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Empresa se une até com rivais para projetos de inovação

Um dos mais novos projetos de pesquisa da WEG, um gerador eólico de grande potência, que está sendo desenvolvido com investimentos de R$ 160 milhões, ocorre em parceria com o usuário final do produto, a Tractebel, geradora de energia multinacional. É a primeira união desse porte na área de pesquisa da WEG, mas revela uma tendência: as maiores empresas inovadoras do país estão realizando com cada vez mais frequência pesquisas em parceria com outras companhias. E não só com clientes ou fornecedores. Chegam a se unir até mesmo com rivais para buscar inovação em conjunto.

Valor conversou com três executivos das maiores empresas inovadoras do país para entender os principais aspectos de sua estratégia de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) nos anos mais recentes. De acordo com ranking global da Comissão Europeia, divulgado em novembro, oito empresas brasileiras apenas encontram-se no seleto grupo das 2.000 empresas de capital aberto que mais investiram em P&D no mundo em 2012. São elas: Vale , Petrobras, Embraer, Totvs, CPFL Energia, WEG, Braskem e Itautec, nessa ordem.

Com a união com a Tractebel em torno de um gerador eólico de 3,3 MW, superando a potência mais comum ofertada hoje no mercado nacional, que está na faixa de 2 MW, a WEG não precisa ter um campo de testes específico para o novo produto. Vai usar a experiência e os retornos obtidos com a Tractebel para ‘afinar’ o produto antes de sua comercialização no mercado. A união vai propiciar mais agilidade na pesquisa e troca de conhecimento entre as duas empresas, além de acesso a um financiamento específico, uma vez que a Tractebel conseguiu recursos da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) para o projeto.

As parcerias de diferentes tipos também se tornaram mais comuns na estratégia de P&D da Braskem. A petroquímica fechou em 2009 com a Novozymes, produtora de enzimas industriais, o desenvolvimento conjunto do polipropileno verde (plástico verde), feito a partir de cana-de-açúcar. Em 2013, ela se uniu à americana Genomatica, da área de biotecnologia, com a qual pesquisa o butadieno verde, matéria-prima alternativa, voltada ao mercado de borrachas sintéticas, suprido hoje pelo butadieno de base nafta.

“Pensa numa montadora, ela tem seus fornecedores, mão de obra e vai juntando partes e montando isso dentro de casa. A gente tem operado muito dessa maneira, usando centros de pesquisa, universidades, e até outras empresas, mesmo as que estão no mesmo segmento e que são nossos concorrentes”, diz Edmundo Aires, vice-presidente de tecnologia e inovação da Braskem, sem revelar outras empresas parceiras, mas destacando o fato de estarem atuando muito por meio da “inovação aberta”.

Na inovação aberta, os concorrentes tentam desenvolver alguns tipos de tecnologias mais básicas em conjunto, compartilhando esse resultado, mas quando ocorrem os próximos passos, cada empresa passa a atuar sozinha.

“Nos estágios iniciais da pesquisa, especialmente em áreas do conhecimento ainda emergentes [como nanotecnologia], a associação é mais frequente, porque os riscos e os custos são grandes, e as empresas ainda nem sabem o que pode resultar dali”, diz o pesquisador do Ipea, Luiz Ricardo Cavalcante. A inovação aberta tem se tornado mais comum no país justamente na etapa inicial. Mas à medida que as empresas passam à pesquisa aplicada, cada vez mais fazem questão de deter a propriedade intelectual do que desenvolvem.

As grandes empresas inovadoras atuam de forma diferente da média das companhias brasileiras não só na questão das parcerias. As mais inovadoras também têm em comum o fato de serem todas grandes empresas; de estarem sempre em contato com diferentes universidades, no país e no exterior; de procurarem manter o investimento em P&D constante, independentemente se a economia do país vai bem ou vai mal. Além disso, elas utilizam financiamentos subsidiados pelo governo federal para os seus projetos mais arriscados e de mais longo prazo e entendem inovação como um processo que pode surgir não só nos seus núcleos de pesquisa, mas em todos os seus departamentos. E isso engloba desde mudanças simples, como um novo posicionamento das máquinas na fábrica, a até mudanças relacionadas à criação de produtos e processos, com “inovação de ruptura”, aquela que quebra paradigmas estabelecidos.

Segundo pesquisadores ouvidos pelo Valor, essa manutenção do investimento em P&D mesmo quando o cenário econômico é adverso contraria a média do mercado, que faz inovação de maneira pró-cíclica. Essa diferença ocorre pelo entendimento de que, apesar de a pesquisa ser algo custoso e de longo prazo, é por meio dela que a empresa terá mais chances de se sobressair frente aos rivais.

“Quando o dinheiro começa a ficar escasso, as empresas, em geral, cortam em P&D porque os seus resultados são de longo prazo. Mas cada caso é um caso. Em determinadas empresas, justamente em momento de crise pode ser que seja preciso lançar um produto que sem o qual não sobrevivem na própria crise”, diz Cavalcante, do Ipea.

