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Esgotamento dos endereços IPv4 acirra tensões entre teles e NIC.br

Março ou abril de 2014 é o período estimado pelo NIC.br, núcleo operacional do Comitê Gestor da Internet brasileira (CGI.br), para que seja anunciado o fim do estoque de endereços IP na versão 4 do protocolo, o chamado IPv4. Na forma como as redes estão organizadas, cada cliente precisa ter um endereço IP, como um número de telefone. Quanto mais clientes, mais endereços são gastos. Quem administra esse estoque de endereços disponíveis é o NIC.br, em coordenação com outros gestores internacionais. As operadoras solicitam ao NIC.br os lotes conforme vendem novas conexões.

O fim dos endereços IPv4 não é um fato novo, tampouco desconhecido. Trata-se de um esgotamento esperado em função do crescimento da Internet no mundo. A solução já existe, que é a implantação da versão mais nova do protocolo, o IPv6.

O que aconteceu no Brasil é que, com o rápido crescimento na quantidade de acessos, esse esgotamento chegou antes do que o esperado. Em algumas regiões, como Europa e Ásia, o estoque já acabou há algum tempo. Em outras, como a África e EUA, deve durar ainda algum tempo. Aqui, deveria durar até o fim de 2014.

Na prática, esse esgotamento do número de endereços deve gerar duas consequências: uma corrida das operadoras em busca de soluções paliativas (que demandam algum investimento) e a aceleração do IPv6, que já deveria estar sendo implementado, mas cuja adoção segue em ritmo lento porque demanda mais investimentos e encontra limites no próprio mercado, como falta de conteúdos e custos mais elevados nos equipamentos ao consumidor.

A aproximação do deadline, contudo, está gerando um aumento de temperatura no mercado e tensões entre as operadoras e o NIC.br, que já eram grandes em função de outros fatores, como o debate sobre Marco Civil da Internet, medição de qualidade na banda larga e outros temas que têm colocado empresas em oposição ao Comitê Gestor.

Segundo relato de operadores ouvidos por este noticiário, há cerca de duas semanas uma reunião dedicada a discutir a implantação do IPv6 terminou em tom exaltado, quando algumas operadoras colocaram a dificuldade que estão tendo para conseguir mais endereços e manter o ritmo de vendas. Uma dessas operadoras teria ficado a poucos dias do fim do estoque, o que forçaria uma suspensão nas vendas a novos clientes de banda larga. O NIC liberou emergencialmente mais um lote de endereços e a situação não chegou ao extremo, mas foi por pouco, dizem fontes que acompanharam o processo.

Sem transição

As operadoras não querem e/ou não podem adotar imediatamente o IPv6 por duas razões básicas: isso demanda investimentos na rede e, mesmo que entreguem o serviço, ainda há muitos provedores de conteúdos de Internet e muitos equipamentos domésticos incompatíveis com essa versão do protocolo. A solução é criar filtros, conversores, o que também demanda esforço e investimentos.

“As operadoras terão que adotar o IPv6 obrigatoriamente. Não há transição possível, pelo simples fato de que o estoque de endereços IPv4 é finito e vai acabar em março ou abril de 2014”, diz Frederico Neves, diretor de serviços e tecnologias do NIC.br.

Algumas operadoras ouvidas por este noticiário protestam. Dizem que o NIC.br foi burocrático e desatento ao crescimento do mercado e às demandas internas, não permitindo que as operadoras fizessem estoques de endereço, de modo a garantir mais tempo de transição até que os usuários estejam mais preparados para o IPv6. Usam essas dificuldades como argumento para defender reservadamente que a responsabilidade por essa numeração IP passe para a Anatel.

“No Brasil, não permitimos reservas de endereço. Essa regra sempre foi assim. Quem estoca endereços tem os novos pedidos negados. Fazemos isso para assegurar que todos tenham acesso aos endereços enquanto durar o estoque”, diz Neves. Segundo ele, contudo, o NIC.br nunca negou lotes de endereços a quem fez o pedido com a documentação adequada. As operadoras se queixam que nenhuma operadora na América Latina ou nos EUA, até agora, teve falta de IPs, e que na prática foram feitos estoques pelas próprias operadoras para assegurar mais tempo de transição.

