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Europa sofre para animar o espírito empreendedor

Considere Juan Pedro Mellinas um empreendedor acidental. Em 2011, ele criou a Eternalia, uma empresa que cuida de cemitérios, depois de perder seu emprego como executivo de marketing. A Eternalia agora tem franquias em seis cidades. Mas outros espanhóis desempregados estão entrando no setor e Mellinas não possui clientes o suficiente para manter uma equipe para fazer a limpeza do cemitério local.

César Martín montou uma empresa de educação digital, a Sapeando, após perder seu emprego como editor de fotografia. O site foi um sucesso, com um vídeo sobre como dançar hip-hop” registrando 2,5 milhões de visualizações. Mesmo assim, Martín não conseguiu anúncios suficientes nem um empréstimo bancário e acabou desistindo.

Gerard Vidal abriu uma empresa de criptografia de dados, a Enigmedia, já que não encontrou uma empresa que precisasse de suas habilidades como doutor em física. Mas mesmo para um físico, o tamanho da burocracia para se abrir uma empresa na Espanha é estarrecedor, e o início do negócio foi adiado por meses devido a um processo que Vidal chama de “ilógico, ineficiente e totalmente frustrante”.

Para muitos na zona do euro, onde cortes nos orçamentos de governos e demissões nas empresas deixaram mais de 18 milhões de pessoas desempregadas, a única forma de encontrar trabalho é criar o seu próprio. Mas esses empreendedores inexperientes estão enfrentando uma série de obstáculos.

Capital escasso, excesso de burocracia, uma cultura profundamente avessa ao risco e um mercado consumidor em cacos sufocam as empresas novatas na Europa. O Monitor do Empreendedorismo Global, uma pesquisa da atividade das chamadas “startups”, descobriu que o percentual da população adulta envolvida nos estágios iniciais da atividade empresarial no ano passado foi de apenas 5% na Alemanha, 4,6% na França e 3,4% na Itália, comparado com 12,7% nos Estados Unidos e 17,3% no Brasil. Mesmo depois de estabelecidas, as empresas europeias são, em média, menores e crescem mais devagar que as americanas.

Os problemas enfrentados pelos empreendedores são uma das razões de a economia da Europa continuar se debatendo depois de seis anos de crise. Em novembro, a União Europeia reduziu a previsão de crescimento da região para este ano e o próximo, em função de um desempenho mais fraco que o esperado nas maiores economias: Alemanha, França e Itália. Na semana passada, Catherine Mann, economista-chefe da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, disse, pessimista, que a “a zona do euro é o centro da fraqueza da economia global”.

A Europa já produziu empresários inovadores como o espanhol Amancio Ortega, cofundador da Inditex SA, dona da Zara e a maior varejista de roupas do mundo em vendas, e os escandinavos Janus Friis e Niklas Zennström, fundadores do Skype, serviço de telefonia pela internet que foi adquirido pela Microsoft por US$ 8,5 bilhões, em 2011. Mas um estudo da Comissão Europeia realizado no ano passado reconheceu a necessidade de mais histórias de sucesso e defendeu uma “mudança radical da cultura europeia em direção ao[…] empreendedorismo”.

Para um país às voltas com a taxa de desemprego mais alta do mundo industrializado (23,7%), as mudanças são uma questão de sobrevivência. Mas a curva de aprendizado dos novos empreendedores é íngreme.

Segundo especialistas em empreendedorismo, as iniciativas do governo para ajudar os novos empresários são irregulares e tendem a se dispersar entre várias agências diferentes, com muita responsabilidade sendo deixada para os governos locais ou instituições educacionais, dizem especialistas.

O primeiro ministro espanhol, Mariano Rajoy, prometeu “estender um tapete vermelho para os empreendedores”. Seu governo aprovou leis para encorajar contratações ao diminuir o custo de demitir empregados e também uma “Lei do Empreendedorismo”, que inclui subsídios fiscais, medidas para limitar a responsabilidade do empreendedor em caso de falência e programas para ensinar empreendedorismo nas escolas.

