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É possível resolver problemas sociais e faturar, diz especialista em inovação

Balões de transmissão de internet para uso após desastres naturais, contêineres adaptados para transportar água, formas mais baratas de diagnosticar câncer e novos modelos de planos de internet para os mais pobres são algumas das apostas do Socialab, um laboratório chileno para inovações sociais.

O grupo nasceu em 2011 dentro da Techo (no Brasil, Teto), organização que constrói casas para pessoas extremamente pobres em 19 países da América Latina. O Socialab não tem fins lucrativos, mas serve de encubadora para negócios com impacto social positivo e presta consultoria para grandes empresas, afirma o fundador Julián Ugarte, 34.

Segundo ele, “você pode ser livre e um capitalista ao mesmo tempo”, sendo possível “resolver problemas enquanto ganha dinheiro”. “Dinheiro não é o resultado final de tudo. É apenas uma ferramenta para criar uma sociedade mais feliz, e algo que pode chegar se você estiver trabalhando bem.”

Ele está no Brasil, onde falará sobre tecnologias, empreendedorismo e impacto social nesta quinta-feira (6) no Seminário Social Good Brasil, em Florianópolis.

Folha – Como começou a empresa de vocês?

Julián Ugarte – Foi em 2011, logo após um investimento de R$ 4 milhões da Vivo, Telefônica e BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) em uma divisão de inovação do Techo [entidade sem fins lucrativos que desenvolve projetos em favelas] que tínhamos criado em 1997. Eles nos procuraram para ajudar a fazer com que a internet chegasse a 3,5 milhões de chilenos de baixa renda.

Foi nessa época que a iniciativa cresceu muito, porque o BID nos deu uma bolsa muito grande, além de ter essa relação com Vivo e outras empresas. Por isso resolvemos criar o Socialab como spin-off [um negócio independente que nasce dentro de outro].

Indo a campo descobrimos que havia bairros muito populosos em que a Vivo não vendia. Encontramos um cara numa comunidade em Santiago que comprou internet no último ponto da Vivo no bairro e criou um modelo para vender o sinal para outros moradores.

Hoje ele conecta as pessoas em cinco pontos da cidade, pagando para a Vivo e distribuindo para uma população muito grande.

Depois de descobrirmos esse fenômeno, desenvolvemos um novo modelo de negócios para o empreendedor comprar um pacote de internet especial para revender. Fizemos uma convocatória em que vários pequenos empresários puderam se candidatar para fornecer esse produto.

Agora, muitos caras em distintas comunidades podem ter esses negócios. Há mais pessoas conectadas na internet, e é possível fazer novas plataformas para esse mercado.

Já atendemos 2 milhões das 3,5 milhões de pessoas que o projeto quer atender. Isso é muita coisa dentro de uma população de 17 milhões. No final, um terço dos atendidos vai usar esse modelo de revenda e o resto vai ser a partir de internet mais barata.

No mundo que temos hoje, se você não tem internet, fica na pré-história. Ela é muito importante. Se quer ter igualdade, tem que ter conexão.

É um mercado lucrativo, que promove empreendedorismo com impacto social positivo. Isso é o que tentamos fazer: combinar negócios com impacto social.

Vocês também financiam start-ups(empresas iniciantes)?

Não temos fins lucrativos, mas ajudamos a estruturar start-ups que tenham um impacto social positivo com um modelo de negócios claro, para que possam ganhar escala.

Uma delas, pode consultar na [revista especializada] “Wired”, se chama Miroculus. O primeiro investimento que recebeu foi de US$ 60 mil pelo Socialab em 2013. É um aparelho ligado à internet que permite detectar câncer antes de o tumor aparecer, logo no começo da doença, o que aumenta as possibilidades de sobrevivência.

Como vocês selecionam os projetos?

Geralmente usamos o modelo de convocatórias para resolver um problema comum que podemos e chamamos empreendedores sociais, que pagamos com recursos de empresas e outras instituições. Os financiamentos são em média de R$ 30 mil a R$ 50 mil.

Fizemos um chamado nos cinco continentes em parceria com a Unicef para buscar soluções para as primeiras horas após uma catástrofe, e mais de 50 países enviaram ideias inovadoras.

O projeto mais incrível foi de um cara que usa balões que emitem sinais de internet para que as pessoas se conectem. Um dos maiores problemas logo depois de uma catástrofe é a falta de comunicação, que faz com que não se saiba onde as pessoas estão e do que precisam.

Com uma rede de balões, você provê um sistema de comunicação muito rápido, já nas 24 primeiras horas depois do problema.

Um outro projeto desenvolveu uma forma de adaptar contêineres para que eles possam transportar água.

Os chamados são uma forma rápida e sem burocracia de levantar recursos e chegar a soluções.Também já os fizemos junto ao governo da Colômbia, de Buenos Aires e com a [instituição de caridade] Porticus, entre outros. Financiamos mais de cem projetos e, deles, 20 funcionam, o que é normal em start-ups.

Vocês têm planos de montar um escritório no Brasil?

Sempre passei minhas férias no Brasil, que é um país incrível, com uma população grande e empreendedora Boas iniciativas teriam um impacto social enorme.

Já temos escritórios na Colômbia, no Uruguai, na Argentina e estamos montando um no México. No Brasil, não estamos tentando exatamente montar um escritório. Estamos procurando o parceiro certo no Rio de Janeiro para entregar a eles nosso modelo de negócios para usá-lo livremente. Nossa ideia é que essa operação comece a funcionar até julho.

Sobre o que você vai falar em Florianópolis?

Eu vou falar sobre os aplicativos sociais. Sobre como você pode ser livre e um capitalista ao mesmo tempo, e como resolver problemas enquanto ganha dinheiro. É importante saber que dinheiro não é o resultado final de tudo. É apenas uma ferramenta para criar uma sociedade mais feliz, e algo que pode chegar se você estiver trabalhando bem.

O dinheiro não é a meta. A meta é a humanidade.

Fonte: Jornal Folha de São Paulo

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