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Após ascensão estelar, biotecnológica está sob a lupa do mercado

Há dez anos, o médico canadense Mark Pruzanski comandava a Intercept Pharmaceuticals Inc. sozinho, de seu apartamento em Manhattan, e acumulava US$ 100.000 em dívidas. Na época, o saldo da conta bancária da empresa era de apenas US$ 4,41.

Até sexta-feira, a empresa, que tem hoje 45 funcionários, era a mais badalada do setor de biotecnologia. Seu valor de mercado subiu mais de seis vezes ao longo da última semana, passando de US$ 1,4 bilhão a US$ 8,6 bilhões, depois que seu medicamento para uma doença do fígado teve um desempenho surpreendente num teste clínico financiado pelo Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos, ou NIH, na sigla em inglês.

Nesta semana, o entusiasmo dos investidores com a empresa, que ainda não é rentável, diminuiu um pouco. Até o fechamento de ontem, a Intercept tinha perdido cerca de US$ 3,2 bilhões em valor de mercado e a cotação da sua ação havia caído perto de 36,9% desde o fechamento de sexta-feira, para US$ 281,26. Os investidores começaram a considerar os riscos de questões de segurança ou a concorrência de rivais maiores que podem limitar o crescimento futuro da empresa. Ainda assim, a ação registra um aumento de 288,5% em relação à cotação de antes das notícias sobre o teste clínico e já subiu quase 1.350% desde sua abertura de capital, em outubro de 2012.

Tendo passado de uma empresa novata precisando de dinheiro a um caso de sucesso no mercado acionário, a Intercept é um exemplo das mudanças bruscas que podem ocorrer na indústria de biotecnologia, onde se faz fortunas – e se perde – de um dia para o outro, com base em pequenos estudos clínicos de remédios que ainda devem demorar anos para chegar ao mercado.

“Tem sido um passeio de montanha-russa interessante”, diz Pruzanski, de 46 anos, em entrevista ao The Wall Street Journal.

Na sexta-feira, Nora White, a primeira funcionária contratada por Pruzanski, em 2006, dedicou parte do dia no novo escritório da Intercept a responder a várias perguntas de investidores e jornalistas curiosos para saber mais sobre a desconhecida empresa.

Ela disse que manteve a maioria das suas ações da Intercept, apesar de nunca ter esperado que o valor subisse tanto. “É uma mudança de vida”, diz White, de 42 anos. “Disse ao meu marido: ‘Podemos agora nos dar ao luxo de ter filhos'”, brinca.

Conseguir sucesso duradouro no setor de biotecnologia é difícil. Muitas empresas ficam sem recursos e acabam falindo antes que suas pesquisas possam ser concluídas, e poucas obtêm aprovação regulatória para seus medicamentos. Mesmo quando a droga parece ter um bom resultado, com frequência os efeitos colaterais impedem que ela chegue ao mercado. O medicamento da Intercept ainda pode falhar em estudos futuros.

Na sexta-feira, o NIH divulgou um comunicado afirmando que os pacientes que usaram o medicamento da Intercept, chamado de ácido obeticholic, ou OCA, apresentaram uma taxa maior de problemas de colesterol – colesterol ruim (LDL) mais alto e colesterol bom (HDL) mais baixo – do que as pessoas que tomaram um placebo durante o teste. O estudo analisou a eficácia do medicamento contra a doença hepática gordurosa não alcoólica, conhecida também como síndrome de Nash, pela sigla em inglês. Ela afeta entre 2% e 5% da população americana.

Níveis anormais de colesterol elevam o risco de problemas cardíacos, a principal causa da morte de pacientes que têm a doença, diz Mary Eugenia Rinella, especialista em doenças hepáticas da Faculdade de Medicina da Universidade Northwestern, de Chicago.

Pruzanski diz que a Intercept está ciente dos efeitos do seu remédio sobre os níveis de colesterol e que a empresa continua a estudar os efeitos sobre os pacientes.

Na entrevista ao WSJ, Pruzanski disse que estava tomando uma taça de vinho com um colega num restaurante, na semana passada, quando recebeu um telefonema do diretor clínico da empresa contando a novidade: o OCA tinha se mostrado tão eficiente no estudo sobre a síndrome de Nash que o teste estava sendo encerrado antes do previsto – um acontecimento raro no desenvolvimento de medicamentos, que sugere que o tratamento tem potencial para ser considerado uma descoberta do setor.

“Fiquei sem palavras”, diz Pruzanski. “Reconhecemos imediatamente que o nosso momento de revolução tinha ocorrido antes do que esperávamos”, diz o diretor-presidente da Intercept, cuja carteira com ações e opções de ações da empresa está avaliada em US$ 223,3 milhões com base na cotação de ontem.

Até 2006, Pruzanski comandava a Intercept sozinho. Segundo ele, amigos e parentes passaram a pedir que ele arrumasse um “emprego de verdade”, depois que uma rodada de financiamento inicial para sua empresa não se materializou. “Minha irmã me repreendia porque [achava que] eu nunca seria um empreendedor”, diz.

No início dos anos 2000, Pruzanski procurou um químico italiano e professor da Universidade de Perúgia, na Itália, depois de saber que ele tinha desenvolvido medicamentos capazes de começar um processo de recuperação do fígado. Pruzanski, que fala italiano e outras cinco línguas, marcou um jantar com o químico, Roberto Pellicciari, em 2002. Os dois se deram bem e decidiram criar a Intercept, mas a empresa logo enfrentou problemas. No último minuto, um investimento de US$ 15 milhões de um fundo de capital de risco gorou.

Pruzanski diz que investiu suas economias e estourou seus cartões de crédito até que um velho amigo da sua cidade natal, Toronto, Michael Aberman – hoje vice-presidente da Regeneron Pharmaceuticals Inc. -, o apresentou a Garo H. Armen, um empreendedor do setor de biotecnologia de Nova York disposto a investir US$ 50.000. Ele acabou ajudando a captar quase US$ 3 milhões em financiamento dele e de outros investidores individuais.

Antes de a Intercept captar US$ 41 milhões, em 2006, de companias como a italiana Genextra SpA, a conta bancária da empresa chegou a ter apenas US$ 4,41, segundo Pruzanski.

Depois que abriu seu capital em 2012 e no ano passado, a Intercept experimentou um grande sucesso, graças a um boom generalizado no setor de biotecnologia e alguns dados positivos de testes clínicos com o uso do OCA para uma doença hepática distinta chamadas cirrose biliar primária. Em 2013, a ação da empresa dobrou de valor.

Até a semana passada, a Genextra era a maior acionista da Intercept, com uma fatia de cerca de 33%. O SAC Capital Advisors LP, fundo de hedge que no ano passado se declarou culpado num caso de uso de informação privilegiada nos EUA, e seu braço Sigma Capital Management LLC tinham 5,3% das ações em circulação até 7 de novembro.

“Esse é um negócio arriscado, estúpido”, diz Pruzanski. “A maioria das [firmas de] biotecnologia fracassam no meio do caminho.”

Fonte: Valor

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