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Escassez de talentos acadêmicos é desafio na América Latina

O Rio de Janeiro, há muito conhecido por suas praias e biquínis, tem algo novo a justificar sua fama: a teoria dos sistemas dinâmicos. Em agosto, Artur Avila, um pesquisador do Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada do Rio, o Impa, ganhou a Medalha Fields, uma das maiores distinções para as contribuições à matemática.

Sempre de bermuda e chinelos, esse musculoso homem de 35 anos parece mais um surfista carioca do que a pessoa que está revolucionando os sistemas dinâmicos – o ramo da matemática que explora os sistemas que evoluem com o tempo de acordo com um conjunto particular de regras.

Em uma entrevista à “Quanta Magazine”, ele explicou sua improvável ascensão de uma família de classe média do Rio à elite acadêmica mundial. Avila conta que chegou a ser expulso da escola e gosta de dormir à tarde. “Eu seria demitido rapidamente da maioria dos empregos”. Sua história é talvez ainda mais admirável em razão de sua nacionalidade. Brasileiro, ele é o primeiro latino-americano a ganhar a Medalha Fields em seus quase 80 anos de história.

A América Latina é uma das regiões do mundo que mais vêm se desenvolvendo, além de ser o lar de grandes companhias globais e de produzir talentos artísticos, esportivos e indivíduos ricos. Os dois banqueiros mais ricos do planeta, Luis Carlos Sarmiento e Joseph Safra, são da Colômbia e do Brasil, respectivamente. Há, no entanto, uma escassez de talentos acadêmicos não só na matemática, mas na maioria das disciplinas.

Não há nenhuma universidade da América Latina entre as 100 melhores do mundo nos rankings Times Higher Education (THE) World University Rankings 2013-14, QS World University Rankings de 2014-15 ou Academic Ranking of World Universities, da China. A Universidade de São Paulo (USP), considerada a melhor da região pelo THE, está classificada apenas entre as 250 melhores, ficando atrás de universidades de outros mercados emergentes como a China, África do Sul, Turquia e Rússia.

Há quem conteste a metodologia dos rankings, criticando o foco nas atividades de pesquisa e sua incapacidade de reconhecer as idiossincrasias da região. Mas os acadêmicos latino-americanos são os primeiros a admitir que as listas também refletem a situação lamentável não só do ensino superior, mas também da educação como um todo na região. Países como o Brasil precisam desesperadamente aumentar a produtividade para crescer, e isso só será possível com mais inovação e uma força de trabalho mais bem instruída.

Para Roberto Rigobon, o venezuelano que é professor de administração e economia aplicada da MIT Sloan School of Management, nos Estados Unidos, a razão de as universidades latino-americanas estarem atrasadas é simples: a falta de investimentos. “Na verdade, a América Latina tem uma história incrível na área de ensino”, diz ele, ressaltando o sucesso da Argentina na eliminação do analfabetismo no começo do século XIX. Os investimentos contínuos no início do século XX ajudaram a estabelecer centros de excelência na região, especialmente nas ciências e ciências aplicadas, acrescenta.

No entanto, nas últimas décadas, os investimentos em educação não acompanharam o crescimento da população. “A qualidade ficou estagnada”, diz Rigobon. Os baixos salários dos acadêmicos também forçam muitos a optar pelo trabalho em consultoria em vez de pesquisas, prejudicando as posições das universidades nos rankings. “É muito difícil ser um acadêmico puro na América Latina, especialmente nas universidades públicas”, enfatiza.

Sob a metodologia do THE, o ensino responde por apenas 30% da formação do ranking, enquanto as atividades de pesquisa (tanto as próprias pesquisas como o grau com que elas são citadas em outras publicações) respondem por 60% da pontuação. “Um importante motivo da escassez de universidades bem-sucedidas na América Latina é que a região concentra menos de 3% dos investimentos globais em pesquisa e desenvolvimento, enquanto os Estados Unidos e a Europa respondem por 34% e 25%, respectivamente”, diz Marco Antonio Zago, reitor da Universidade de São Paulo.

Em países como o Brasil, as universidades públicas enfrentam desafios adicionais, dependendo da origem dos recursos que recebem. Jaime Arturo Ramírez, reitor da Universidade Federal de Minas Gerais, diz que a universidade depende dos financiamentos do governo federal em Brasília, que seguem diretrizes rígidas e se concentram no ensino, em vez da pesquisa. “Os recursos vêm carimbados com seus destinos, de modo que a universidade tem pouca liberdade para decidir como investi-los”, lamenta. Enquanto isso, a USP destaca os financiamentos estaduais como uma das razões de seu sucesso.

