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Empresa usa financiamento coletivo para lançar minitelescópio espacial

O primeiro telescópio espacial financiado por doações já é uma realidade.

Concebido pela empresa Planetary Resources, o satélite Arkyd será bancado com dinheiro recolhido pela internet. E as mesmas pessoas que financiam o projeto poderão depois usar a espaçonave.

É a primeira iniciativa bem-sucedida de financiamento coletivo de um lançamento espacial. A companhia solicitou o auxílio do público por meio do site americano Kickstarter, especializado nesse tipo de campanha.

Foram arrecadados, até sexta, US$ 1,24 milhão. Para ser bancado, o projeto precisava atingir a meta de US$ 1 milhão, cumprida no dia 20. A série de satélites Arkyd é o primeiro passo no plano da Planetary Resources, que se apresenta desde 2012 como mineradora de asteroides.

A meta principal do telescópio é descobrir, rastrear e caracterizar bólidos celestes que passem perto da Terra.

Objetivos adicionais foram estabelecidos caso as doações ultrapassassem certos valores. Caso cheguem a US$ 1,3 milhão (a arrecadação termina hoje), o sistema ganhará uma estação extra de recolhimento de dados, para dar mais agilidade ao uso. Com US$ 2 milhões, o próprio satélite será mais bem equipado para procurar planetas fora do Sistema Solar.

Alex Argozino/Editoria de Arte/Folhapress

Chamar o Arkyd de telescópio espacial talvez seja um exagero. A não ser que se coloque o “míni” na frente. Com um espelho primário de 20 cm de abertura para captar imagens e uma largura máxima de 60 cm (com painéis solares abertos), o satélite não é muito maior que uma caixa de sapato.

Outra estratégia para reduzir a escala foi adotar comunicação por laser, em vez de rádio, para o contato com o solo. Uma antena ocupa mais espaço e pesa mais que um receptor e emissor de laser.

Essas medidas explicam, em parte, o baixo custo. O caçador de planetas Kepler, da Nasa, em comparação, tinha 1,4 m de espelho e custou US$ 550 milhões.

Claro, a Planetary Resources diz que o Arkyd nunca chegará perto da capacidade que o Kepler tinha (o satélite pifou recentemente, mas os engenheiros tentam repará-lo à distância).
Em compensação, quem colabora com o minitelescópio poderá usá-lo. Doando US$ 200, é possível escolher um objeto astronômico e receber a imagem obtida.

E dá para fazer (alguma) ciência com ele. “Nada muito espetacular”, destaca Cássio Leandro Barbosa, astrônomo que coordena o observatório da Univap (Universidade do Vale do Paraíba), em São José dos Campos (SP).

“Ele é bem útil para monitoramentos temporais.” A detecção de asteroides envolve justamente esse procedimento. Tiram-se fotos sucessivas de uma região do céu em busca de objetos em movimento.

Mas, mesmo para isso, ele não deve cativar astrônomos profissionais. “Acredito que ele possa descobrir novos asteroides”, diz Fernando Roig, pesquisador do Observatório Nacional envolvido com um projeto brasileiro de monitoramento de bólidos celestes.

“Mas daí a fazer ciência de verdade, acho difícil. Se eu quiser levar adiante um projeto sério, teria que desembolsar muita grana para ter tempo suficiente de observação. Aí não compensa.”
Se o doador não pretende iniciar uma carreira astronômica, por bem menos (US$ 25) ele já sai com um suvenir –uma foto do satélite em órbita com uma imagem de sua escolha projetada numa telinha instalada nele.

Doando menos que isso, a Planetary Resources oferece sua eterna gratidão. E olhe lá.

Fonte: Folha de São Paulo

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