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Sem bons professores não há futuro

Países como Coreia do Sul, Finlândia, Cingapura, Canadá e Japão, que estão no topo da educação mundial, têm pelo menos uma coisa em comum: ser professor nesses países é objeto de desejo. Os jovens se sentem atraídos pela carreira do magistério. No Brasil, eles têm fugido da carreira. País sem bons professores não tem futuro. Não é à toa que a qualidade de nosso ensino médio está estagnada há mais de 10 anos.

 

Muitos jovens não conseguem terminar essa etapa, ficando pelo meio do caminho, e a grande maioria dos que o concluem sai com baixo nível de aprendizagem. Por exemplo, em matemática, 89% dos concluintes não aprenderam o que seria esperado ao término da última etapa da educação básica. Por isso, a oferta de um ensino médio de qualidade, capaz de motivar nossa juventude, é o grande desafio da educação brasileira.

 

Para que isso aconteça, um pré-requisito essencial é ter bons professores – em quantidade suficiente para atender à atual demanda. Por exemplo, dos que ensinam física, 61% não tiveram formação na disciplina ou em outra da mesma área de conhecimento; em química, o percentual é de 44%. Soma-se a isso um currículo pouco atraente numa escola de tempo parcial. Como gostar do ensino médio nessas circunstâncias?

 

Estudo da professora Bernadete Gatti, da Fundação Carlos Chagas, mostrou que tanto a formação inicial dos nossos professores quanto a continuada estão longe das atuais necessidades da escola pública. Não dialogam com a sala de aula. A formação é muito teórica. Não há propriamente projeto ou plano de estágio, nem sinalizações sobre o campo de prática ou a atividade de supervisão.

 

Raras instituições especificam em que consistem os estágios e sob que forma de orientação são realizados, ou se há convênio com escolas das redes. A escola, como instituição social e de ensino, é elemento quase sempre ausente nas ementas, o que leva a pensar numa formação pouco integrada com a ação profissional do professor.

 

Na maior parte dos ementários analisados, não foi observada articulação entre as disciplinas de formação específica (conteúdos da área disciplinar) e as de formação pedagógica (conteúdos da docência). Na prática, o que se observa é que a licenciatura não tem identidade própria, é um híbrido mal-estruturado entre o bacharelado e disciplinas do campo pedagógico.

 

Sem bons professores não teremos um bom e atraente ensino médio. Aqui é preciso um pacto entre governos – nas esferas estadual e federal – e instituições formadoras. Aí voltamos ao primeiro trecho deste artigo: por que nos países citados os jovens são atraídos pela carreira do magistério? Essencialmente quatro fatores respondem à questão: salário inicial atraente, plano de carreira motivador, pautado no desempenho em sala de aula e na formação continuada, formação inicial sólida com foco na prática docente e escolas bem-estruturadas e organizadas.

 

Isso é a parte que cabe ao futuro empregador: o governo estadual em colaboração com o governo federal. Há um movimento interessante em prol de criar uma carreira federal para os estados, com certificação docente. Às instituições formadoras, por sua vez, cabem mudanças profundas na formação docente. E aqui proponho algumas iniciativas.

 

Primeiro, é preciso dar identidade às licenciaturas, integrá-las por área de conhecimento, com professores dedicados em tempo integral à educação básica com foco no ensino médio. A esses se juntariam os que poderíamos chamar de “professores-pontes”, professores do ensino médio que teriam parte do tempo dedicado a esse espaço próprio de formação de professores. Eles trariam o “cheiro de escola”. Um terceiro grupo seria o dos professores visitantes, que oxigenariam o sistema com novas práticas docentes. Além do grupo dos respectivos bacharelados, que seriam colaboradores no processo de formação.

 

Como os alunos das licenciaturas em geral chegam do ensino médio com formação muito precária, seria dada a eles atenção especial já nessa etapa da educação básica – ou seja, os futuros alunos que quisessem ingressar nos cursos de licenciatura deveriam estudar preferencialmente em escolas de tempo integral, e, motivados por nova carreira, teriam atenção especial das instituições formadoras já no ensino médio. Os alunos de licenciatura, nessa nova roupagem de formação, teriam todos bolsa de iniciação à docência, com plano de trabalho bem definido.

 

Por fim, o currículo da nova licenciatura teria como características o foco na prática docente e na formação interdisciplinar, a forte inclusão das novas tecnologias e de espaços de aprendizagem e a residência docente em escolas de tempo integral. Quanto custa isso? Certamente menos do que se gasta para recuperar os jovens que estão nas ruas, afastados das escolas e sem perspectivas futuras. Como disse Derek Bok, ex-reitor de Harvard, se você acha a educação cara, experimente a ignorância.

Fonte: Jornal da Ciência, por Mozart Neves Ramos

(Este artigo reflete as opiniões do autor, e não do portal Consecti. O Consecti não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações)

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