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Demanda por crédito para inovação atinge R$ 68 bi

Há um “bom problema” para ser resolvido pelo governo brasileiro: a demanda por financiamentos para tecnologia e inovação é muito maior do que a Finep, Agência Brasileira da Inovação vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia, esperava para este ano: foram R$ 68 bilhões em demanda, contra uma oferta de R$ 32,9 bilhões anunciada em março.

A solução para esse problema é um dos caminhos para elevar a produtividade e a quantidade de inovações, que poderão colocar o Brasil no mesmo patamar dos países desenvolvidos, informa o presidente da Finep, Glauco Arbix. O Brasil, segundo ele, tem patinado nessas duas dimensões do desenvolvimento: “Falta gente para inovar, e a inovação é uma disciplina de transformação”, comenta Arbix. Apesar disso, muitas empresas pequenas e médias de base tecnológica, além de algumas grandes, têm procurado financiamentos do governo para impulsionar a inovação.

Uma das razões para o aumento da demanda, no caso da própria Finep, é que o tempo necessário para a contratação do crédito para os projetos foi drasticamente encurtado. Em 2010, diz Arbix, chegava a 452 dias, e atualmente é de no máximo 30 – isso ajudou a elevar também o número de empresas que se cadastraram na Finep: foram 1.114 nesse período, mais do que o total cadastrado nos 46 anos de existência do órgão.

Arbix diz que não há uma resposta imediata para a demanda: “O Brasil não tem um sistema que ofereça investimentos em médio e longo prazos para pesquisa e desenvolvimento, e infelizmente é assim no mundo inteiro”. Bancos privados, por exemplo, não financiam iniciativas desse gênero, porque o risco é muito alto, diz ele. O problema é especialmente grave na América Latina: o relatório “Latin America Economic Outlook 2013”, feito pela OCDE e pela ONU, mostra que em 2009 o investimento do subcontinente em P&D foi de apenas 0,7% do PIB, enquanto no grupo de 34 países da OCDE foi de 2,4%.

As empresas mais prejudicadas por essa diferença são justamente as pequenas e médias: segundo o relatório, “o tamanho de uma empresa afeta diretamente a sua capacidade de inovar. Enquanto as grandes firmas se beneficiam de seus lucros crescentes gerados pelas atividades de P&D, as PMEs têm pesadas restrições por causa de seu tamanho, de modo que suas inovações são mais fracas e elas têm menos probabilidades de usar as tecnologias produtivamente”.

Conseguir financiamento nem sempre é o principal problema em pesquisa, desenvolvimento e inovação, observa o administrador Ruy Quadros, líder do Laboratório de Gestão da Tecnologia e Inovação no Instituto de Geociências da Unicamp. Quadros é o coordenador do curso de “Especialização em Gestão Estratégica da Inovação Tecnológica”, cujo objetivo é capacitar profissionais já experientes a mobilizarem conhecimento e competências tecnológicas para criar novos produtos, processos, serviços e negócios. Os grandes problemas são justamente aqueles tratados no curso: “Os alunos precisam de uma visão integrada desde a gestão do projeto em nível micro, passando pela visão estratégica, planejamento de tecnologia, indo até a visão do sistema de P&D no Brasil”, explica o Quadros.

O biólogo Rodrigo Mota, sócio e diretor da startup Ecovec, de Belo Horizonte, e ex-aluno do curso, tem aproveitado esse conhecimento para fazer a empresa crescer: ela já obteve financiamentos da Finep e da Fapemig e tem sido bem sucedida na comercialização de seus produtos, os sistemas de monitoramento da infestação de bairros pelos mosquitos transmissores da dengue. Em abril deste ano, sua tecnologia “M.I.Dengue” foi premiada com uma das medalhas de bronze do Edison Awards, da Fundação Thomas Edison, dos EUA, na categoria “Qualidade de Vida”. Em 2006, ela ganhou em Seattle um dos prêmios “Tech Museum Awards”, ocasião em que o principal homenageado, Bill Gates, citou a empresa como exemplo de inovação e simplicidade. “Apesar disso e de termos sido inicialmente financiados pelo governo, ainda não conseguimos vender para o Ministério da Saúde”, conta Mota.

Segundo ele, a dificuldade está justamente na simplicidade dos protocolos, que preveem contagem de mosquitos a cada sete dias. O sistema funciona com base numa armadilha para mosquitos, numa isca que simula o odor dos criadouros em água estagnada, e em smartphones que transmitem para o sistema central as quantidades de mosquitos capturadas e a localização das armadilhas.

Taíla Lemos, diretora da empresa de biotecnologia Gentros, de Campinas, acha que pequenas e médias empresas de base tecnológica não devem buscar apoio em financiamentos públicos por muito tempo: “Empresa que vive de fomento não cresce”, afirma ela, com a experiência de quem preferiu apostar em parcerias para conseguir recursos. “O ideal é que o dinheiro de fomento seja utilizado no início, para minimizar riscos”, diz Taíla.

Muitos dos recursos que ela menciona são na verdade o acesso a laboratórios de empresas maiores, onde há os equipamentos e os especialistas de que a Gentros precisou em vários momentos. Com a ampliação das parcerias, houve também a aproximação de investidores que resolveram apostar na empresa e ajudaram a sustentar o desenvolvimento dos primeiros produtos: três moléculas para serem utilizadas na indústria farmacêutica veterinária, que em 2014 devem render à Gentros perto de R$ 1,5 milhão em faturamento.

Fonte: Valor Econômico

 

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