Destaques

Cientistas pedem menos quantidade e mais qualidade nas avaliações

Lideranças da comunidade científica fizeram ontem uma forte cobrança por mudanças nos critérios de avaliação de pesquisadores e instituições, pedindo que elas sejam mais baseadas em qualidade e menos em quantidade. “Premiar só a quantidade é algo que sinaliza na direção errada; desencaminha a juventude e acomoda os (pesquisadores) seniores”, disse o presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Glaucius Oliva, na reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

“Não produzir nada ou muito pouco é sempre ruim, mas publicar muito não é necessariamente bom”, afirmou Oliva. Isso não significa, segundo ele, que seja necessário reduzir o número de publicações, mas que é possível – e necessário – dar um salto qualitativo sem perder a produtividade.

O número de trabalhos publicados anualmente por cientistas brasileiros cresceu substancialmente nos últimos anos, mas o impacto dessa produção científica – medido pelo número de vezes que esses trabalhos são citados por outros pesquisadores – não cresceu na mesma proporção. Na verdade, cresceu muito pouco. Na prática, as estatísticas mostram que os cientistas brasileiros publicam muitos trabalhos de uma forma geral, porém poucos trabalhos de grande relevância para a ciência mundial.

“O fato é que, historicamente, a ciência brasileira tem pouca repercussão no resto do mundo”, disse o físico Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). A Argentina, comparativamente, publica muito menos trabalhos do que o Brasil – até porque tem uma comunidade científica muito menor –, mas tem um fator de impacto maior do que o do País. Mesmo nas grandes universidades do Sul e Sudeste do Brasil, segundo Brito, a influência da ciência produzida não se compara à de grandes universidades nos EUA e na Europa.

Uma das principais razões para isso, segundo Oliva, é que a agenda científica dos pesquisadores e instituições brasileiras é fortemente pautada pelas políticas de avaliação das agências de fomento, como o próprio CNPq, a Fapesp e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), que, por sua vez, ainda são fortemente pautadas por critérios quantitativos, apesar dos esforços iniciados recentemente para mudar essa “cultura”.

“A comunidade ainda trabalha olhando muito para o passado”, disse Oliva ao Estado. “É um processo educativo. Precisamos começar a olhar mais para o futuro.”

A atual ênfase em quantidade, segundo ele, leva a uma série de distorções e acomodações que reduzem a qualidade e a relevância da ciência nacional. Pesquisadores preferem investir na produção de trabalhos fáceis, pouco ambiciosos e de curta duração, que lhes garantem um número maior de publicações – porque é isso, tradicionalmente, que é levado em conta nas avaliações de projetos e bolsas. Ou então, optam por desmembrar um único projeto de pesquisa em várias publicações, fatia por fatia, numa prática conhecida como “salami science”, ou ciência salame.

O resultado é que a maioria dos trabalhos publicados são de baixa relevância e pouca originalidade. O que acaba, também, incentivando práticas antiéticas por parte de pesquisadores, como a autocitação ou a citação entre amigos, como forma de elevar artificialmente o fator de impacto das publicações – já que elas não são “naturalmente” citadas o suficiente na literatura por outros cientistas.

Já num olhar de “futuro”, segundo Oliva, o crucial na avaliação de um pesquisador (para concessão de bolsas, recursos e aprovação de projetos) deve ser a qualidade da sua produção científica, e não o número de trabalhos publicados. Além disso, deve-se levar em conta a contribuição do pesquisador para outras áreas, como a inovação tecnológica, formação de recursos humanos e popularização da ciência – fatores que foram recentemente incorporados pelo CNPq ao sistema de currículo Lattes, assim como indicadores do número de citações de trabalhos publicados (em vez de uma simples lista de trabalhos em ordem cronológica). “Agora temos indicadores que nos permitem começar a fazer essa análise mais qualitativa”, diz Oliva.

Os critérios gerais de avaliação do CNPq, segundo ele, já foram modificados para enfatizar a qualidade e a relevância da ciência. Mas ainda é preciso mudar a “cultura” dos comitês e da comunidade como um todo.

“Precisamos mudar uma mentalidade que nós mesmos criamos”, disse a presidente da SBPC, Helena Nader. “Temos de repensar e nos reeducar sobre como avaliar.”

Fonte: O Estado de São Paulo

Próximos Eventos