Os economistas dizem que as iniciativas não são suficientes, mas elas estão ajudando a Espanha a crescer mais rápido que as principais economias europeias.

Um programa duradouro do governo permite que os desempregados recebam todo o seu seguro-desemprego de uma vez para poder abrir um negócio. Cerca de um milhão de espanhóis usaram seus benefícios dessa forma desde que o país entrou em recessão, em 2008, segundo o Ministério do Trabalho.

Algumas das empresas estão tendo sucesso. Usando parte de seus benefícios, Juan Antonio González, de 56 anos, descobriu uma vocação empreendedora depois de ser demitido do Citibank, em 2012. Sua empresa, a Yatri, que significa “viajante” em hindu, organiza serviços funerários – muitas vezes em barcos, aviões ou helicópteros alugados – para pessoas cujos entes queridos foram cremados. González já permitiu que os filhos de um pescador depositassem a urna do pai em seu local favorito de pesca, e organizou uma viagem de helicóptero para uma mulher espalhar as cinzas de seu chihuahua sobre o oceano Atlântico. A empresa já organizou cerca de 200 cerimônias em 18 meses e está crescendo.

Mas tais exemplos de sucesso podem ser mais uma exceção do que a regra. Uma pesquisa feita em 2012 na União Europeia revelou que as empresas abertas por pessoas que perderam seus empregos têm uma probabilidade 42% maior de fracassar do que aquelas iniciadas por pessoas que se demitiram voluntariamente.

Na Espanha, assim como na Itália e em Portugal, mais de 40% da população ativa trabalha em empresas com menos de dez empregados, ante 11% nos EUA e 19% na Alemanha, segundo a OCDE. Na Grécia, são mais de 50% da força de trabalho. As economias do sul da Europa, que são dominadas por pequenas empresas, tendem a ter uma produtividade menor que as maiores economias do continente, indicam estatísticas da UE.

A Europa produz menos empresas de crescimento rápido – as empresas de elite que geram quase metade de todos os empregos – que os EUA, diz Albert Bravo-Biosca, economista do centro de estudos Nesta, de Londres.

O resultado é que a Europa ficou atrás de outras regiões na criação de empresas de sucesso. Entre as 500 maiores empresas mundiais com ações negociadas em bolsa no fim de 2012, apenas cinco das companhias europeias foram criadas depois de 1975, contra 31 dos EUA e 31 dos mercados emergentes, diz Nicolas Veron, do centro de estudos Bruegel, de Bruxelas.

Em 2013, a OCDE classificou a Espanha como o segundo pior país numa pesquisa sobre barreiras ao empreendedorismo realizada em 29 países. Os empreendedores espanhóis descobriram que um dos maiores obstáculos é simplesmente conseguir todas as licenças necessárias para começar a operar.

Entre os desafios enfrentados por Mellinas, de 39 anos – que abriu sua empresa de manutenção de cemitérios perto de Cartagena, na Espanha, depois que notou a falta de conservação de muitos túmulos num feriado de Finados – estão os novos serviços semelhantes ao seu que vêm tentando se aproveitar da publicidade da Eternalia. O site de um concorrente até usa uma foto de Mellinas limpando um túmulo – tendo apagado o logo da Eternalia na camisa dele.

Mellinas se diferenciou dos imitadores com um blog que se tornou conhecido por publicar mapas de cemitérios difíceis de serem encontrados. Em 2013, ele conseguiu igualar a renda de seu antigo emprego em marketing graças aos pagamentos dos franqueados.

Este ano, no entanto, já não será tão bom. Os franqueados das duas maiores cidades da Espanha, Madri e Barcelona, desistiram porque limpar túmulos não era para eles. “Não deixe ninguém lhe dizer que é fácil ser empreendedor na Espanha”, diz Mellinas.

Fonte: Valor Econômico

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