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Bug brilha em lista de “startups” inovadoras

Uma empresa brasileira que controla pragas em cana, soja e outras lavouras comerciais com o uso de insetos será apontada nesta terça-feira uma das 36 “startups” mais inovadoras do mundo. Por seu potencial “de transformar o futuro de negócios e da sociedade”, a Bug Agentes Biológicos, sediada em Piracicaba, no interior paulista, será uma das “Pioneiras em Tecnologia 2014”, uma iniciativa do Fórum Econômico Mundial.

O fórum, que organiza o famoso encontro anual de Davos, na Suíça, avaliou que a utilização de vespas parasitas para o controle de pragas provocadas por lagartas “sem o uso de pesticidas ou sem perturbar o ecossistema local representa uma revolução biológica na agricultura brasileira, que, espera-se, venha a se espalhar para outros mercados emergentes”.

É o segundo prêmio internacional da Bug, que em 2012 foi considerada “a empresa mais inovadora do Brasil” pela revista “Fast Company”, da Califórnia. Essa premiação despertou a atenção do Fórum Econômico Mundial, que em seguida entrou contato com a companhia, enviou questionários e afinal fez a escolha que será anunciada hoje.

A Bug nasceu há dez anos na incubadora da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (Esalq), em Piracicaba, a partir de um encontro entre o biólogo Heraldo Negri e o agrônomo Diogo Carvalho. E a ideia que ganhou forma para o controle biológico nas lavouras foi a produção, em laboratórios, de vespas do gênero trichograma, que se alimentam de ovos de outras pragas antes que as larvas se tornem lagartas.

O fundo de investimento Createc, parceria entre o BNDES (80%) e o Banco do Nordeste (20%) entrou como sócio no empreendimento por recomendação da SP Venture, gestora regional do fundo em São Paulo.

“Quando conheci os garotos no laboratório da Esalq, testando novos modelos de criação de pragas, perguntei se o interesse era o mercado orgânico”, lembra Francisco Jardim, diretor da SP Venture. “Eles disseram que não, que o objetivo era maior, já que os agroquímicos não estavam mais resolvendo totalmente o combate às pragas por causa da crescente resistência das plantas. A cada ano era necessário aumentar a dose, colocando pressão sobre o ambiente e o consumidor final. E a ideia deles era ter uma alternativa ecologicamente aceitável para uma agricultura brasileira em expansão”, afirma ele.

Antes de dar o sinal verde para o investimento, Jardim fez contatos na Europa e em Israel sobre tecnologias de controle biológico na agricultura. “Na Holanda, vi que uma empresa estava faturando US$ 100 milhões por ano produzindo insetos, mas em estufas e em um mercado altamente subsidiado. Vi que a coisa não era brincadeira. A Bug poderia fazer o mesmo para milhões de hectares no Brasil – que pelo tamanho, clima e outras características, pode ser um paraíso para as pragas”, observa.

O fundo Createc, que normalmente aplica R$ 1,5 milhão na primeira etapa de um projeto, tem 20% de participação na Bug. Jardim, como seu representante, é o diretor-financeiro. Diogo de Carvalho, sócio-fundador da empresa, conta que inicialmente a Bug trabalhou no controle biológico da principal praga dos canaviais, a broca de cana, e depois entrou em grãos. “Desenvolvemos um sistema eficaz de produção e em escala comercial”, diz ele.

A Bug desenvolveu um sistema próprio de produção e embalagem que permite que o material biológico seja enviado a todo o país e ao exterior. Toda produção é pré-analisada com o agricultor. A empresa normalmente sugere o uso de 100 mil vespas por hectare. E uma vantagem é a redução de 30% nos custos em comparação com os agroquímicos.

O custo da liberação de vespas nas lavouras varia de R$ 40 por hectare, na cana, a entre R$ 90 e 120 no caso da soja. A empresa já tem clientes também nas áreas de milho, feijão, tomate, pimentão e pepinos, entre outros produtos.

A Bug informa ter mais pedidos de clientes do que capacidade de atendê-los. E no momento não tem interesse em exportar, porque a demanda interna é muito grande, sobretudo com a expansão da produção brasileira de milho safrinha e de feijão irrigado.

A empresa também está em fase de expansão no rastro da lagarta Helicoverta armigera, praga que vem atacando lavouras comerciais do Brasil. “Ela veio da Austrália e estourou por aqui, dando prejuízos enormes. E o interesse pelo controle biológico aumentou”, afirma Carvalho.

A empresa espera fechar a atual safra agrícola com uma área total de atuação de seus clientes de 1 milhão de hectares de lavoura no país. O faturamento poderá alcançar R$ 7 milhões. A projeção é chegar a R$ 30 milhões em três anos.

“Com 300 vendedores em campo, a empresa poderia faturar R$ 300 milhões. Hoje ainda não temos forças de venda ou de produção, mas a tendencia é abocanharmos cada vez mais mercado dos agroquímicos, cujas vendas chegam a quase US$ 8 bilhões no Brasil”, prevê Jardim.

Por seu próprio modelo de negócio, a Bug, no futuro poderá passar ao controle de uma grande multinacional do segmento, acredita Jardim. Ele nota que grupos como Monsanto e Syngenta vêm adquirindo cada vez mais companhias inovadoras, absorvendo suas linhas de produtos e conferindo a elas novas escalas comerciais.

Neste ano, das 36 novatas selecionadas pelo Fórum Econômico Mundial, 24 são dos EUA e nenhuma da China. Da América Latina, só a Bug e uma empresa do México (Data4). A seleção, realizada a partir de centenas de candidaturas, reconhece esforços de empresas também para curar doenças genéticas, fornecer água potável a preços acessíveis, permitir o acesso ao ensino superior, inovar na distribuição de luz natural em edifícios e oferecer recarga sem fio para dispositivos eletrônicos.

Entre as “Pioneiras em Tecnologia” de anos anteriores estão Google (2001), Mozilla Corporation (2007), Wikipedia (2008), Recyclebank (2009), Twitter (2010), Dropbox (2012) e SoundCloud (2013). A entrega do prêmio será no dia 12 de setembro em Dalian, na China.

Fonte: Valor

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