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Alienação de terras causa mal-estar entre pesquisadores

O anúncio da venda de terras pertencentes a institutos de agricultura do Estado está causando mal-estar entre cientistas. Segundo um grupo heterogêneo de pesquisadores ligados à Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (Apta), da Secretaria de Agricultura, trata-se de mais um sinal de descaso ou de “descompromisso” do governo com a pesquisa.

Questionados pelo Valor, sob a condição de não ter nomes revelados, eles afirmam que a subutilização de propriedades rurais ocorre porque não há dinheiro para pesquisa nem pesquisadores concursados em número suficiente. “Pode parecer ociosidade, mas as terras seriam produtivas se houvesse gente para trabalhar”, disse um cientista.

“O esvaziamento do quadro de pesquisadores, seja por escassez de concurso, baixo salário ou pela aposentadoria de funcionários, é visível. Na nossa fazenda tínhamos 370 oficiais de campo nos anos 80. Hoje há seis”, diz outro pesquisador. “Nesse contexto, terra vazia é previsível, não?”

O coordenador da Apta, Orlando Melo de Castro, refuta a argumentação de que o desmembramento de terras seja sinônimo de descaso. Segundo ele, o motivo é mais simples: ter muita terra já “não faz mais sentido” em alguns casos. “São fazendas doadas por barões do café, áreas gigantescas que não se justificam”, disse. “E isso é custo para nós”.

Segundo Castro, a agência está fazendo o mapeamento de áreas passíveis de venda a pedido da Secretaria de Planejamento, levando em consideração a subutilização das propriedades e as que foram “engolidas” pelas cidades, impedindo o exercício adequado da pesquisa agrícola. “O levantamento envolve todos setores, não só a agricultura. Trata-se de política governamental e o que for orientado será executado”.

Com pouco mais de 0,5% do Orçamento anual do Estado, a Secretaria de Agricultura e Abastecimento de São Paulo vem enfrentando problemas para contratar novos pesquisadores e vê com preocupação os impactos que a falta de pessoal e recursos financeiros estão impondo às fazendas da Apta, muitas delas referências em segmentos como a citricultura e o sucroalcooleiro.

Em entrevista ao Valor, a secretária de Agricultura, Mônika Bergamaschi, afirmou que em algumas regiões as invasões de terra são recorrentes, assim como o roubo de material de pesquisa. Não há dinheiro para vigias. “Há casos de bois que foram roubados para abate. Só deixaram a cabeça com o brinco [de referência do animal]”, exemplifica. “E lá se vão 20 anos de pesquisa”.

Em outros casos, a secretária acredita que o rearranjo de terras é justificável, como nas chamadas Casas de Agricultura, que prestam serviço de assistência técnica e extensão rural. Há mais de 500 delas no Estado. “A de Franco da Rocha é um exemplo que pode ser desativada porque sequer existe área rural lá”.

Segundo Mônika, a pesquisa agrícola enfrenta problemas até por uma questão de prioridades – as demandas da própria sociedade são centradas em soluções para as áreas de transportes, saúde e educação. Ela admite que há poucos pesquisadores e que os concursos deveriam ser mais frequentes, mas não vê o descaso do governo sentido pelos cientistas. “Adoraria que o dinheiro com a venda de terras viesse para a Agricultura”, diz a secretária.

Fonte: Valor

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