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Boeing e Embraer montam rede para biocombustíveis

Como diminuir a produção de gases de efeito-estufa gerados pela queima de combustíveis de aviação? Em busca de uma resposta, as companhias aéreas Boeing e Embraer se associaram para dar início a uma rede de troca de informações sobre o tema. Tudo começou com um acordo firmado em outubro de 2011 entre as duas empresas e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) para colaboração de longo prazo na pesquisa e desenvolvimento de biocombustíveis para aviação. Em março de 2012, a Airbus entrou para a rede, que é aberta a quem tiver alguma contribuição a dar à discussão. Hoje a rede abriga 30 empresas, entre companhias aéreas e seus fornecedores.

“A aviação responde por pouco mais de 2% da emissão de gases de efeito estufa, mesmo assim, estamos buscando alternativas”, disse Al Bryant, vice-presidente da filial brasileira da Boeing, na exposição que fez durante a 3ª Conferência de Inovação Brasil-Estados Unidos. A intenção das aéreas é obter, em um trabalho conjunto com os fornecedores de equipamentos, um diagnóstico que permita elaborar um plano de “voo verde”, levando o setor à situação de neutro em emissão de carbono até 2020.

A rede das aéreas foi apontada como um exemplo de cooperação entre Brasil e EUA no campo energético, tema do grupo de trabalho 2 da conferência, formado por cerca de 30 especialistas reunidos em uma mesa redonda na qual se discutiu as oportunidades com as matrizes energéticas globais. Para Otávio Camargo, diretor da Associação Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), o encontro permitiu um “mapeamento de expectativas e oportunidades para integração e parcerias entre empresas americanas e brasileiras em inovação tecnológica na área de energia”.

Jorge Boeira, coordenador da área de energia da ABDI, entende que no caso da Boeing, a parceria com uma empresa brasileira para uma solução em biocombustíveis faz todo sentido. “O Brasil é quem tem uma trajetória mais desenvolvida no campo do etanol”, disse.

Ambos os países têm obstáculos a superar em termos de geração, transmissão e distribuição de energia, mas para Rodrigo Bacellar, superintendente do BNDES, é preciso buscar uma complementariedade entre as fontes e suas demandas. “Estamos desenvolvendo soluções em termo solar e os EUA têm um parque desses (de energia solar), então podemos dar uma contribuição”, disse o executivo do BNDES.

Outro exemplo de possível complementariedade é a Vale. Enquanto a mineradora tenta equacionar a necessidade de levar energia para projetos temporários de mineração no meio da região amazônica, sem provocar grandes impactos no meio ambiente e sem elevar às alturas o custo da atividade exploratória, a National Electrical Manufactureres Association (NEMA, na sigla em inglês, equivalente à Abinee americana) busca mercados para ampliar o desenvolvimento de equipamentos de tecnologia “smart grid” (rede elétrica inteligente) e os chamados “microgrids” (pequenas redes independentes e autônomas). “Estamos desenvolvendo tecnologias que monitoram o consumo de energia na área industrial”, contou Gene Eckhart, diretor de assuntos internacionais da NEMA.

“Nosso grande desafio é gerar energia em áreas remotas, de média escala, de forma competitiva e sustentável”, afirmou Claudia Villa Diniz, diretora para as áreas de tecnologia e propriedade intelectual da Vale. Uma das maiores consumidoras de energia do país, sendo apenas 20% de energias renováveis, a Vale vem investindo em biocombustíveis visando a aumentar seu uso principalmente na logística de transporte. Mas, pelo que disse Claudia Villa Diniz, a procura por uma solução de eletricidade nos campos remotos ainda não encontrou resposta adequada.

“Os desafios são muito parecidos e soluções de uma indústria podem caber em outras, por exemplo a questão da Vale e os microgrids”, comentou Rafael Navarro, diretor de tecnologia e inovação da Braskem.

Fernando Vieira Castellões, diretor para a área de P&D em Petróleo, Gás e Químicos da Petrobras relatou que a empresa elevou seus investimentos em P&D nos últimos dez anos de R$ 160 milhões para R$ 1,2 bilhão anuais, direcionando parte de suas pesquisas para a área de recursos renováveis, de olho nas tendências de longo prazo que apontam um crescimento expressivo do uso de combustíveis alternativos. Ainda assim, destacou estudos da agência americana de energia (EIA) que apontam que os combustíveis fósseis ainda serão a matriz principal pelo menos até 2035, o que justifica a manutenção de esforços no segmento.

Petróleo e gás também é o foco dos investimentos da General Electric (GE) no Brasil, como informou Kenneth Herd, gerente geral do Centro de Pesquisas Global da empresa na Ilha do Fundão, Rio de Janeiro. A GE está investindo R$ 500 milhões neste que é seu primeiro centro de pesquisas na América Latina e o quinto no mundo – a empresa tem unidades também nos EUA, Alemanha, Índia e China.

Na visão de Thomas Mason, diretor do Laboratório Nacional Oak Ridge (ORNL na sigla em inglês), o grande desafio nos EUA hoje é encontrar a energia necessária para manter a qualidade de vida de seus habitantes e descobrir o ponto até o qual se pode tolerar o impacto ambiental causado pela exploração dessa energia.

Mason, que comanda a área de desenvolvimento tecnológico em energia e biocombustíveis de um centro de estudos multidisciplinar mantido pelo Departamento de Estado dos EUA, disse que “Brasil e EUA têm vantagens comparativas na área de energia limpa por contarem com produção agrícola suficiente para produzir biocombustível sem deixar faltar alimentos para suas populações”. Segundo ele, “estamos falando na verdade de qualidade de vida.”

Fonte: Valor

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