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Brasil seguirá exemplo de desenvolvidos na contratação de médicos estrangeiros

O governo brasileiro está usando como argumento o exemplo de países desenvolvidos para conseguir colocar em prática o projeto de importação de médicos estrangeiros para atuar no interior do país e em regiões periféricas de grandes cidades.

Durante participação no seminário “Saúde – Desafios de Hoje e Amanhã”, promovido pelo Valor e pela Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma), o secretário de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde, Carlos Gadelha, disse ontem a uma plateia de empresários da indústria farmacêutica e especialistas do setor que o assunto não deve ser tratado como dogma nem como reserva de mercado.

Num claro recado a entidades que representam a classe médica no país, vozes mais críticas à proposta do governo, Gadelha listou alguns países desenvolvidos que adotaram como política de saúde a contratação de médicos estrangeiros para trabalhar, principalmente na atenção básica.

“Dos médicos que trabalham hoje no Brasil, temos apenas 1,79% de estrangeiros. Na Inglaterra, que tem um sistema parecido com o SUS, essa taxa é de 37%. Cerca de 25% dos médicos que atuam na saúde pública e privada dos Estados Unidos não são americanos. No Canadá, os estrangeiros são 24%, e na Austrália, 22%. Portanto, não dá para ficar cego diante dos dados, o tema não pode ser tratado como dogma, mas sim como uma política pública que pode melhorar o acesso à saúde, um direito garantido pela Constituição”, disse Gadelha, que também questionou a distribuição dos profissionais de medicina pelo país. “A média de médicos no país é baixa, de 1,95 profissional para cada mil habitantes. Além disso, temos uma péssima distribuição desse contingente: 22 Estados estão abaixo da média nacional”, disse.

A ideia de importar médicos vem sendo debatida dentro do governo há alguns meses e ganhou força nos últimos dias em decorrência dos protestos que movimentam o país e cobram, entre outras reivindicações, melhorias na saúde pública. Para suprir a carência de doutores,o governo pretende trazer 6 mil profissionais estrangeiros para atuar somente na rede pública e, principalmente, na atenção básica do interior e de periferias.

“Pelo menos 700 municípios do Brasil não têm sequer um médico em seu quadro de servidores”, afirmou Gadelha. Segundo ele, as respostas às recentes manifestações devem ser endereçadas, em parceria, pelos governos federal, estaduais e municipais e também pelo setor privado.

Um dos críticos mais duros da proposta, o presidente da Associação Médica Brasileira (AMB), Florentino Cardoso, disse que pode até concordar com a medida, mas desconfia de sua efetividade. “É preciso definir bem a avaliação, não adianta trazer médicos desqualificados. Também não adianta trazer médicos, se o equipamento de saúde não funcionar bem. Em Fortaleza, a quinta maior capital do país, o hospital da Universidade Federal do Ceará, usado na formação de profissionais, está interditado”, reclamou Cardoso.

Executivos do setor farmacêutico presentes ao evento, que têm relação muito próxima a médicos da saúde pública e privada, disseram que a medida tem pouco impacto no dia a dia da indústria. “A aproximação com os profissionais é prática no mundo todo. Com certeza vamos conseguir adaptar nosso relacionamento com os estrangeiros, que são muito poucos perto dos 300 mil médicos que atuam hoje no Brasil”, disse Jorge Raimundo Filho, executivo da Interfarma.

O alto custo na saúde pública e privada foi outro tema bastante discutido no seminário. Gadelha, destacou que um dos desafios na saúde pública é adotar novas tecnologias para melhorar a qualidade de atendimento, sem aumentar de forma expressiva os gastos.

Nos Estados Unidos, os gastos com saúde, pública e privada, somam US$ 2,8 trilhões – o valor no Brasil é de cerca de US$ 500 bilhões. “Nós não recebemos em troca o que gastamos. Estamos longe de ser uma população saudável”, disse Judith Salermo, diretora-executiva do Instituto de Medicina dos Estados Unidos.

Judith destacou ainda que um dos grandes problemas na área da saúde nos Estados Unidos é o desperdício com, por exemplo, exames e procedimentos desnecessários. Esse desperdício somou US$ 750 milhões em 2009.

No Brasil, também há grandes desperdícios, principalmente, em exames de imagem não retirados. “O que se gasta em saúde no Brasil equivale a 9% do PIB. Mesmo patamar da Europa, e lá o atendimento é melhor”, ressaltou José Cechin, diretor-executivo da Fenasaúde, entidade que representa as operadoras de planos de saúde.

“Eu questiono as estratégias de lutar por mais financiamento, sem acabar com os problemas regulatórios. Dessa forma não dá resultado”, ressalta Antônio Britto, presidente da Interfarma.

Fonte: Valor

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