho esse fato”, disse o pesquisador referindo­se à seleção da editora pela Capes. Segundo ele, o Qualis tem obrigação de alertar seus usuários sobre revistas fraudulentas. A Waset também está na lista dos chamados “publishers predatórios” do blog “Scholarly Open Access”, do biblioteconomista Jeffrey Beall, professor da Universidade do Colorado em Denver, nos EUA. A lista relaciona editoras que exploram sem rigor científico revistas que cobram taxas de pesquisadores para publicar seus artigos em acesso aberto na internet.

Tanto no acesso livre como no pago, periódicos bem conceituados demoram até mais de um ano para analisar e aceitar artigos, ou rejeitá­los. Os editores predatórios reduzem esse intervalo a poucos meses ou semanas, e raramente rejeitam papers. “Quanto mais artigos eles aceitam e publicam, mais dinheiro eles fazem” disse Beall. Em 2013, um ano após a Waset ter sido detectada pelo trabalho solitário de Beall, a Capes concluiu sua avaliação trienal da pós­graduação brasileira por 48 comitês de áreas da Capes, cada um deles com a média de 20 consultores. Mesmo sem seguir o padrão acadêmico de indicar datas de recebimento e de aceitação de artigos, a editora não foi rejeitada por 20 desses comitês. Dez das classificações obtidas pela Waset no Qualis exigem registro em pelo menos duas bases de dados científicos.

Apesar dessa regra, as publicações dessa editora constam apenas no desconhecido International Science Index, cujas iniciais são as mesmas do prestigiado ISI (Institute of Science Information), da Web of Science, que é a maior base mundial desse gênero. Outra irregularidade da Waset no Qualis é constar erroneamente como título de periódico. Para complicar, a editora tem dez revistas, mas o registro da Capes faz com elas um imbróglio com quatro códigos numéricos ISSN. Dois desses registros são da Turquia, mas inválidos, e os outros dois, de Singapura, foram cancelados, segundo o Centro Internacional do ISSN, em Paris, na França.

RESPOSTA A Waset não respondeu às perguntas enviadas pela reportagem. Em nota, a Capes foi evasiva sobre irregularidades na inclusão da Waset e de seus registros ISSN no Qualis e sobre a permanência da editora nessa seleção. Apesar dessa omissão, a agência federal alegou que “nos casos em que existam evidências e referências de práticas editoriais incorretas ou inadequadas frente à comunidade, as revistas são retiradas da base do Qualis”.

Fonte: Folha de São Paulo

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