Algumas universidades públicas conseguem contornar as limitações dos financiamentos federais estabelecendo parcerias com o setor privado. O Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppead) é um dos mais inovadores nesse aspecto. Cerca de metade de seus recursos tem origem em empresas do setor privado, como Fiat e L’Oréal, que financiam pesquisas na universidade sobre o comportamento dos consumidores. Algumas companhias também recebem treinamento executivo em troca do apoio financeiro, enquanto outras simplesmente fazem doações para garantir a qualidade de seus futuros funcionários, diz Vicente Ferreira, reitor do Coppead.

O dinheiro extra e a liberdade para investir transformaram o Coppead em uma das 100 melhores escolas de negócios do mundo (ocupa a 79ª posição no Global MBA Ranking do “Financial Times”). No entanto, o modelo do Coppead só é amplamente viável para cursos baseados na economia e nos negócios. A Universidade Federal do Rio como um todo nem aparece entre as 400 melhores universidades do ranking THE.

Outras vêm recorrendo ao modelo “sem fins lucrativos” para seguir adiante. O Insper, em São Paulo, depende da doação de alunos e mensalidades, em vez do apoio do governo. “A chave é criar um círculo virtuoso”, diz Claudio Haddad, presidente e fundador da escola. “Precisamos atrair um bom corpo docente, que então atrai bons estudantes, e assim por diante”. Em breve, a escola começará a oferecer cursos de engenharia, economia e direito.

As instituições com fins lucrativos também mexeram com o mercado, oferecendo cursos de qualidade razoavelmente boa e custos relativamente baixos. No ano passado, a maior e a segunda maior concorrente desse segmento, a Kroton e a Anhanguera Educacional Participações, respectivamente, acertaram uma fusão para criar a maior companhia de ensino com fins lucrativos do mundo.

No Chile, os financiamentos a universidades também passam por um período de mudanças. Depois dos grandes protestos estudantis dos últimos anos, a presidente Michelle Bachelet propôs uma reforma para aperfeiçoar o sistema de ensino do país, que com frequência é considerado caro e de baixa qualidade. Uma das promessas mais ousadas é tornar o ensino superior gratuito. Entretanto, ela vem tendo dificuldades para aprovar as reformas e provavelmente só vai enfrentar a questão dos financiamentos universitários no fim deste ano. Enquanto isso, países como o México focam na ampliação de seus programas de financiamentos estudantis para aumentar o acesso dos jovens ao ensino superior.

Além disso, as instituições de ensino superior da América Latina estão se internacionalizando rapidamente, aumentando suas chances de serem reconhecidas pelos rankings – concentrados nas instituições de idioma inglês. Com essa finalidade, muitos governos latino-americanos criaram programas para encorajar o intercâmbio de estudantes e pesquisadores. Sob o programa Ciência Sem Fronteiras, o Brasil está enviando 100 mil estudantes de ciências, engenharia e matemática para fazer cursos fora. O Chile tem um programa parecido e o México, recentemente, propôs o Proyecta 100,000, com o objetivo de aumentar o número de estudantes mexicanos nos Estados Unidos para 100 mil até 2018.

As universidades da Colômbia também têm se esforçado para enviar seus alunos para o exterior. A Universidade dos Andes, por exemplo, tem parcerias com universidades como Harvard, enquanto órgãos financiadores nacionais como a Colfuturo ajudam os estudantes colombianos a ir para fora do país.

Com mais avanços e melhorias nas estruturas de financiamento do setor, as universidades da região deverão continuar ganhando posições nos rankings internacionais, afirmam os especialistas. Segundo eles, as conquistas de pesquisadores como Artur Avila também são de vital importância e encorajam as gerações mais novas a aspirar ao sucesso acadêmico. No campo da economia, pelo menos, os latino-americanos já têm uma vantagem no que diz respeito a análises de períodos de turbulências econômicas e elaboração de medidas de resposta, diz o professor Rigobon, da MIT Sloan. “A região sofreu todos os tipos de crises concebíveis. Em muitos casos, nós inventamos a crise.”

Fonte: Valor

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