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Professor de matemática usa pesquisas de opinião para ensinar estatística

Por volta de 2000, quando trabalhava como professor temporário da rede estadual do Ceará, li um relatório sobre os assuntos que eram mais abordados em sala de aula. Após fazer uma verificação da proporção entre o que os alunos deveriam aprender e o que era apresentado em sala de aula, percebi que o ensino da estatística ainda era uma lacuna. Ao me deparar com isso, pensei em fazer um projeto que envolvia pequenas pesquisas de opinião dentro da própria escola.

O projeto começou a ser desenvolvido em 2001, envolvendo os alunos do terceiro ano. No começo, a escola não tinha muitos recursos que pudessem me ajudar, tanto materiais, quanto humanos. Eu fiquei praticamente sozinho, mas os resultados que começaram a surgir foram muito interessantes.

Naquela época, mesmo com poucas condições financeiras, os alunos faziam as apresentações do trabalho com a lousa e o giz. Eles gastavam boa parte do tempo desenhando gráficos e tabelas para mostrar os resultados. Embora não tivessem muitos recursos, eles se propunham a fazer.

Entre 2004 e 2005, eu comecei a convidar colegas professores para sugerirem temas para as pesquisas dos alunos. Foram surgindo algumas ideias, como a guerra no Líbano, a merenda escolar e a renda dos alunos. Com o passar do tempo, a tecnologia foi chegando à escola e conseguimos ter uma participação mais efetiva dos alunos. Os professores e a direção começaram a se engajar mais e os assuntos ficaram mais interessantes.

Durante o desenvolvimento do trabalho, dividimos o projeto em algumas fases. Na primeira, os alunos organizam equipes de cinco integrantes, montam estratégias de trabalho e criam um nome para os institutos de pesquisa deles. Paralelamente, temos as nossas aulas teóricas, que são intercaladas com as atividades do projeto.

Após fazer um sorteio dos temas, os alunos conversam com o professor ‘contratante’ que fez a sugestão, uma espécie de cliente que aponta quais devem ser os aspectos explorados com aquela pesquisa. Depois disso, reservamos um horário no laboratório de informática para estudar os assuntos solicitados.

Na etapa seguinte, construímos um questionário base para a pesquisa. Eu costumo pedir para que os alunos levem as perguntas para os professores de português avaliarem e fazerem correções gramaticais. Também é neste momento que o questionário precisa ser aprovado pelo contratante.

Passando a fase de validação, partimos para a coleta de dados e a tabulação dos resultados. Os alunos vão para o laboratório de informática e a professora ajuda na criação de slides para as apresentações.

Com a tecnologia, saímos do giz e fomos para o data show. As apresentações ficaram muito mais ricas. Durante 50 minutos, os alunos mostram os dados coletados, fazem uma introdução do tema e também abrem espaço para um debate. O momento conta com a presença de professores e gestores. Já tivemos até a participação da nossa superintendente da secretaria.

A direção começou a olhar para o projeto como uma forma de conhecer a percepção dos alunos e obter informações sobre a escola que seriam úteis para fazer o seu próprio planejamento. Isso passou a alimentar a escola.

Neste período, também tive a oportunidade de ver algumas iniciativas semelhantes. Quando estava fazendo a minha monografia, em 2006, encontrei um artigo em uma revista que mostrava o projeto parecido, desenvolvido em uma escola municipal de Farroupilha (RS). Ao fazer uma viagem de férias com a minha família, em 2012, tive a oportunidade de visitar a escola que vi na reportagem e contei sobre o meu projeto. Fiquei muito contente porque é um outro local, com pessoas diferentes, mas que estão seguindo pela mesma linha.

O projeto teve alguns avanços nos últimos anos. Já rompemos as barreiras da escola e agora estamos entrando na comunidade. Fizemos uma experiência em que os pais foram às ruas para pesquisar com os alunos no bairro. Em outra equipe, alguns estudantes fizeram pesquisas com funcionários de uma confecção da região. Estamos sempre abertos para transformar o que seria um trabalho escolar em uma pesquisa sobre a vida da nossa comunidade.

Todos os anos temos uma média de 28 a 35 pesquisas produzidas. Durante o projeto, que costuma ter a duração de um mês e meio, fazemos uma avaliação continua dos nossos alunos. Eles são acompanhados até chegar o momento da apresentação. Professor e aluno caminham juntos para alcançar o objetivo, que é aprender.

Marcos Davi Serra

Formado em Matemática(2003) e Administração(1996) pela UECE (Universidade Estadual do Ceará). Especialista em Ensino de Matemática(2007) pela UECE (Universidade Estadual do Ceará). Professor temporário entre 1997-2001 e efetivo da Rede Estadual do Ceará desde 2002. Trabalha na EEFM Deputado Francisco de Almeida Monte (Fortaleza -Ceará).
Artigo publicado em 13/01/2016 no Portal Porvir.org

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