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Defasagem tecnológica prejudica o polo do Rio

Maior polo naval do país, o Rio de Janeiro ainda tem conseguido se diferenciar pelas vantagens locais e por ter resgatado a capacitação que restou dos anos de ouro do setor, nas décadas de 1970 e 1980. Trata-se do polo naval mais antigo e o mais diversificado, que representa 37,5% do total do empregos diretos gerado no setor, estimado em quase 80 mil pessoas.

Hoje, está longe do que representou no seu apogeu quando estaleiros como Mauá, Emaq, Caneco, Verolme e Skawagima – que chegaram a formar o segundo maior polo naval do mundo, com a produção de até 15 navios por ano – e respondiam por 90% da produção nacional. Atualmente, são 18 estaleiros instalados nos municípios do Rio de Janeiro, Niterói, São Gonçalo, Angra dos Reis e São João da Barra.

“Entre as vantagens locais estão a ampla rede de fornecedores, a existência de arranjos produtivos com os estaleiros prestando serviços entre eles e a oferta de recursos humanos”, diz Ariovaldo Rocha, presidente do Sindicato Nacional da Indústria da Construção e Reparação Naval e Offshore (Sinaval). Para Eduardo Eugenio Gouvêa Vieira, presidente da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), o Rio é o polo mais competitivo pela tradição e pelo fato de ter mão de obra especializada e que reside próxima ao estaleiro.

Apesar dos diferenciais, a competitividade do polo fluminense está em cheque, e vários estaleiros enfrentam dificuldades. O Estado reúne estaleiros centenários, como Eisa e Mauá (agora denominado Eisa Petro Um); outros que surgiram da recuperação do setor associando-se a parceiros globais, caso do antigo Verolme, agora Brasfels; além de estaleiros de menor porte, como Rio Nave, Aliança, Vard, Brasa, Mac Laren, Cassinu, Inhauma e São Miguel. Mas o polo sofre com a falta de espaço para crescer, layouts defasados e problemas financeiros e de gestão.

“O Rio de Janeiro ainda é o maior polo, mas não tem a mesma infraestrutura em termos de capacidade, tecnologia e layout dos estaleiros mais modernos que estão sendo implantados em Pernambuco, Rio Grande do Sul e Bahia. Os estaleiros são antigos, defasados e pequenos e não houve nenhum grande projeto, a não ser o da OSX, que não foi adiante”, analisa Floriano Pires, professor de engenharia oceânica da Coppe/UFRJ e presidente da Sociedade Brasileira de Engenharia Naval (Sobema).

O OSX, que era a promessa de um estaleiro de padrão internacional no Estado, tenta se viabilizar em meio a um processo de recuperação judicial. Com a crise que atingiu o grupo EBX, de Eike Batista, o OSX sequer chegou a terminar sua construção e o que tinha a receber de seu principal cliente – a OGX – foi convertido em ações da empresa de petróleo, que, diante do cenário, não têm valor real.

O estaleiro chegou a construir os FPSOs OSX1 e OSX3 que estão em operação nos campos da OGX, mas o OSX2 está parado na Ásia. Vladimir Ranevsky, CEO do OSX, diz que as obras aguardam a aceitação pelos credores do plano de recuperação judicial encaminhado em 16 de maio, que deve ser votado em assembleia a ser marcada em agosto.

O estaleiro ainda conta com 400 funcionários, e, por meio do acordo com a Mendes Jr na Sociedade de Propósito Específico Integra, está construindo as plataformas P-67 e P-70 para a Petrobras. Outro projeto é a construção de um pipe-laying support vessel (PSLV) para a japonesa Sapura. O acordo de transferência de tecnologia com a Hyundai foi interrompido, mas as negociações continuam.

Outra crise vive o estaleiro Eisa, apesar da bilionária carteira de encomendas. Segundo reportagem publicada no Valor em 16 de julho, o empresário Germán Efromovich, que controla o Eisa via Synergy Group, e os administradores do estaleiro tentam encontrar uma saída, e no mercado fala-se que estariam buscando compradores.

O estaleiro está com as atividades paralisadas desde junho, mas conta com uma carteira de 26 contratos que somam US$ 1,5 bilhão em encomendas, segundo declarou Josuan Moraes Junior, presidente do Eisa. Defasado tecnologicamente, o estaleiro enfrenta problemas de produtividade e teria sido impactado pela inadimplência em um mau contrato com a PDVSA e pelos atrasos na aprovação – por parte de agente financeiro – dos empréstimos do Fundo da Marinha Mercante (FMM), cujos recursos seriam utilizados para a sua modernização.

Apesar desses cenários de crise, o presidente do Sinaval, Ariovaldo Rocha, reitera a solidez do polo naval do Rio. “Estão em construção, no Estado do Rio, plataformas, sondas, navios de apoio marítimo, graneleiros e porta-contêineres, petroleiros, navios de derivados de petróleo, navios-patrulha e submarinos para a Marinha Brasileira. É uma diversificação que não é encontrada em nenhum outro polo naval no Brasil”, afirma. Mas, para especialistas, caso não acelere sua modernização, o polo tende a ficar com um papel complementar na indústria naval brasileira.

É o caso, por exemplo, do grupo norueguês Vard, que adquiriu, no ano passado, as operações do STX OSV. Por falta de espaço para expansão no Rio, o grupo construiu o estaleiro Promar numa área de 250 mil metros quadrados no Complexo Industrial de Suape, Pernambuco, com capacidade de processamento de 20 mil toneladas por ano. Segundo Miro Arantes, presidente do Grupo Vard, o estaleiro de Niterói, agora denominado Vard Niterói, será complementar ao Vard Promar Pernambuco.

“O Vard Niterói é líder em construção de embarcações especializadas, e construiu 30 unidades. Mas o layout é pobre e antigo, e não há espaço para crescer e se atualizar de acordo com os padrões modernos. Para mantermos a atividade, ele ficará responsável pelo acabamento dos navios que estão sendo construídos no Vard Promar, em Pernambuco.”

Fonte: Valor

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