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Climatologista brasileiro Carlos Nobre vai assessorar Ban Ki-moon

A ONU (Organização das Nações Unidas) quer fortalecer a ponte entre conhecimento científico e política ambiental para evitar falhas como a de 2009, quando a conferência de Copenhague fracassou em produzir um acordo para frear a mudança climática. Segundo o paulista Carlos Nobre, cientista que acaba de ser nomeado para o Painel de Alto Nível para Sustentabilidade Global, essa será uma das principais missões da organização nos próximos dois anos.

Nobre, secretário de políticas e programas de pesquisa do Ministério da Ciência, passa a integrar o conselho –que assessora diretamente o secretário-geral Ban Ki-moon– meses antes da conclusão do 5º Relatório de Avaliação do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudança Climática), o principal documento científico sobre o aquecimento global. Convenientemente, seu mandato dura até realização da conferência do clima de 2015, próxima janela de oportunidade para selar um acordo global sobre clima.

Esse período de tempo é análogo àquele que precedeu o fracasso de Copenhague, algo que surpreendeu muitos climatologistas, pois o quarto relatório do IPCC havia sido categórico ao culpar a emissão de gases-estufa pelo aquecimento global. Segundo Nobre, é hora de pensar o que deu errado para evitar uma segunda decepção, e o painel de alto nível –que possui outros 25 cientistas– vai debater isso.

“O aprendizado de Copenhague é muito profundo e reflete em todas as maneiras de buscar soluções, consensos e avanços”, diz Nobre. “O painel de alto-nível foi criado um pouco em função daquilo que aconteceu lá.”

O IPCC está afirmando novamente que o aquecimento global é “inequívoco” e vai refinar a estimativa de quanto o planeta precisa cortar em emissões para evitar um aquecimento global “perigoso”. “O novo relatório está mostrando que não existe salvação que não passe por uma enorme redução das emissões”, diz Nobre.

ACELERANDO O IPCC

Um assunto que deve passar pela mesa de Ban Ki-moon nos próximos meses, além da conferência do clima de 2015, é a reformulação do papel do IPCC dentro da ONU.

Desde 1990, o modo de operação desse painel é produzir relatórios de grande porte com intervalos de seis a sete anos entre um e outro. Há hoje um movimento forte na comunidade científica porém, para que esses documentos dêem lugar a estudos mais pontuais e rápidos de se produzir, já que o consenso sobre a importância em mitigar o aquecimento global já está bastante disseminado.

Logo após a conclusão do quarto relatório do IPCC, Nobre era diretor do Programa Internacional Geosfera-Biosfera, e articulou um documento com outros diretores de projetos de pesquisa globais sugerindo uma flexibilização no modo de trabalho do painel. Na opinião dos signatários, o ciclo de seis anos é lento demais para reagir à demanda política por informação científica.

“Na época, fomos votos vencidos”, conta. “Mas agora existe muito mais aderência a esse movimento pedindo uma mudança do formato no IPCC, com avaliações rápidas, mais focadas, com mais flexibilidade e abordando temas quentes.”

Na opinião do climatologista brasileiro, o quinto relatório do IPCC, que encerrou o primeiro tomo em setembro e deve completar os outros dois até maio de 2014, será o último documento de grande porte produzido para convencer a esfera política da importância da mudança climática.

Fonte: Jornal Folha de São Paulo

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