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Ciência brasileira ressurge na Antártida, 2 anos após incêndio

Dois anos depois do incêndio que destruiu a Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF), em 25 de fevereiro de 2012, a ciência brasileira não só se recuperou da tragédia como vive seu melhor momento no continente gelado. “Matamos o mito de que o programa antártico brasileiro ia parar”, diz Jefferson Simões, pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e coordenador-geral do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Criosfera. “O impacto foi mais psicológico do que científico.”

Segundo ele, as pesquisas já estão “100% normalizadas”, com o apoio dos dois navios antárticos da Marinha – o Almirante Maximiano e o Ary Rongel – e da base provisória que foi montada sobre o heliponto da antiga estação, no início de 2013, já totalmente operacional, com cerca de 1 mil metros quadrados de área útil.

“As instalações provisórias estão funcionando muito bem, com boa infraestrutura para alojamento e necessidades básicas de pesquisa”, disse ao Estado por e-mail a pesquisadora Rosalinda Montone, da Universidade de São Paulo, vice-coordenadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Antártico de Pesquisas Ambientais, que está agora na Antártida.

Segundo o contra-almirante Marcos Silva Rodrigues, que coordena o Programa Antártico Brasileiro(Proantar), 25 projetos de pesquisa estão em curso na Antártida neste verão (período de outubro a março, quando é possível operar na região): 12 a bordo do Almirante Maximiano, 7 no Ary Rongel e 6, na base provisória. “A ciência nunca parou. Tudo que era feito na estação foi transferido para os navios”, diz.

A expectativa é de que o volume de pesquisas cresça nos próximos anos. O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) lançou em setembro o primeiro edital específico para o Proantar em quase cinco anos (chamada 64/2013), no valor de R$ 13,8 milhões. Vinte projetos foram aprovados, entre 63 que foram submetidos.

Nos próximos meses deverá ser publicado também um plano de ação oficial, denominado Ciência Antártica para o Brasil, que vai nortear as pesquisas do País no continente até 2022. O documento, elaborado por um grupo de cientistas, já foi aprovado pelo Comitê Nacional de Pesquisas Antárticas(Conapa) e aguarda apenas por uma revisão editorial e a assinatura do ministro Marco Antonio Raupp para ser oficialmente divulgado – o que deverá ocorrer na 37ª Reunião Consultiva do Tratado da Antártica, marcada para abril, em Brasília.

“Estamos trabalhando para tornar o Brasil um país de vanguarda em pesquisa na Antártida”, disse aoEstado a coordenadora-geral de Mar e Antártica do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Janice Trotte Duhá. “Em 30 anos de Proantar, nunca tivemos um plano de ação como esse.”

Futuro. A construção da nova estação Comandante Ferraz está prevista para começar no verão antártico de 2014-2015 e terminar no de 2015-2016, conforme estipulado na licitação que foi aberta para a execução do projeto. A abertura dos envelopes com as propostas está marcada para hoje (24/2), em Brasília, e a expectativa da Marinha é anunciar o vencedor logo após o carnaval. A seleção será pelo menor preço, após qualificação técnica.

A licitação já deveria ter sido concluída em dezembro, mas a abertura dos envelopes foi suspensa um dia antes da data, por causa de questionamentos técnicos levantados pelas empresas interessadas. O prazo para conclusão da obra, que era de um ano, foi estendido para dois, “divididos em 300 dias de trabalho efetivo no local de construção da nova EACF, durante dois verões antárticos”, segundo o edital. “Não há previsão de novos adiamentos”, afirma Rodrigues, secretário da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar (Cirm).

O tamanho da estação também aumentou em relação ao projeto original, de 2,8 mil m2 para 4,5 mil m2, com acréscimo de laboratórios e mais infraestrutura de segurança e geração de energia. “Vamos ter uma estação que será o estado da arte, entre as mais modernas do mundo”, promete Rodrigues.

O custo estimado do plano, consequentemente, também cresceu: de R$ 72 milhões, no início de 2013 (quando o projeto arquitetônico foi escolhido), para R$ 110 milhões, em outubro (quando o projeto executivo foi finalizado), e agora, para R$ 145 milhões. Segundo Rodrigues, a variação deve-se ao aumento da estrutura física da base e à variação cambial do euro. “Desde o início dissemos que a estação custaria por volta de 40 milhões de euros”, diz.

HORIZONTE ABERTO

Se por um lado o Brasil perdeu uma estação de pesquisa fixa no solo, por outro ganhou um navio de pesquisa oceanográfica bem equipado – o Almirante Maximiano -, com capacidade para levar a ciência antártica brasileira muito além da Baía do Almirantado (onde fica a base), e um módulo de pesquisas remotas no interior do continente – o Criosfera 1, instalado 2,5 mil km ao sul da EACF.

“O programa antártico é muito mais do que a estação; estamos ampliando cada vez mais nossa área geográfica de atuação”, diz o glaciologista Jefferson Simões, que planeja a instalação de um segundo Criosfera para o fim deste ano. O módulo monitora continuamente uma série de parâmetros climáticos e envia os dados para os pesquisadores via satélite.

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“Não vejo que houve piora (após o incêndio). Na verdade, melhoramos em vários aspectos, especialmente na infraestrutura para oceanografia”, diz a bióloga Vivian Pellizari, do Instituto Oceanográfico da USP, que acabou de voltar de uma expedição de 30 dias a bordo do Almirante Maximiano.

O navio, incorporado em 2009 pela Marinha, recebeu uma série de melhorias nos últimos dois anos. Entre elas, um guincho essencial para a realização de pesquisas geológicas, até em águas profundas, como as da Passagem de Drake, entre a América do Sul e a Antártida — onde foram feitas coletas com ele recentemente, a quase 4 mil metros de profundidade. “O navio foi sendo equipado aos poucos e agora está maravilhoso”, elogia Vivian. “Estamos avançando de vento em popa, e devemos deslanchar mais ainda uma vez que a nova estação estiver pronta.”

Sem parar. “A reconstrução vai drenar recursos, mas serão instalações muito melhores do que as que tínhamos antes, sem dúvida”, diz o pesquisador João Paulo Machado Torres, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, um dos que estava na EACF em 2012, quando a estação pegou fogo. Assim como outros pesquisadores, ele perdeu amostras e outros materiais de pesquisa que estavam na base naquele momento, mas pediu uma prorrogação de prazo no projeto para refazer o trabalho, e conseguiu. Ele deu sequência ao projeto (sobre acúmulo de poluentes orgânicos em animais marinhos) com apoio da base de pesquisa chilena e de acampamentos temporários montados nas áreas de coleta, apoiados logisticamente pela Marinha. “Em nenhum momento a pesquisa parou”, ressalta Torres. “A perda dos oficiais foi a coisa que marcou mais a gente; a questão do material de pesquisa perdido foi de menor monta.”

“Com exceção das duas vidas que foram perdidas, eu diria que conseguimos apagar da história qualquer sentimento de perda relacionada ao incêndio”, diz a coordenadora-geral de Mar e Antártica do MCTI, Janice Duhá, lembrando, também, os dois militares da Marinha que morreram no combate ao fogo. A tragédia, segundo ela, criou um “momento de reflexão muito oportuno”, que acabou se revertendo a favor do Proantar, injetando vida nova no programa.

Todos os equipamentos de pesquisa perdidos no incêndio já foram repostos pelo ministério, num investimento de R$ 4,5 milhões.

Fonte: O Estado de São Paulo

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