WEG, Totvs e Braskem informaram que têm mantido constantes ou em elevação os investimentos em P&D, mesmo com o baixo crescimento da economia brasileira nos últimos três anos.

“P&D não se faz em um ano, leva de três a 10 anos ou até mais, dependendo do projeto. Uma empresa que tem estratégia de inovação tem que investir de forma regular por longo período, independentemente se faz sol ou chuva, se o céu é de brigadeiro ou se tem tempestade, pois uma coisa que estamos pensando agora só vai muitas vezes aparecer [no mercado] daqui a 10 anos”, explica Aires.

A Braskem nos últimos dois anos destinou à inovação R$ 200 milhões anuais. Em 2014, para melhor se preparar ao desafio de competitividade mundial trazido pelo gás de xisto descoberto nos Estados Unidos, estima-se que a verba de P&D poderá ficar um pouco maior: R$ 210 milhões.

Na WEG, o percentual voltado à P&D manteve-se em 2,5% da receita líquida anual nos últimos 20 anos, independentemente do cenário, diz Antônio Cesar da Silva, diretor de marketing corporativo.

Na lista da Comissão Europeia, essas três empresas mantiveram em alta os investimentos em P&D entre 2011 e 2012 e também em uma análise do triênio 2010-2012, embora essa não seja uma tendência observada em todas as oito companhias que aparecem no ranking. Os recursos da WEG aumentaram 7,6% entre 2011 e 2012 e 20,5% entre 2010 e 2012. A Braskem ampliou em 7,2% em 2012 contra o ano anterior e em 17,1% em três anos. A Totvs incrementou essa verba em 19,9% em um ano e em 13,8% em três anos.

“Os investimentos são constantes, porque sem inovação a gente não perdura como empresa de software”, afirma Gilsinei Hansen, vice-presidente de sistemas e segmentos da Totvs, empresa voltada a sistemas de gestão integrada.

Um dos grandes projetos da Totvs é a tecnologia fluida, que é uma tecnologia rápida de adotar, fácil de usar, simples, móvel (usada em tablets e smartphones) e que promove aumento da produtividade, compartilhamento e colaboração. Com essa tecnologia, a Totvs afirma querer sair na frente de seus concorrentes na América Latina.

As mais inovadoras do país veem na pesquisa uma forma de colocá-las de fato em uma melhor condição de competição, não só no mercado nacional, mas diante dos rivais internacionais. “Temos que vencer as brigas pelo mundo na concorrência. Motores elétricos, por exemplo, são uma tecnologia muito antiga, plenamente dominada em muitos cantos do mundo, mas fazer motores mais eficientes e mais confiáveis têm a ver com processos, com engenharia e pesquisa, e é isso que os diferencia”, diz Silva, da WEG. Segundo ele, os principais focos de pesquisa e desenvolvimento da empresa em motores são a melhora da eficiência e da confiança.

Na Braskem, uma das questões concorrenciais mais importantes hoje é o desafio do gás de xisto americano, que proporciona matérias-primas e produção de energia mais barata. “Há uma conjugação de fatores que vai nos levar a pensar em como ter competitividade frente a uma situação bastante desafiante, que é essa vantagem dos Estados Unidos”, diz Aires. “Temos que buscar alternativas e elas virão a partir de inovação”, acrescentou, sem revelar as pesquisas em andamento para fazer frente especificamente ao xisto.

Tanto Braskem quanto WEG e Totvs possuem projetos de inovação de diferentes portes, desde aqueles projetos que tratam apenas de melhorias incrementais em produtos e processos já existentes (inovação voltada para o passado), até projetos de grande envergadura, as chamadas inovações de ruptura, geralmente voltadas para o futuro e nas quais as apostas são mais altas, e onde a empresa pode mais facilmente criar algo de fato novo no seu setor de atuação.

“Dá para buscar alternativas de inovação na própria simplicidade, como o rearranjo de processos”, diz Silva, citando que a WEG usa com frequência contribuições de funcionários. Para isso, mantém comitês de discussão constantes, voltados a sugestões de seus trabalhadores (desde o chão da fábrica) para inovação, além de a cada nove meses reunir um comitê de pesquisa com pessoas específicas da área de pesquisa da própria empresa e professores de universidades brasileiras e do exterior, criando uma rede de colaboradores. “O objetivo não é sair dessa reunião com um produto para entrar na nossa linha. É um olhar de longo prazo, estratégico”, ressaltou.

Outras empresas que aparecem na pesquisa foram procuradas, mas não concederam entrevista. A Petrobras, por e-mail, informou que possui colaboração de 122 universidades e institutos de pesquisa brasileiros, e que vem criando iniciativas para promover a participação de fornecedores durante o desenvolvimento de projetos, como forma de acelerar a transferência de tecnologias e a introdução da inovação ao mercado.

Fonte: Valor

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