Outro aspecto da crítica das operadoras, que aflorou ainda mais nesse momento de escassez, diz respeito às exigências do NIC.br para liberar endereços. Estariam sendo demandados detalhes dos planos de negócio, previsão de vendas e segmentação de serviços, informações consideradas estratégicas e reservadas. O NIC.br responde que precisa dessas informações para racionalizar a distribuição, mas que é oferecido a quem pede a possibilidade de um termo de confidencialidade. “Em geral liberamos endereços para 90 dias de atividade das empresas. Atualmente, em alguns casos, chegamos a liberar com até seis meses de antecedência”, diz Frederico Neves.

Numeração finita

O diretor presidente do NIC.br, Demi Getschko, vai na mesma linha. “A regra é a mesma de sempre, nunca mudou. Faz dez anos que avisamos às operadoras sobre o dia em que o estoque IPv4 acabaria. Não tem o que fazer”, diz ele, lembrando que também a Anatel nada pôde fazer para evitar que os números de telefones móveis se esgotassem em São Paulo. “Tanto é que foi necessário introduzir o nono dígito, com custos para as operadoras”, lembra.

Algumas medidas paliativas já estão sendo tomadas pelas operadoras. A maior parte pretende fazer algum tipo de NAT (Network Address Translator), que é uma forma de criar redes privadas (como as que se faz dentro de um residência) a partir dos endereços IPv4 remanescentes. Uma grande operadora, por exemplo, já definiu que em breve todos os novos clientes ficarão dentro de uma rede NAT. O efeito colateral dessa medida é que ela exige investimentos em equipamentos, aumenta o risco técnico e cria problemas de identificação para os casos de interceptação legal. Tudo é contornável, mas precisa de mais equipamentos e mais esforço. O NIC.br não recomenda que as operadoras façam NAT, a não ser quando de fato não houver mais IPv4 e apenas como um paliativo. “Não estimulamos nem recomendamos nenhum tipo de NAT. O que resolve o problema de falta de endereços é a introdução do IPv6. Há quem aposte que vai conseguir viver com NAT e IPv4 para sempre, mas o risco é muito grande”, diz Frederico Neves.

Sobre a situação de outros países, que mesmo com o fim do estoque de endereços IPv4 continuam mantendo as vendas de serviços de banda larga sem maiores dificuldades, Neves explica que a diferença é que no Brasil as operadoras cresceram a um ritmo mais intenso, por isso o prazo encurtou. “Mas vai acabar para todo mundo, mais cedo ou mais tarde”. Algumas operadoras estavam prevendo, e planejando, o fim dos endereços IPv4 apenas para o final do próximo ano, por isso tiveram que acelerar os planos nos últimos meses.

Compromisso

Enquanto isso, operadoras e NIC.br discutem desde o começo do ano um termo de cooperação para assegurar a migração para IPv6 e a guarda de informações dos registros de transação em IPv4. É mais um ponto de atrito. Algumas operadoras dizem que o termo proposto pelo NIC.br é “uma tentativa de empurrar os princípios do Marco Civil”. A versão do documento a que esse noticiário teve acesso, de fato, repete alguns princípios da Internet, mas que já estão enunciados no decálogo do CGI.br de 2010, um documento sem força legal que norteia o uso da Internet.

Nesse termo de compromisso, o NIC.br sugere que as operadoras começassem a introduzir o IPv6 para novos clientes corporativos já em julho deste ano (o que não aconteceu, porque o termo não foi fechado). Sugere ainda que em janeiro o IPv6 passe a ser introduzido para os acessos corporativos já existentes e para novos contratos com pessoas físicas, e que em julho de 2014 o IPv6 seja implantado para todos os clientes pré-existentes pessoas físicas. Também está previsto que o uso de medidas paliativas de NAT só aconteça quando o NIC.br formalmente anunciar o esgotamento de endereços IPv4.

Fonte: Teletime

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